Quando Shin Megami Tensei V foi lançado no Nintendo Switch em 2021, suas ressalvas foram sobretudo técnicas, apesar da recepção positiva entre a crítica e os fãs. A Atlus conseguiu tirar leite de pedra e parecia ter atingido o seu limite no esforço de dar vida ao quinto episódio de Megaten, entregando um universo denso e significativamente mais ambicioso que outros RPGs lançados para o console híbrido da Nintendo.

Em 2024, com o lançamento da versão definitiva de Shin Megami Tensei V para as plataformas atuais, fica claro que o fator limitante, à época, não foi o poder de hardware do Nintendo Switch em si, e sim o curto prazo de produção que a Atlus teve para lapidar sua obra. Sim, a desenvolvedora japonesa só precisava de uns anos a mais para alcançar o nível de qualidade que almejava desde a concepção do projeto.

Revisitar Megaten V foi como viajar a um lugar querido depois de muitos anos: familiar, mas com novos atrativos que só a saudade e o tempo podem proporcionar. Tempo, aliás, é o que você vai precisar ter de sobra para desbravar tudo que o relançamento tem a oferecer. Generoso é pouco para adjetivá-lo: são as mais de 100 horas da versão original somadas às mais de 80 adicionais de Vengeance.

Gostinho de novidade

Em respeito às restrições do embargo e à experiência de quem ainda não pôde apreciar SMT V, fico limitado a dar detalhes mais profundos da história, então me apego somente à premissa básica. Situada em uma Tóquio devastada pelo apocalipse, a aventura segue os eventos da batalha entre os anjos e as forças do caos, com ambos os lados lutando pela humanidade.

Nosso protagonista se encontra no meio da guerra, encurralado em um fogo cruzado, com Betel empenhado em proteger o reino do Deus da Lei, enquanto os demônios lutam para instaurar a desordem. Você, no papel de um ser poderoso conhecido como Nahobino, isto é, alguém que despertou sua forma por meio da união entre conhecimento e vida, nem humano nem demônio, passa a integrar um grupo cujo objetivo é proteger o mundo – ou o que ainda resta dele.

Apesar de a narrativa ter seus pontos altos, uma das críticas em relação ao título original era sua falta de profundidade, visto que o foco passou a ser mais no desenvolvimento do gameplay. Megaten V não estimula reflexões filosóficas, tal como os jogos anteriores da série principal, mas promove debates, ainda que dispersos, sobre o modelo de sociedade ideal.

Nesses tempos em que vemos tantos relançamentos, remakes e remasters por aí, games que trazem algo novo como complemento à experiência são sempre bem-vindos. SMT V faz isso muito bem ao desmembrar o cânone em dois: o da Criação, que retrata a história do título de 2021, e o da Vingança, uma rota inédita cuja trama é centrada na vingança dos caídos, conduzida por novos personagens e pelo grupo de demônios Qadištu.

Embora o Cânone da Vingança reserve suas novidades para os momentos mais avançados da história, ele apresenta notável dedicação em se distanciar do trajeto inicial que os fãs conhecem. Novos monstros e fusões, missões secundárias e sistemas estão ali para dar frescor à exploração, mesmo a quem já está familiarizado com os caminhos do Submundo.

Enfim, textos em português – e a mesma sacanagem  de Persona 5 Royal: quem tem, compra de novo

Oferecer segmentos distintos de narrativa, incluindo um inédito, é uma ideia louvável e que mais produtoras deveriam aderir, para ser sincero. O problema, porém, é a Atlus não permitir o upgrade à versão Vengeance ao usuário do Nintendo Switch que já investiu dinheiro no produto – como este redator que vos escreve.

Fonte:  Tecmundo 

Seguindo a tendência de Persona 5 Royal e dos últimos títulos numerados da franquia Megaten, a produtora quer que você encare Vengeance como um jogo à parte. Não que o game não justifique o preço cheio, pelo contrário, mas desamparar o jogador que o adquiriu no lançamento, lá em 2021, não é a alternativa mais justa. O motivo é óbvio: os valores proibitivos praticados no Brasil.

Olhando pelo lado bom, Vengeance é o primeiro título da série a receber legendas oficiais em português do Brasil. Pode parecer algo simples e obrigatório para qualquer produto lançado em nosso país, mas SMT V é abarrotado de textos e carrega mecânicas complexas de batalha, pautadas em muitos tutoriais, o que sugere que o trabalho de localização não foi fácil nem rápido.

Os monstros, inclusive, são recrutados para o time na base do “xaveco” e sempre dependem de o jogador fazer as escolhas certas nos diálogos – portanto, compreender tudo que está sendo dito é crucial para usufruir dos melhores momentos da jornada. A adaptação dos textos está impecável, vale dizer, e felizmente soube preservar as sacadas inteligentes e o humor negro característico de alguns personagens.

Fonte:  Tecmundo 

Combate robustecido com mais opções

Quando o assunto é combate, aquela máxima de que em time que está ganhando não se mexe se aplica aqui também. Megaten V mantém intacto o seu sistema de batalha mais tradicional, por turnos, que nos encoraja a explorar as fraquezas dos inimigos para ganhar ataques adicionais. Uma vez que você assimila a dinâmica, o combate se revela cativante e estratégico, sendo um dos suprassumos dos JRPGs atuais.

