Ninguém chega à vida adulta começando do zero, mas, na maioria das vezes, tratamos tudo aquilo que somos como se tivesse surgido do nada.

“Eu sou inseguro”, “tenho dificuldade de confiar”, “fujo de conflitos”, “eu explodo quando fico com raiva”.

Como se essas características existissem isoladamente, sem uma história por trás delas. Mas, quase sempre, existe. Muito do que hoje chamamos de “quem eu sou” começou apenas como um jeito de aprender a viver no mundo — e a gente aprende observando, convivendo, sendo cuidado, tentando encontrar um jeito de pertencer e de se proteger.

Às vezes, repetimos gestos que jurávamos nunca repetir. Outras vezes, oferecemos aos outros exatamente o cuidado que um dia recebemos. Em ambos os casos, há uma história atravessando o presente, mesmo quando já não conseguimos enxergá-la com clareza.

Há comportamentos que parecem fazer parte da nossa personalidade, mas que, na verdade, foram respostas construídas ao longo do tempo. 

O silêncio pode ter sido uma forma de evitar conflitos. A necessidade de agradar pode ter nascido do medo de rejeição. A dificuldade de confiar pode ter sido uma maneira de se proteger de experiências que um dia machucaram.

Olhar para a nossa própria história é muito importante — não para procurar culpados ou explicar toda a vida pelo passado, mas porque o agora nunca nasce sozinho.

Quem enxerga apenas o agora vê o que existe, mas não percebe a história que o tornou possível. E, se é deste “eu” não integrado que parte o movimento de mudança, ela vai apenas arranhar a superfície.
Mudar não significa apagar o passado, negar as experiências vividas ou rejeitar tudo aquilo que aprendemos. Significa, muitas vezes, compreender de onde vêm determinados padrões para poder escolher, conscientemente, se ainda queremos continuar repetindo-os.

Nós somos, inevitavelmente, herdeiros de uma história — mas não estamos condenados a isso. Toda história é recebida, mas nem toda precisa ser repetida.

Que tal refletir sobre isso? Quais padrões do seu passado você tem repetido? Que comportamentos você aprendeu para sobreviver, pertencer ou se proteger, mas que talvez hoje já não sejam mais necessários?

Conhecer a própria história não muda o que aconteceu. Mas pode transformar a maneira como escolhemos continuar escrevendo a nossa.


DRA. ANDREA LADISLAU é  psicanalista e especialista em saúde mental e comportamental. Ela escreve para vários veicuilos de comunicação no Brasil.