Texto e Fotos de Rubens de Melo / @secondturtle

Há lugares que parecem desligar o relógio assim que você chega. O Lago Watauga, encaixado entre as montanhas do leste do Tennessee e as áreas florestais da Carolina do Norte, é um deles. Basta fazer a primeira curva da estrada de acesso para perceber: aquele cenário não foi feito para ser apenas pano de fundo de uma foto rápida. A paisagem exige atenção. Pede que você pare o carro, respire e olhe de verdade. As árvores descem pelas encostas até encontrar a água, de um verde-turquesa que, nos momentos de calmaria, transforma-se em um espelho perfeito das montanhas ao redor.

Uma represa que deu origem ao lago mais alto do sistema TVA

Watauga não é um lago natural, e essa história merece ser contada. Ele nasceu de uma obra da Tennessee Valley Authority (TVA). A construção da barragem começou em 1942, foi interrompida durante a Segunda Guerra Mundial e só foi concluída em dezembro de 1948, quando a represa passou a conter as águas do rio Watauga.

O resultado é uma estrutura de terra e rocha com 97 metros de altura, a segunda mais alta de toda a rede da TVA, atrás apenas da represa de Fontana. A barragem é capaz de gerar mais de 60 megawatts de energia. Há ainda um detalhe curioso: a Appalachian Trail, uma das trilhas mais famosas dos Estados Unidos, atravessa o topo da barragem.

O lago formado pela represa cobre cerca de 2.600 hectares, estende-se por aproximadamente 26 quilômetros rio acima e chega a 81 metros de profundidade junto à barragem, tornando-se o lago mais profundo do estado do Tennessee. Sua superfície está a quase 600 metros de altitude, o que faz de Watauga o reservatório mais elevado entre todos os administrados pela TVA.

E, ao contrário de tantas represas americanas tomadas por condomínios, casas e docas particulares, Watauga escapou desse destino. Mais da metade de seus quase 170 quilômetros de margem está dentro da Cherokee National Forest, uma área protegida onde não são permitidas construções. Não é exagero dizer que a preservação faz parte da identidade do lugar. Pesquisadores que estudam a qualidade da água já colocaram Watauga entre os lagos mais limpos dos Estados Unidos.

O lago recebe água fria proveniente das camadas mais profundas do reservatório, o que ajuda a manter populações de peixes como trutas e walleye em pleno sul dos Apalaches. É um paraíso pouco óbvio para quem pensa em pesca de água fria e logo imagina destinos como Colorado ou Montana. Na superfície, principalmente durante o verão, a temperatura sobe e a água se torna agradável para nadar e para os passeios de barco.

Sossego, sem pressa de lancha

Para quem quer fugir do barulho, o clima de Watauga é de um sossego raro. Mesmo sem limites rígidos de velocidade ou potência para embarcações, algo incomum em lagos americanos, o movimento por ali está longe de ser frenético.

Não espere marinas lotadas nem filas de lanchas. O ritmo é ditado pelo deslizar silencioso das canoas nas primeiras horas da manhã, por quem se aventura no stand-up paddle sobre a água ainda parada do amanhecer e pelos passeios de barco no fim da tarde, quando o sol atravessa a copa dos pinheiros e cobre a paisagem de tons dourados.

Nos trechos mais profundos e frios, além das trutas, encontra-se também o walleye, peixe de água doce bastante apreciado pelos pescadores. Alguns passam horas ali, em silêncio, como se a tranquilidade do lugar também fizesse parte da experiência da pesca.

Trilhas que valem a subida

Quem prefere terra firme à água também encontra boas opções. Um trecho da Appalachian Trail atravessa a região e dá acesso à Laurel Falls Trail, próxima à pequena cidade de Hampton. A caminhada acompanha o curso de um riacho e termina em uma cachoeira cercada por pedras cobertas de musgo e árvores centenárias.

A trilha exige fôlego em alguns trechos, mas a recompensa aparece nos pontos mais altos, de onde é possível contemplar um verdadeiro mar de montanhas verdes que se perde no horizonte.

Para quem estiver disposto a dirigir cerca de uma hora até o lado da Carolina do Norte, vale estender o passeio até as trilhas das montanhas vizinhas. O caminho leva a uma cachoeira que, embora não esteja entre as mais altas da região, impressiona pela força da água e pelo cenário ao redor.

O que diferencia essa trilha é o seu traçado: ela contorna o desfiladeiro e permite observar a cachoeira de diferentes ângulos e alturas ao longo do percurso. A cada curva, a paisagem se transforma. Em um momento, o rio corre tranquilamente ao longe; no seguinte, a água despenca sobre as pedras, levantando uma fina e gelada névoa que parece renovar as energias de qualquer caminhante.

