A esportista do futevôlei e teqball fala sobre a carreira de sucesso, o preconceito e o novo projeto

Juntar a paixão pelas praias com a habilidade com a bola foi algo que trouxe muitas conquistas para a jogadora de futevôlei Natalia Guitler, 36 anos, a atleta referência na modalidade hoje no Brasil. O destaque da esportista, porém, não ficou somente no futevôlei, pois Natália também se dedicou ao teqball, uma modalidade de esporte ainda não muito conhecida do grande público, mas que já fez da atleta a primeira mulher a se tornar campeã mundial.

O seu início profissional no esporte, de um modo geral, aconteceu, porém, no tênis, aos 16 anos, quando Natalia participou de grandes campeonatos nacionais e mudou-se para a Argentina, onde disputou torneios mundiais. E isso durou até que uma lesão na tíbia a tirou das quadras e a fez voltar para o Rio de Janeiro.

Mais tarde, aos 19 anos, ela conheceu o futevôlei graças a um de seus irmãos e daí em diante a atleta nunca mais deixou de praticar tal modalidade. Ela começou a treinar na praia da Barra da Tijuca e se profissionalizou quatro anos mais tarde.
Nesse meio tempo, Natalia voltou a estudar e se formou em administração de empresas, com pós-graduação em marketing esportivo, fato este que a incentivou a criar projetos em prol do crescimento do futevôlei no Brasil e destacar as mulheres na modalidade, que anteriormente era quase uma exclusividade dos homens.

Aos poucos, ela foi se destacando nas areias brasileiras, chamou a atenção de jogadores de futebol famosos como Neymar, Romário e Ronaldinho Gaúcho, este que a apoiou e, inclusive, a apresentou ao teqball.

O fato de Natália ser mulher fez com que ela sofresse alguns preconceitos em ambas as modalidades, nas quais a maior parte dos esportistas são homens. Porém, ela tirou isso de letra, se destacou cada vez mais e obteve muitas conquistas, entre elas em 2021 e 2022, quando a atleta ganhou o Mundial de Futevôlei, além de seis edições do campeonato brasileiro e duas do sul-americano.
“No teqball, por se tratar de um esporte europeu, nós víamos mais resistência. Quando eu fui jogar lá na Europa durante as primeiras vezes, senti um pouco de preconceito, mas isso foi bem no início, quando não tinha a categoria feminina. O primeiro campeonato mundial que eu competi, em 2018, era aberto e os participantes eram 99% homens. Mulheres? Somente eu e duas outras meninas. Acredito que ali foi o maior momento que eu tenha sofrido preconceito no esporte. No futevôlei também acontece, pois sempre existe aquele olhar diferente ao ver uma mulher dentro de um esporte que era predominantemente masculino” – conta.

Já no teqball, uma modalidade conhecida como futmesa e criada na Hungria há cinco anos, Natalia conquistou, em 2019, o campeonato mundial e se tornou a primeira mulher a receber um título internacional do esporte. Em 2021, ela chegou mais uma vez à primeira colocação, mas desta vez na Polônia, numa competição de duplas ao lado da atleta Rafaella Fontes.

Atualmente, para difundir o futevôlei no Brasil, a atleta faz apresentações nas quais ensina a técnica, além de criar constantemente conteúdos sobre as duas modalidades nas suas redes sociais.

Ainda com o intuito de incentivar o futevôlei, Natalia concretizou um projeto muito importante para a modalidade, ou seja, criou o seu próprio centro de treinamento na praia da Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. “Eu nunca tive um lugar para chamar de meu na praia, sempre treinei em lugares diferentes, o que de certa forma foi ótimo para a minha carreira. Mas, eu queria ter um lugar meu, onde eu pudesse treinar, levar parceiros para jogar e passar a minha metodologia para uma galera que quer jogar e aprender futevôlei” – diz.

Os feitos da atleta, porém, não pararam por aí e chegaram também à TV. Há dois anos, Natalia teve o seu quadro “Desafio da Nat” no programa da Rede Globo “Esporte Espetacular” e relata que adorou a oportunidade. “Foi uma experiência incrível! Eu fui super bem tratada, fiquei super à vontade com os convidados e com o próprio desafio. Foi muito, muito bacana! Em breve, quem sabe em um novo momento, eu possa estar nas telinhas de volta com um novo quadro” – conta.

Acompanhe agora a entrevista que Natalia Guitler concedeu à Linha Aberta Magazine.

LINHA ABERTA – Como você iniciou a sua trajetória no futevôlei? Alguém te incentivou ou foi a sua inspiração?

NATALIA GUITLER – Eu comecei a minha trajetória no futevôlei, entre os meus 19 e 20 anos. Numa ocasião, quando eu morava na Argentina e vim de férias para o Brasil, o meu irmão mais velho me apresentou o futevôlei. Aliás, ele foi a pessoa que no início, mais me incentivou e inspirou, na certeza de que eu iria me sair muito bem, e foi assim. Eu achei o esporte dinâmico, na praia ainda? Amei o esporte, achei incrível e eu já gostava de jogar futebol desde pequena, o que já era meio caminho andado. Sem dúvida nenhuma, esse foi o início. E, desde então, eu pratico o esporte e já tive o privilégio de conquistar títulos mundiais.

LINHA ABERTA – Como você resolveu ser também uma atleta de teqball? A modalidade é complementar ao futevôlei?

NATALIA GUITLER – Eu conheci o teqball, na verdade, na casa do Ronaldinho Gaúcho, em 2017. Eu fiz um conteúdo jogando com ele e postei nas redes sociais. O presidente da Federação Francesa viu o meu vídeo e amou. Imediatamente, veio o convite para eu jogar o mundial em 2018. Desde então, eu comecei a treinar, me capacitar, me preparar e adorei a modalidade. Eu a inseri na minha vida do nada, dentro do meu dia a dia, junto com o futevôlei. Sem dúvida nenhuma, um esporte complementa o outro. Não são iguais, mas são muito parecidos. Nesse esporte, eu já fui a primeira atleta mulher a conquistar o título de campeã mundial.

