By Laine Furtado

Vivemos uma época extraordinária. Nunca tivemos tanto acesso à informação, tantas ferramentas para trabalhar, tantas possibilidades de comunicação e tantos recursos capazes de facilitar a vida. A inteligência artificial talvez seja o exemplo mais recente dessa transformação e, particularmente, acredito que ela já se tornou uma ferramenta fundamental para o mundo contemporâneo. O problema não está na tecnologia. A questão que merece reflexão está em nós mesmos e na maneira como estamos escolhendo viver.

Tenho observado uma mudança no comportamento das pessoas. Estamos mais voltados para nossos próprios mundos, nossas rotinas, nossos interesses e nossas necessidades imediatas. Parece existir menos disposição para participar, construir coletivamente, defender uma causa ou simplesmente dedicar tempo a algo que não ofereça um benefício pessoal imediato.

Durante muito tempo, associações, clubes, igrejas, organizações comunitárias, movimentos sociais e entidades profissionais foram espaços importantes da vida em sociedade. Pessoas se reuniam porque acreditavam que juntas poderiam construir alguma coisa. Havia divergências, dificuldades e conflitos, naturalmente. Mas havia também envolvimento.

Hoje, muitas vezes, queremos acompanhar sem participar. Queremos saber sem necessariamente nos envolver. Curtimos, compartilhamos, observamos e opinamos. Mas assumir responsabilidades, dedicar algumas horas, trabalhar voluntariamente ou simplesmente estar presente parece exigir um esforço cada vez maior.

Uma pesquisa publicada em julho de 2026 pelo Pew Research Center ajuda a traduzir essa percepção em números. Ao analisar diferentes formas de participação na sociedade americana, o estudo identificou apenas 9% dos adultos como “Mobilizers”, pessoas altamente envolvidas na vida cívica e comunitária. Outros 28% foram classificados como “Connectors”. Na outra ponta, 31% são “Spectators” e outros 31% “Outsiders” — grupos caracterizados por níveis significativamente menores de participação. 

A definição de “Spectators” talvez seja a mais provocadora. São pessoas informadas: 84% acompanham as notícias nacionais e 75% haviam curtido ou salvado alguma publicação relacionada a notícias na semana anterior à pesquisa. Entretanto, somente 17% haviam realizado algum trabalho voluntário no último ano. (Pew Research Center⁠Attachment.png)

Estamos nos transformando em espectadores da própria sociedade?

O fenômeno parece ainda mais evidente entre os jovens. Entre os americanos com menos de 30 anos, 46% foram classificados como “Spectators”. Entre aqueles com 65 anos ou mais, são apenas 19%. Os mais jovens participam mais através do ambiente digital, enquanto gerações mais velhas continuam mais presentes em formas tradicionais de envolvimento comunitário. (Pew Research Center⁠Attachment.png)

Ao mesmo tempo, estamos mais solitários. Pesquisa da Harvard Graduate School of Education mostrou que 21% dos adultos americanos se sentem solitários. Entre aqueles que relatam solidão, 67% dizem não se sentir parte de grupos significativos e 63% sentem que seu lugar no mundo não é importante ou relevante. Quando questionados sobre as causas da solidão na sociedade americana, 73% apontaram a tecnologia, 66% disseram que as famílias passam pouco tempo juntas e 62% mencionaram excesso de trabalho, falta de tempo ou exaustão. 

Talvez estejamos diante de uma sociedade extremamente ocupada, mas nem sempre verdadeiramente engajada.

Construir relações dá trabalho. Participar dá trabalho. Liderar dá trabalho. Ouvir opiniões diferentes das nossas dá trabalho. Fazer parte de uma comunidade significa algumas vezes abrir mão do conforto individual em favor de algo coletivo.

Nenhuma tecnologia precisa ser inimiga disso. A inteligência artificial pode nos tornar mais produtivos, ajudar no conhecimento, na criatividade e no trabalho. Mas nenhuma inteligência artificial poderá decidir por nós qual importância queremos dar às nossas relações, às nossas comunidades e às causas nas quais acreditamos.

Talvez o desafio do nosso tempo seja justamente recuperar o desejo de participar.

Porque uma sociedade não se constrói apenas com pessoas informadas. Constrói-se com pessoas presentes.


Laine furtado é jornalista, editora da revista Linha Aberta e do blog Fashion and Travel Reporter @linhaabertamagazine / @lainefurtado