Uma casa sem nenhuma pretensão

Mas o que faz de Watauga um lugar memorável não é apenas a natureza preservada. É também a vida construída às margens do lago e as histórias das famílias que escolheram fazer dali um refúgio.

Um bom exemplo é a casa de lago da família Peery. E aqui vale um parêntese: quem conhece a região sabe que o esperado, para uma família tradicional como essa, seria uma propriedade grandiosa, com dois andares, amplos espaços e todos os sinais de luxo que pontuam boa parte das margens dos lagos americanos.

Não é o caso

A casa dos Peery sempre foi, digamos, normal. Tem o tamanho certo, com tudo o que é necessário para viver ali ou passar uma temporada, sem um metro quadrado a mais. E é justamente nisso que reside uma das grandes características da família: em uma época em que tantas pessoas medem o valor pelo tamanho da casa ou pelo consumo, os Peery escolheram o essencial. Sem ostentação, sem excessos e sem a necessidade de provar nada a ninguém.

A história da cabana atravessa gerações. Segundo David Peery, o imóvel foi adquirido provavelmente por seu pai em 1970, mesmo ano em que ele concluiu o ensino médio. Desde então, permanece na família, há 56 anos, como um refúgio de memórias no Tennessee.

Ao longo das décadas, o endereço tornou-se ponto de encontro e convivência. David frequenta o local durante o verão com toda a família e, às vezes, vai sozinho, levando quase todos os amigos que fez ao longo da vida, desde os tempos de colégio e faculdade até amizades mais recentes.
Segundo ele, seu pai nunca teve a intenção de fazer grandes intervenções na propriedade. Queria apenas um espaço simples para descansar e se desligar da rotina exaustiva do consultório médico. Depois de sua morte, os irmãos de David assumiram a propriedade e realizaram algumas reformas, preservando a essência rústica do imóvel.

“Para mim, é o meu lugar favorito no mundo. Sinto uma paz absoluta ali, entre as montanhas e à beira do lago, completamente afastado da correria da vida”, declarou David.

O que também chama a atenção é a maneira como a família vive aqueles momentos. Durante um fim de semana, adultos e adolescentes praticamente não tocaram nos celulares. Em nenhum momento do dia ou da noite era comum ver alguém grudado na internet ou no telefone. A atenção estava voltada para a convivência, para as conversas e para o simples prazer de estar junto.

A televisão, aliás, parecia mais um objeto de decoração do que qualquer outra coisa. Era ligada raramente e, quando isso acontecia, permanecia em segundo plano.

Estar ali é compreender o valor do acolhimento simples. A decoração não parece ter saído de um catálogo, mas da própria vida: fotografias antigas nas paredes, peças entalhadas à mão e objetos carregados de histórias que passam de uma geração para outra.

Sentado na varanda, em uma conversa sem pressa, é possível observar os pássaros entre os galhos das árvores, como se a casa também pertencesse a eles. Não há música alta, seja popular ou clássica. O espaço é ocupado pelos cantos dos pássaros e pelos sons dos animais que percorrem a floresta ao redor.

No verão, o dia começa cedo, com mergulhos na água agradável e passeios pelas enseadas mais isoladas do lago. No outono, quando a mata ganha tons de amarelo, laranja e vermelho, a casa se volta para dentro. A lareira acesa convida a um bom livro ou a uma conversa sem nenhuma pressa de terminar.

O que fica depois da viagem?

Percorrer as curvas do Lago Watauga, subir suas trilhas até encontrar uma cachoeira escondida e experimentar a rotina de um refúgio como o dos Peery nos lembra de algo simples, mas fácil de esquecer na correria do dia a dia: algumas paisagens só se completam quando existe afeto envolvido.

Watauga não é apenas um destino para um fim de semana ou uma fuga rápida do trabalho. É uma oportunidade de pisar no freio, olhar ao redor com calma e redescobrir um ritmo que, muitas vezes, deixamos de lado.

No fim, talvez seja justamente essa a maior lembrança que o lago deixa: a certeza de que há lugares onde a vida não precisa correr.



Sobre o autor

Rubens de Melo é jornalista, psicólogo clínico, graduado em Filosofia, com especializações em Psicanálise e Terapia do Esquema.


Fontes consultadas:
Tennessee Valley Authority (TVA). Watauga. Disponível em: tva.com/energy/our-power-system/hydroelectric/watauga
Watauga Lake e Watauga Dam. Wikipedia, a enciclopédia livre. Disponíveis em: en.wikipedia.org/wiki/Watauga_Lake e en.wikipedia.org/wiki/Watauga_Dam / Carter County Area History. Watauga Lake. Disponível em: cartercountyhistory.com/watauga-lake.html / Watauga Lake, Tennessee: Insiders’ Vacation Guide. Disponível em: wataugalaketennessee.com.