LINHA ABERTA – Qual é a rotina de um atleta do futevôlei e do teqball? O que é importante ele ter como regra para ser um esportista de sucesso?

NATALIA GUITLER – A rotina de atleta de teqball é basicamente muito treino em quadra, mantendo o condicionamento físico em dia com a academia, os treinos funcionais e de força, o que ajuda ambas as modalidades. A importante regra a ser seguida para alcançar o sucesso é manter foco no trabalho, se entregar intensivamente à constância, à disciplina e ao treinamento. Sem isso, não chegamos a lugar algum, em quaisquer circunstâncias.

LINHA ABERTA – Você sentiu algum tipo de preconceito por ser mulher ao praticar ambos os esportes? Se sim, conte-nos alguma situação vivida.

NATALIA GUITLER – Ah senti sim, no teqball um pouco mais, por se tratar de um esporte europeu, víamos mais resistência. Quando eu fui jogar lá as primeiras vezes, senti um pouco de preconceito, mas isso foi bem no início, quando não tinha a categoria feminina. O primeiro campeonato mundial que eu competi, em 2018, era aberto, e os participantes eram 99% homens. Mulheres? Somente eu e duas outras meninas. Acredito que ali foi o maior momento que eu tenha sofrido preconceito no esporte. No futevôlei também acontece, sempre existe aquele olhar diferente ao ver uma mulher dentro de um esporte que era predominantemente masculino. Mas, com o tempo vamos aprendendo a lidar.

LINHA ABERTA – Como você vê o futevôlei feminino no Brasil? A modalidade está crescendo? E o teqball?

NATALIA GUITLER – Eu vejo o futebol feminino com um crescimento máximo no Brasil e no mundo. Cada vez mais, as meninas estão treinando, se profissionalizando e jogando muito. O teqball está no mesmo caminho, com um pouco menos de visibilidade, mas crescendo também. Na Europa já está muito maior, um esporte promissor.

LINHA ABERTA – Você já foi campeã de futevôlei por diversas vezes. O que você acha que uma atleta precisa ter para obter ter alta performance e, consequentemente, uma carreira de sucesso no esporte? Quais são as dicas que você dá para quem pretende investir na modalidade?

NATALIA GUITLER – Eu acredito que o atleta precisa ter uma equipe alinhada e comprometida, um plano de carreira, agenda e objetivos dentro do esporte. Por mais que não se tenha tantos campeonatos, o planejamento é fundamental. Eu prezo muito, desde que entrei para o esporte, por ter um treinador, um preparador físico, por pessoas que cuidassem de mim como um todo, como era quando eu jogava tênis. E as dicas para quem pretende investir na modalidade que mais se encaixam, como eu já falei aqui, é ter constância, disciplina, estar fisicamente preparado, ter resiliência em todos os momentos porque o esporte tem muitos altos e baixos, ter persistência para as pessoas que começam a jogar é muito importante para que elas não desistam quando não virem uma evolução. Tudo vem no seu tempo quando há dedicação e amor pelo que se faz.

LINHA ABERTA – De que maneira você cuida da sua saúde e da beleza? Você se considera vaidosa? É adepta dos mais modernos procedimentos de beleza?

NATALIA GUITLER – Eu me considero vaidosa, gosto de fazer hidratação no cabelo uma vez por semana, colocar cílios, estar sempre bem-vestida para sair e com looks legais para treinar. Eu cuido muito da alimentação, isso é algo que já está na minha rotina não só por vaidade, mas por uma questão de saúde. Eu sou essa pessoa. Eu faço de tudo um pouco e gosto de me sentir bem comigo mesma. Então é algo que eu prezo sempre.

LINHA ABERTA – Como foi criar o seu próprio centro de treinamento específico para o futevôlei?

Natalia Guitler – Eu nunca tive um cantinho para chamar de meu na praia, pois sempre treinei em lugares diferentes, o que de certa forma foi ótimo para a minha carreira, pois eu aprendi muito, com várias pessoas e em muitos lugares. Mas, eu queria ter um lugar meu, onde eu pudesse treinar de vez em quando, levar parceiros para jogar e, principalmente, passar a minha metodologia de treino para uma galera que está querendo jogar e aprender futevôlei.

LINHA ABERTA – Você foi apresentadora do programa Esporte Espetacular durante um período. Como foi essa experiência na TV? Você pretende investir na carreira de apresentadora no futuro? Já recebeu novos convites?

NATALIA GUITLER – Foi uma experiência incrível ter tido um quadro dentro do “Esporte Espetacular”, da Globo, o “Desafio da Nat”. Eu fui super bem tratada, fiquei super à vontade com os convidados e com o próprio desafio. Foi uma experiência muito, muito bacana, na qual eu me senti bem de verdade. Em breve, quem sabe em um novo momento, eu possa estar nas telinhas de volta com um novo quadro. Vamos aguardar!

LINHA ABERTA – Quais são os seus próximos projetos?

NATALIA GUITLER – Os próximos projetos são, sem dúvida, ligados ao centro de treinamento na Barra da Tijuca, que leva o meu nome. Esse ano teremos novos eventos, campeonatos internos e grandes propostas para o desenvolvimento de treinamentos, relacionadas ao crescimento do esporte, como planos de carreira em relação a outras atletas que estão chegando. Eu estou ansiosa para fazer tudo acontecer.

Texto de Alethéa Mantovani – @aletheamantovani / Foto Natalia Guitler: Arquivo pessoal