Sempre fui um apaixonado por aviões. Talvez porque desde pequeno, pelo menos uma vez por ano fazia um voo São Paulo para Curitiba e vice versa. Meu pai, paulista, trabalhava em São Paulo. Minha mãe, nascida em Paranaguá, morava em Curitiba. Casaram e foram morar em São Paulo. Portanto, nasci em São Paulo, mas fui batizado em Curitiba, na Catedral Metropolitana. E, para se chegar em Curitiba, a melhor maneira era o avião. Porque enfrentar uma viagem em estrada de terra, que durava mais de 13 horas era praticamente inviável. Assim, recém-nascido, fiz minha primeira viagem em um avião. Viagem esta que iria se repetir todos os anos. Porém, vou ter como lembrança a viagem que fiz aos sete anos.

O avião era um Douglas C-47, quase que uma sucata da 2a. Guerra Mundial. Reformados, cruzavam os céus do Brasil, sob o nome de Panair do Brasil, mais tarde VARIG e posteriormente a REAL, uma companhia de vanguarda, mas teve uma vida curta. Em São Paulo, percorrendo as suas principais cidades, existia a VASP. Mas voltamos à primeira viagem lembrada.

O aeroporto de Curitiba, mais parecia uma casa: uma enorme varanda recepcionava os viajantes. Eles já tinham enfrentado uma estrada de terra para chegar ao novo terminal aéreo, localizado no município de São José dos Pinhais, há 20 quilômetros do centro da cidade.

Um pequeno adendo: este aeroporto fora construído pelos americanos, como um ponto estratégico na 2a. grande guerra, porque à noite, uma densa neblina escondia o aeródromo, evitava assim de ser bombardeado pelos alemães que tinham base em Buenos Aires.

Portanto, os voos só aconteciam durante o dia. Mas vamos ao vôo: o avião possuía pequena roda traseira, responsável pelas manobras em terra, porém o deixava inclinado. Após subir uma pequena escada que dava acesso à porta traseira, entrava-se e ia se segurando nas poltronas para acessar a poltrona vaga. (Não havia pré-reserva). Gostava da janela. Mais um pequeno detalhe: as roupas: os cavalheiros trajavam ternos e muitas vezes com sobretudo devido ao frio da época. As senhoras vestiam vestidos e casacos de pele. Os aviões não eram climatizados.

Um tipo de uma bala, Mentex, era distribuída para evitar o zumbido no ouvido quando da decolagem. A aeronave percorria a pista aumentando a velocidade para galgar o céu. A viagem levava um pouco mais de uma hora. Rezava-se para não pegar chuva no caminho, senão, balançava e a impressão de que o avião era jogado de um lado para outro. Porém ele nunca decolava ou aterrissava sob forte tempestade. Ou esperava passar ou ia a outra cidade.

Lembro-me uma vez, que íamos de Curitiba para São Paulo. Todos a bordo, o avião foi para cabeceira da pista, porém não decolou e voltou para área de embarque. Mecânicos foram até os motores, abriram e mexeram nisso e naquilo… o avião voltou para área de decolagem, porém retornou aos mecânicos. Isso aconteceu repetidamente por 5 vezes. Minha mãe já queria desistir, porém meu avô, sabiamente, falou: “ora minha filha, o que tinha que acontecer, já foi arrumado, agora pode viajar tranquila”. Realmente foi uma viagem maravilhosa!

Pegar tempestade no caminho, sempre dá um pequeno medo, um frio na barriga. Recordo-me de uma, indo de Curitiba a Foz do Iguaçu, pegamos uma tempestade muito forte, inclusive com raios. Segurava firme a mão de minha esposa. Um raio atingiu a ponta da asa. Quando aterrissou, por curiosidade fui olhar a ponta da asa atingida. A luz sinalizadora estava quebrada.

A verdade é que voar de avião é ainda a maneira mais segura de viajar. Apesar dos aviões não pararem, salvo quando atingem uma determinada hora de vôo, são levados a uma completa revisão. Eles foram construídos, sempre, sob as condições mais severas que podem acontecer durante um vôo e os comandantes (chamados de pilotos e co-pilotos) são treinados sob aquelas condições. Gosto de olhar o entardecer da pequena janela do avião, ou mesmo ver as estrelas numa viagem à noite. Até mesmo as refeições servidas têm um gostinho de aventura. Então, boa viagem!


[EDUARDO PRUGNER é consultor empresarial e sócio da Prugner’s Digital Marketing, palestrante, escritor e poeta. Informações sobre o tema pelo E-mail: eduardo@prugner.co]