Chegar à maturidade para a maioria das mulheres pode ser algo desafiador ou muito difícil. Porém, para a atriz Gabriela Duarte, que completa neste mês de abril 50 anos de idade, isso vem acontecendo de um modo natural, leve e bastante libertador.

A artista brasileira conta que nesta fase da sua vida ela está aprendendo algo relevante para todas as pessoas, ou seja, a dizer não. “Uma coisa que foi muito importante com a chegada da minha maturidade foi aprender a dizer não, porque o não é libertador. Quando a gente usa essa palavra está falando de liberdade, que é uma dádiva! Eu acho que no fundo a liberdade é o que o ser humano persegue a sua vida inteira. Isso está ligado a não depender da opinião do outro, é ser feliz com aquilo que você tem com você, afinal de contas, é você que dorme com você mesmo, que toma banho com você mesmo, que habita a sua pele 24 horas por dia” – enfatiza. Ela fala ainda que ao se aproximar dos seus 50 anos, o não está presente na sua vida de uma maneira libertadora. “Isso é um ganho muito importante que a idade é capaz de trazer” – diz.

Gabriela, que é filha da atriz Regina Duarte, um ícone da TV brasileira, conta que sempre existiram comparações com a mãe famosa, mas que ela soube enfrentar a situação e encarar tudo como um desafio. “Quando você escolhe a mesma profissão da sua mãe ou do seu pai e, principalmente, de alguém que já atingiu o sucesso, isso se torna mais ameaçador para a sua própria identidade, para a identidade da pessoa que está buscando um lugar para si, como foi o meu caso. Então, existe sim a comparação, ela faz parte do ser humano e eu percebi isso muito cedo, que eu precisaria cavar o meu lugar e que isso iria ser mais trabalhoso para mim do que para outras pessoas. No final das contas, deu muito certo porque eu consegui achar esse lugar, mesmo contra todas as evidências de que pudesse dar errado” – afirma.

Quando o assunto é a maternidade, a atriz fala que adoraria ser mais rígida ao criar os seus filhos, mas que não consegue porque isso foge à sua natureza. “Eu não consigo fugir muito da minha natureza como pessoa e nem como mãe. Eu sou essa mãe que eu consigo ser, que acompanha a minha personalidade como um todo. É claro que eu não abro mão de valores importantes dos quais eu acredito, valores com os quais eu cresci, alguns deles eu continuo acreditando que são importantíssimos e outros, que caíram por terra pois eu sou outra pessoa e porque os tempos mudaram” – diz. Ela enfatiza ainda que é do tipo que busca o diálogo e sabe que não pode querer transformar os seus filhos em algo que seja bom para ela, pois eles têm a identidade deles, as vontades deles e que são diferentes das dela.

Gabriela Duarte conversou ainda sobre a teledramaturgia brasileira no momento, a importância que as redes sociais têm para ela, sobre saúde e beleza e os projetos que vêm por aí… Confira!

LINHA ABERTA – Você está prestes a completar 50 anos de idade. O que a maturidade trouxe para você? Como você se vê atualmente?

GABRIELA DUARTE – Eu acho que a maturidade traz coisas maravilhosas. Eu quero aproveitar essa oportunidade que a revista está me dando para falar das coisas boas. Eu acho que aprendi finalmente, depois de muitos anos, uma coisa que não é fácil para ninguém, mas principalmente para as pessoas que tem uma personalidade como a minha, que gosta da harmonia, do diálogo, de juntar pessoas, de olhar para o outro e ouvir o que ele tem para dizer. Eu gosto muito do sim, pois ele é harmônico. Se existisse somente o sim na vida, não existiria a guerra, porque o sim é o sim, ele permite, ele abraça. Uma coisa que foi muito importante com a chegada da minha maturidade foi aprender a dizer não, porque o não é libertador e quando a gente usa a palavra libertador está falando de liberdade, que é uma dádiva. Eu acho que no fundo a liberdade é o que o ser humano persegue a sua vida inteira e isso está ligado a não depender da opinião do outro, é ser feliz com aquilo que você tem com você, afinal de contas é você que dorme com você mesmo, que toma banho com você mesmo, que habita a sua pele 24 horas por dia. Então, eu acho que depender da opinião do que o outro acha não tem a ver com liberdade, mas com uma prisão que a gente muitas vezes não sabe identificar e que traz sofrimento. Então, perto dos meus 50 anos, eu percebo que o não está mais presente na minha vida, e não de uma maneira ruim, pejorativa, mas libertadora. E isso é um ganho muito importante que a idade é capaz de trazer.