Sem precisar reformular o esquema tático, Vengeance apenas robustece o que já era bom ao ampliar o seu leque de demônios, ultrapassando as 270 criaturas (considerando as fusões), e ao introduzir novos talismãs e habilidades Magatsuhi. A flexibilidade para combinar diferentes skills e equipes é genuinamente assustadora e, às vezes, deixa o jogador perdido diante de tantas opções, por ter muitas ferramentas à mão.

Existem, é claro, facilitadores, como o modo casual, uma combinação do Safety Mode da versão base com a própria opção de jogo fácil, mas, de modo geral, a experiência demanda paciência e muito grind, independentemente da dificuldade escolhida. O teto de nível também subiu, de 99 para 150, agora que os demônios receberam buffs no modo mais punitivo, Godborn, e versões mais poderosas, reconhecíveis por suas auras Magatsuhi.

Fonte:  Tecmundo 

Em termos de acessibilidade, é possível acelerar combates e configurar assistências para atacar e lançar magias sem a necessidade de escolher uma a uma nos menus. Se você é do tipo que prefere não se preocupar em estabelecer táticas e apenas deseja aproveitar a história, saiba que esses facilitadores foram projetados para o seu perfil.

Ajustes finos, porém necessários

Tão importante quanto os complementos ao combate são as melhorias de qualidade de vida. A exploração, por exemplo, foi facilitada com a inserção de atalhos inexistentes no original, com alguns deles levando o nosso protagonista a locais secretos. Não só isso: o mapa recebeu atualizações que favorecem a navegação pelo mundo, com novos marcadores de atividades e pontos de interesse.

Também há um atalho bastante útil mapeado em um dos botões direcionais, que concede uma visão aérea do mapa, destacando todos os elementos com os quais o personagem pode interagir dentro daquele raio de alcance. A possibilidade de salvar o jogo em qualquer lugar, mais uma das modernidades de Vengeance, também torna a progressão muito mais agradável e convidativa a iniciantes no gênero.

Fonte:  Tecmundo 

Outra novidade é a adição dos Antros de Demônios, locais nos quais os aliados do Nahobino se reúnem para conversar e fortalecer relações. Os diálogos especiais, além disso, destravam trechos inéditos da lore e podem tornar o protagonista mais forte – e ainda é possível dar presentes aos seus demônios aliados, que podem recompensá-lo com buffs e itens-chave. Fica claro que os Antros foram pensados para agradar a quem sentiu falta de mais elementos sociais na jornada de 2021.

Primor técnico: todos os problemas endereçados

O visual, por sua vez, recebeu um “tapa” daqueles e, ao menos no PlayStation 5, versão que usamos para testes, se mostrou bem superior ao que vimos na versão original. Dá para dizer que Vengeance endereça absolutamente todos os problemas de desempenho do jogo base: as quedas de frames brutais, os pop-ins e até as texturas datadas.

Além de sustentar estáveis 60 fps nas plataformas atuais, o que se traduz em uma fluidez absurda, Vengeance aprimora as texturas de inúmeros detalhes, dos monstros aos grãos de areia do Submundo. A resolução também deu um salto considerável e se beneficia da nitidez do 4K, tornando a Tóquio pós-apocalíptica de Da’at bem mais densa e imersiva que antes.

Fonte:  Tecmundo 

Pode ser que eu só esteja mal acostumado depois de ter jogado Persona 3 Reload, mas eu esperava que a Atlus também desse uma atenção especial aos elementos de interface de Shin Megami Tensei V, o que não aconteceu. Os menus parecem antiquados para os padrões de hoje e denunciam a época em que o título original foi lançado. Se você é fã de Persona e nunca jogou Megaten, modere suas expectativas: Vengeance não é nada estiloso, não nesse sentido.

Veredito: vale a pena?

Se você gosta de RPG japonês e nunca jogou, eu diria que Shin Megami Tensei V: Vengeance é uma aquisição mais que obrigatória. Vengeance expande o escopo a um nível obsceno e traz uma batelada de conteúdo novo para complementar a experiência de sua versão anterior, ao mesmo tempo que implementa melhorias gráficas substanciais e de qualidade de vida, em prol de uma jornada mais agradável de ver e divertida de jogar.

A rota inédita também justifica o retorno de quem se aventurou em Megaten V, mas faz quem já é da casa refletir sobre o preço cheio que é cobrado, sem poder realizar o upgrade para a versão parruda no Nintendo Switch. De todo modo, avaliado pelo que é, Vengeance mantém o padrão Atlus de qualidade, sendo um dos melhores JRPGs dos últimos anos, agora com suas arestas devidamente aparadas.

Nota do Voxel: 90

Pontos positivos

  • Consegue corrigir todas as limitações e problemas técnicos do original, da resolução à taxa de quadros;
  • Complementa o pacote com muito conteúdo novo: missões, lugares, personagens, demônios e elementos sociais;
  • Combate robustecido com novas opções e ferramentas;
  • Os ajustes de qualidade de vida dão fôlego à longa jornada;
  • Textos bem adaptados ao português do Brasil.

Pontos negativos

  • Ausência de uma opção para fazer o upgrade à versão parruda no Nintendo Switch, por um valor menor;
  • História mais rasa em comparação com outros títulos da franquia Megaten, embora o Cânone da Vingança, inédito aqui, acerte em muitos aspectos.

Shin Megami Tensei V: Vengeance foi gentilmente cedido pela Atlus para o propósito de análise no PlayStation 5. O título está disponível para PlayStation 5, PlayStation 4, Nintendo Switch, Xbox Series X|S, Xbox One e PC (Steam)



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