Por Fabiana Baeta Neves Pinto Lima / @fabianabnplima
José de Alencar constrói, em Lucíola, um enredo marcado pela dualidade e pela ambiguidade. A protagonista, Maria da Glória, assume diferentes papéis ao longo da narrativa, utilizando a moda como uma das ferramentas para construir, revelar e esconder suas múltiplas identidades.
Entre as cenas mais marcantes relacionadas ao figurino está a descrição de seu traje de baile: um vestido escarlate, adornado por largos folhos de renda preta, acompanhado por uma grinalda de espigas de trigo e negros anéis. Mais do que uma simples descrição estética, a composição do traje participa da construção simbólica da personagem e do próprio momento dramático vivido pelo casal protagonista.
A vestimenta surge em um momento de clímax da paixão. Lúcia, a cortesã, pretende afastar-se de Paulo para reassumir o papel que acredita estar destinado a desempenhar. Entretanto, os acontecimentos fogem às suas expectativas. Envolvida em um intenso jogo de sedução, Maria da Glória utiliza a aparência como instrumento de comunicação e como estratégia para alcançar seu objetivo. O corpo vestido passa, então, a funcionar como uma espécie de linguagem.
As cores e os elementos que compõem esse figurino também carregam significados. O escarlate, associado ao sangue e à intensidade, remete à paixão, ao desejo e à própria força vital. A renda preta acrescenta uma dimensão de tradição e delicadeza artesanal, ao mesmo tempo em que o preto pode evocar a noite, o mistério e até mesmo a morte. Já os anéis negros podem ser compreendidos como símbolos de poder, pertencimento e afirmação. Assim, cada elemento do traje contribui para a construção de uma personagem que vive entre aquilo que demonstra e aquilo que verdadeiramente sente.
Nesse sentido, a moda deixa de ser apenas um recurso ornamental. Embora frequentemente seja compreendida como um fenômeno industrial e comercial, ou até mesmo como uma manifestação superficial da sociedade, ela constitui um sistema de sinais capaz de expressar valores, relações sociais e conflitos individuais. A roupa comunica, posiciona e, muitas vezes, cria personagens.
É justamente nessa perspectiva que Lucíola permite uma aproximação entre literatura e moda. O vestuário de Maria da Glória não apenas acompanha a narrativa: ele participa dela. Suas roupas revelam e ocultam, seduzem e protegem, aproximam e afastam. A personagem parece atuar em um verdadeiro teatro social, no qual cada traje corresponde a um papel.
Essa dimensão também nos conduz a uma questão recorrente no universo da moda: pode a moda ser considerada uma forma de arte? A discussão divide teóricos e criadores. De um lado, estão aqueles que reconhecem na moda um campo legítimo de expressão artística, capaz de produzir conceitos, provocar reflexões e transformar percepções. De outro, encontram-se aqueles que resistem a essa aproximação e compreendem a moda prioritariamente como uma prática comercial, funcional ou social.
Tal discussão, entretanto, talvez possa ser observada por outra perspectiva. Independentemente de ser reconhecida ou não como arte, a moda possui uma capacidade particular de incorporar contradições e paradoxos. Ela estabelece conexões entre estética, antropologia, sociologia, história e comportamento, tornando-se um instrumento para compreender não apenas aquilo que vestimos, mas também aquilo que desejamos comunicar.
A trajetória de Maria da Glória, posteriormente apresentada como Lúcia, evidencia justamente essa complexidade. Sua identidade é construída a partir de oposições: instinto e razão, submissão e afirmação, sensualidade e pudor, aparência e essência. A personagem transita entre diferentes papéis sociais, e a roupa torna-se parte fundamental dessa transformação.
A descrição de suas vestimentas e dos ambientes luxuosos em que circula não serve apenas para criar um cenário de sedução. O luxo também funciona como uma espécie de máscara social. Por trás do brilho, da sensualidade e da aparência sofisticada, existe uma mulher marcada por sofrimento, tragédia e sacrifício.
A revelação de seu passado como Maria da Glória, levada à prostituição para salvar sua família durante uma epidemia de febre amarela, evidencia a dolorosa distância entre a persona pública e sua verdadeira essência. Lúcia representa, portanto, uma realidade paradoxal: enquanto sua aparência expressa luxo, poder e desejo, sua história é atravessada pela vulnerabilidade, pela renúncia e pelo sofrimento.
É nesse ponto que a moda assume uma dimensão especialmente significativa. O vestido escarlate, a renda negra, a grinalda e os anéis não são apenas acessórios de uma personagem literária. Eles compõem uma narrativa visual. Cada elemento participa da construção de uma identidade que é, simultaneamente, verdadeira e performática.
O Teatro da Vida de Maria da Glória nos lembra que todos, em alguma medida, desempenhamos papéis. Vestimo-nos para determinadas ocasiões, adaptamos nossa aparência aos ambientes e construímos, conscientemente ou não, imagens que desejamos projetar. A moda participa desse processo como uma linguagem silenciosa, capaz de revelar aquilo que as palavras muitas vezes não conseguem dizer.
Assim, a dualidade e a ambiguidade presentes em Lucíola não devem ser compreendidas como falhas ou incoerências da personagem. Elas representam elementos intrínsecos à complexidade da existência humana. Lúcia e Maria da Glória não são simplesmente duas mulheres diferentes: são duas dimensões de uma mesma identidade, construída entre o desejo de sobreviver, a necessidade de pertencer e a busca por preservar sua própria essência.
José de Alencar, ao vestir sua protagonista, também a desnuda. Por meio da aparência, revela suas contradições mais profundas. E é justamente nesse paradoxo que literatura e moda se encontram: ambas podem transformar a aparência em linguagem e utilizar símbolos para revelar aquilo que permanece escondido sob a superfície.
REFERÊNCIAS
ALENCAR, José de. Lucíola. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1959.
CASALS, L. L. Estudo dos paradoxos da moda. dObra[s]: revista da Associação Brasileira de Estudos de Pesquisas em Moda, [S. l.], v. 11, n. 24, p. 187-201, 2018. DOI: 10.26563/dobras.v11i24.780. Disponível em: https://dobras.emnuvens.com.br/dobras/article/view/780. Acesso em: 23 jun. 2025.
MARCO, Valéria de. O império da cortesã: Lucíola: um perfil de Alencar. São Paulo: Martins Fontes, 1986. 204 p.
MARTINS, Paula. Grife mergulha na ambiguidade temporal com clássico contemporâneo em nova coleção. Caras: Moda Simplesmente Atemporal. Disponível em: https://caras.com.br/moda/grife-mergulha-na-ambiguidade-temporal-com-classico-contemporaneo-em-nova-colecao.phtml. Acesso em: 23 jun. 2025.
MODA E CULTURA. As roupas e o tempo: uma filosofia da moda. Disponível em: https://1library.org/article/moda-cultura-as-roupas-tempo-uma-filosofiamoda.qok561ky#google_vignette. Acesso em: 23 jun. 2025.

