Quem se lamenta pela quantidade de recursos vitais destruídos durante as crises ambientais não tem ideia do que perdemos pela ação deliberada dos seres humanos sem tomar conhecimento. Desde árvores raríssimas até espécies inteiras não registradas pela taxonomia, a vida terrestre se esvai em silêncio.

O fenômeno, hoje conhecido pelos cientistas como “extinção sombria”, define espécies que foram aniquiladas sem que ao menos soubéssemos que existiam. O pior é que o processo pode estar acontecendo em todos os pontos do planeta de forma acelerada, e não é registrado, visto se tratar de classes ainda não cientificamente descobertas.

Esse apagão anônimo da biodiversidade representa um grande desafio para a conservação da vida na Terra, pois, se já é difícil tentar manter biomas conhecidos, quando o interesse econômico prevalece sobre a vida, imagine o que significa defender o que é desconhecido de uma morte sem testemunhas.

Como são definidas as extinções sombrias?

Muitas extinções sombrias são detectadas apenas por paleontólogos.Muitas extinções sombrias são detectadas apenas por paleontólogos.Fonte:  Getty Images 

Para ser classificada como “extinção sombria”, a espécie perdida precisa, primeiramente, ser taxonomicamente desconhecida, e também ter “saído de cena” como consequência de uma mudança de habitat provocada pelo homem. Isso significa, que dinossauros extintos, por exemplo, não se enquadram no conceito.

Obrigatoriamente antropogênicas, essas extinções não precisam ter necessariamente acontecido na era moderna.

Na verdade, esse declínio não documentado de plantas e animais iniciou já no momento em que os nossos antepassados começaram a colonizar o continente e caçar, durante a pré-história.

As extinções escuras da Era Moderna e a taxonomia

A taxonomia começou a classificar plantas e animais somente no século XIX.A taxonomia começou a classificar plantas e animais somente no século XIX.Fonte:  Erik Karits/Pexels 

Movimento fundador da Era Moderna na Europa, as grandes navegações deram início, a partir do século XIV, a uma grande onda de extinção antropogênica em todo o planeta. Ao desembarcar em ilhas oceânicas desconhecidas, esses colonizadores levaram ratos, gatos e outras espécies invasoras, que tiveram um impacto devastador na fauna nativa dos novos continentes.

Embora as bases da taxinomia tenham sido lançadas na Grécia Antiga, foi somente no início do século XIX, época de grandes descobertas científicas, que diversos naturalistas começaram a viajar pelo mundo, coletando e descrevendo espécies até então desconhecidas de plantas e animais.

No entanto, mesmo no início da nova ciência, muitas espécies se foram. Segundo Alexander Lees, pesquisador da Universidade Metropolitanos de Manchester, “sabemos o que perdemos e descrevemos, mas a grande incógnita é o que desapareceu antes da descrição e, em alguns casos, desapareceu antes mesmo de a ciência da taxonomia começar”, afirmou ele ao IFLScience.

Quantas espécies terrestres desapareceram em extinções sombrias?

A IUCN lançou uma cooperação global para conservação de corais.A IUCN lançou uma cooperação global para conservação de corais.Fonte:  União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) 

Atualmente, todas as espécies de plantas e animais extintos são oficialmente catalogadas na chamada Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

O documento totaliza 909 espécies, um número que a própria organização reconhece como uma “subestimação significativa”, por não considerar nem extinções desconhecidas, nem espécies não descobertas.

Vários estudos tentam criar um modelo estatístico capaz de calcular essas omissões, mas se trata de uma contabilidade difícil. Um estudo estima em cerca de 1,43 mil espécies de aves eliminadas por atividades humanas, enquanto outro propõe que até 60% de todas as extinções de grupos taxonômicos podem incluir espécies jamais catalogadas.

As extinções sombrias poderiam ser algum dia evitadas?

Aumentar a produção taxonômica pode reduzir as extinções sombrias.Aumentar a produção taxonômica pode reduzir as extinções sombrias.Fonte:  Getty Images 

E, para tornar esse quadro ainda mais obscuro, Lee lembra que cada extinção histórica confirmada abre um leque de possibilidades para a eliminação de espécies comensais associadas a essas criaturas que deixaram de existir. Ou seja, embora a megafauna antiga possa ser detectável no registro fóssil, o mesmo não acontece com seus parasitas.

Assim, uma das soluções para reduzir o fenômeno das extinções sombrias é aumentar significativamente nossa produção taxonômica. Estima-se que, das 8,7 milhões de espécies animais terrestres, somente 1,2 milhão foi classificada nos últimos 200 anos.

Como a taxonomia é hoje grandemente subfinanciada, há necessidade que esse quadro se reverta, afirma Lees. “Você nunca descreverá tudo, mas espero que possamos chegar bem acima de 10%”, conclui.

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