LINHA ABERTA – Apesar de você já ter mostrado o seu talento ao país, ainda pesa a responsabilidade de ser filha de uma das principais atrizes da TV brasileira? As pessoas ainda te comparam? Como você sempre lidou com isso?

GABRIELA DUARTE – Eu acho que a comparação é uma coisa natural, ela existe em qualquer instância social. Quando você escolhe a mesma profissão da sua mãe ou do seu pai, de alguém que já atingiu o sucesso, isso se torna mais ameaçador para a sua própria identidade, como foi no meu caso. Então, a comparação existe e faz parte do ser humano. Eu percebi isso muito cedo, que precisaria cavar o meu lugar e que isso iria ser mais trabalhoso para mim do que para outras pessoas. Eu acabei fazendo isso com alegria, com uma sensação de que aquilo representava um desafio interessante e eu não me acomodei. Eu fui buscar isso de uma forma produtiva e, no final das contas, deu muito certo porque eu consegui achar esse lugar, mesmo contra todas as evidências de que pudesse dar errado. Além disso, a gente é muito parecida fisicamente, porque a gente escolheu a mesma profissão, tem a voz muito parecida, porque a genética é implacável e ela não perdoa. Eu posso estar em qualquer lugar que, se eu abrir a boca, as pessoas vão olhar e falar “Gente, a sua voz é igual a da sua mãe!”. Em alguns momentos, claro que isso me deixou insegura, no sentido de falar “Mas será que eu tenho alguma relevância ou represento só uma pessoa que lembra outra, no caso a minha mãe?” Foi difícil lidar com isso, mas acho que eu fui buscar essa libertação, a construção da minha própria identidade de uma forma muito saudável. Então, eu ter o meu espaço hoje me faz respirar com orgulho, alívio e ter a alegria de ser quem eu sou.

LINHA ABERTA – Como você é como mãe, mais rígida ou descontraída em relação à educação dos seus filhos?

GABRIELA DUARTE – Eu adoraria ser mais rígida, mas eu não consigo fugir muito da minha natureza como pessoa e nem como mãe. Eu sou essa mãe que consigo ser, que não abre mão de valores importantes dos quais acredita e com os quais cresceu. Outros valores caíram por terra porque eu sou outra pessoa e porque os tempos mudaram. Eu sou aquela mãe que busca o diálogo e acho que não adianta eu ter perseguido a vida inteira a minha própria identidade e, na hora de criar os meus filhos, não deixá-los ser o que realmente são. Isso não tem a ver com não dar limites, ser permissiva ou não mostrar o que é certo e o que é errado. Porém, o que eu não admito errar como mãe é que eu queira transformar os meus filhos numa coisa que é boa para mim, mas não possa perceber que eles são seres humanos diferentes, que têm a identidade deles e vontades diferentes das minhas. Isso não tem a ver com não dar limites, ser permissiva ou não mostrar o que é certo e o que é errado, mas o que eu não admito errar como mãe é que eu queira transformar os meus filhos numa coisa que é boa para mim, mas não possa perceber que eles são seres humanos diferentes e que têm a identidade deles, que têm vontades diferentes das minhas. Isso não tem a ver com não dar limites, ser permissiva ou não mostrar o que é certo e o que é errado, mas o que eu não admito errar como mãe é que eu queira transformar os meus filhos numa coisa que é boa para mim, mas não possa perceber que eles são seres humanos diferentes e que têm a identidade deles, que têm vontades diferentes das minhas. Eu tenho uma filha de 17 anos que, daqui a pouco, vai ser adulta e terá que arcar com as consequências das escolhas dela, independente da mãe e do pai. Porém, enquanto ela e o meu filho estiverem perto de mim, eu nunca vou deixar de aconselhá-los, de mostrar o que eu acho que seria um bom caminho porque eu sou a mãe deles e, mais do que isso, eu sou a tutora e estou ajudando esses seres humanos a se construírem como pessoas. Então, eu tenho muita responsabilidade na criação deles, mas eu não sou rígida, eu sou a favor do diálogo, eu quero ouvir o que eles têm para dizer. Eu fui criada pela minha mãe que é uma artista e tem uma cabeça aberta, diferente das pessoas em geral. Então, isso também influenciou na minha forma de maternar.

