Texto: Claudia Nunes | Fotos: Katia Nunes

Toda missão secreta começa com um mistério a ser solucionado. A minha começou com um convite da Revista Linha Aberta: “Que tal ir ao Florida Supercon 2026 e nos contar o que você encontrar por lá?” Simples assim. Só que, como toda boa dupla de irmãs brasileiras, eu e minha irmã Katia não sabemos fazer nada “simples assim”. Se a missão era mergulhar num universo de fantasia, a gente ia mergulhar de cabeça — literalmente: vestidas de Mônica e Magali, ícones da cultura brasileira, com vestido, Sansão e melancia em punho, lá fomos nós…
Confesso que o plano era ingênuo: a gente imaginava que, em menos de dez minutos dentro do Miami Beach Convention Center, alguém ia parar, olhar pro nosso figurino e perguntar: “Vocês são brasileiras?” Já tínhamos até ensaiado a resposta pra essa piada. O que a gente não sabia é que essa pergunta nunca iria vir — e que, no fim do dia, isso ia doer um pouquinho mais do que a gente esperava.
Mas vamos com calma, porque antes da reviravolta veio o espetáculo.

Depois do prelúdio de brigar por uma vaga de estacionamento, nos deparamos com uma fila que começava do lado de fora — sim, debaixo daquele calor de Miami — mas que já era um show à parte. Mesmo num espaço gigantesco como o Miami Beach Convention Center, a fila serpenteava e, com ela, vinha um desfile de fantasias que fazia a gente esquecer que ainda nem tínhamos entrado. Tem artistas que passam meses — e chegam a gastar milhares de dólares — bordando, colando, soldando e costurando até que o personagem favorito ganhe vida.

Armaduras que pareciam ter saído direto da tela, próteses, asas, espadas que brilhavam, mecanismos que se moviam sozinhos. A gente não parava de se surpreender: “Isso aqui não é fantasia. Isso é arte.”

E olha que isso era só a fila para entrar… Mas isso é América: uma fila de cem pessoas não levou mais de 15 a 20 minutos para ser escoada para dentro, direto pro ar condicionado, onde já separavam quem precisava buscar o “Will Call” de quem já tinha o passe comprado e só precisava escanear na porta.

Quando atravessamos as portas, foi como ser teletransportadas por um portal intergaláctico — sério, sem exagero jornalístico, parecia que estávamos dentro de um estúdio de cinema. Cada corredor te jogava num universo diferente: virava a esquina e saía de uma galáxia distante direto pra dentro de um castelo medieval. Cruzamos com samurais, piratas, dragões, criaturas que eu juro que nunca tinha visto antes — e não porque eu não conheço nenhum filme. Muitas daquelas criaturas eram inventadas, nascidas da cabeça de artistas que decidiram usar o próprio corpo como tela. Em algum momento, Miami Beach simplesmente sumiu do mapa. A gente esqueceu completamente onde estava.
E foi exatamente nesse clima de portal aberto que a nossa missão de verdade começou — só que a gente ainda não sabia disso.

Passamos o dia inteiro tirando fotos, conversando com personagens e assistindo a painéis diversos. Meu pedômetro fechou o dia em mais de 13 mil passos. Paramos parte da tarde no painel de K-pop, vendo grupos de dança de vários estados americanos se apresentarem com uma energia contagiante. E o tempo todo, vestidas de Mônica e Magali, esperávamos aquela pergunta que nunca chegou.

Ninguém perguntou se éramos brasileiras.
No começo, achamos engraçado. Depois, percebemos que a piada já estava perdendo a graça. Porque a verdade é que a gente não sentiu falta de encontrar brasileiros ali dentro — sentiu falta de encontrar o Brasil ali dentro. Num estado onde a comunidade brasileira é gigante, onde tem no mínimo uma padaria por cidade, faltava alguém fantasiado de Curupira andando ao lado de um Jedi. Faltava uma Emília discutindo filosofia com o Visconde de Sabugosa, enquanto o Saci pedia pra tirar uma selfie com um Darth Vader. Faltava ver o Zé Carioca distribuindo simpatia entre os personagens da Disney, sem falar de outros como o Chico Bento e a Rosinha passeando, sem pressa nenhuma, entre naves espaciais e castelos.
Não é falta de criatividade do evento — muito pelo contrário. É que a cultura e o folclore brasileiro só teriam a somar a uma festa que já celebra a diversidade humana com tanta generosidade.

E olha que diversidade ali é levada a sério. A programação do Supercon é de cair o queixo: painéis sobre cinema, TV, quadrinhos, literatura, cultura asiática, games, workshops, encontros de fãs, sessões de autógrafo, concursos de cosplay que premiam um trabalho minucioso e detalhado. Tem também a Artist Alley, onde você não compra um pôster de loja — você conversa com quem desenhou, pintou ou esculpiu aquilo ali, com as próprias mãos, às vezes inspiradas em obras originais, mas sempre feitas por eles. Tem a área de expositores, capaz de zerar qualquer cartão de crédito com colecionáveis, mangás, espadas decorativas e raridades importadas. E tem o Pride Lounge, um espaço acolhedor comandado por drag queens, com oficina de maquiagem e dicas de caracterização — um lembrete de que ali existe espaço pra todo mundo.

E foi bem nesse “espaço criado pra todo mundo” que a ficha caiu de vez.
Porque o Florida Supercon não é um evento pra quem gosta só de anime ou quadrinho. É um encontro de gente apaixonada por imaginar, criar e celebrar diferenças — famílias passeando juntas, crianças encontrando heróis, adultos revivendo a infância. E é justamente por isso que dói um pouquinho a ausência do nosso folclore ali dentro. Porque a gente também tem heróis. A gente também tem universo — e muito folclore para compartilhar.

Saímos de lá com a sensação de ter cumprido uma missão completamente diferente daquela que vestimos de manhã. E, olha, ainda bem — porque voltamos com uma história bem melhor do que “duas irmãs brasileiras curtem convenção de cultura pop”. Voltamos com um convite.

Quando a próxima edição chegar, ano que vem, a torcida aqui da Revista Linha Aberta é presenciar um encontro ainda mais rico entre culturas — com Emília, Visconde, Cebolinha, Cascão, Chico Bento, Rosinha, Zé Carioca, Saci, Iara, Curupira e muitos outros dividindo corredor com Jedis, super-heróis e dragões. Porque a inclusão do nosso folclore só tem a somar cor, criatividade e identidade a uma festa que já é linda por natureza.
Então faz um favor: marca aí no calendário. Quem sabe a gente não se esbarra por lá ano que vem — e, dessa vez, com companhia brasileira de verdade.