LINHA ABERTA – As novelas brasileiras sofreram algumas mudanças com o passar dos anos, em função da audiência, das preferências do público e dos anunciantes, além do advento do streaming. Diante disso, como você vê a teledramaturgia nos dias de hoje?

GABRIELA DUARTE – Eu vejo como correspondente à quantidade de outras opções que a gente tem. Eu acho que o público tem acesso a tantas opções de filmes, de séries nacionais e internacionais, que eu vejo a dramaturgia tentando acompanhar um processo que naturalmente vai se desgastar. Então, eu continuo gostando e acompanhando, até porque é o meu trabalho, eu sou atriz, preciso ver os atores e o que os diretores estão fazendo, o que os autores estão escrevendo. Porém, eu entendo que as histórias são diferentes do que elas eram quando a gente não tinha acesso ao streaming. Eu acho que os autores estão tendo que lidar com essa abertura de mercado e de opções. A arte globalizou, o que é muito bom. Então, eu entendo que algumas pessoas continuam acompanhando essa coisa da novela, de sentar todos os dias no mesmo horário para assistir a algo que elas gostam, com a qual vão se divertir, não vão pensar em nada e irão relaxar. Mas, ao ter acesso a outras opções, o público também impacta nessa fórmula da telenovela de uma outra maneira, o que é muito natural e saudável. Eu, porém, continuo fiel ao modelo, hoje mais ainda quando consigo acompanhar os remakes, daí eu gosto de lembrar, de ver as diferenças de ambientação, de atuação, de tempo e de geração.

LINHA ABERTA – Qual o papel das redes sociais para o artista? Elas mais ajudam ou atrapalham a carreira de uma celebridade? E para você, qual a importância que elas têm?

GABRIELA DUARTE – Eu reconheço completamente a importância das redes sociais hoje em dia, mas isso não quer dizer que eu consiga me enquadrar nisso. Primeiramente, porque eu sou de outra geração, eu nasci em 74, e sou completamente analógica. Então, isso é uma adaptação geracional que requer habilidade, tempo e está lenta para se enquadrar completamente. Eu digo isso porque faço uma comparação com a minha filha de 17 anos, que nasceu com o celular sendo uma extensão da mão e do braço dela, que tem facilidade para lidar com isso. Me dedicar às redes sociais ainda compete muito com um tempo que é precioso para mim, pois eu gosto de ler e de pegar o livro, que é a minha paixão. Então, a importância é enorme, a vontade de estar mais presente também, mas a culpa por eu não me dedicar tanto à rede social também é grande. Porém, ao invés de ver isso como um fardo, eu tento ver com alegria, como um novo momento que veio para facilitar, mas que, por outro lado, também complicou muito as relações humanas, o trato com o outro, o olho no olho e o tempo do ócio, do não fazer nada. Eu nunca fui uma pessoa do “Ai que tédio!”. Eu sou ariana, e arianos não sofrem de tédio (risos). Eu acho, então, que a rede social tomou muito esse lugar, do ócio, do não fazer nada, do pegar um livro e embarcar naquela história, o que é uma pena. E sobre a forma como eu me exponho, ela está de acordo com o que eu sou e acredito para mim.

LINHA ABERTA – Como você lida com os haters das suas redes sociais? Você já se habituou com eles? Como contorna um comentário agressivo que eventualmente recebe?

GABRIELA DUARTE – Como eu não sou uma pessoa que tem disponibilidade de estar muito tempo exposta, mostrando tudo o que eu penso nas redes sociais, eu não sinto isso do hater na pele. Eu acho que o hater vem na esteira de uma pessoa que se expõe de uma forma que não vai agradar a todo mundo, e não agrada mesmo, mas isso está maravilhoso! Eu acho ótimo que as pessoas não tenham interesse em agradar a todo mundo o tempo inteiro. Então, a minha exposição na rede social é leve. Eu Gabriela Duarte, Gabidu, quero leveza na forma como eu me exponho e isso são escolhas pessoais. Eu não critico quem queira levantar as bandeiras que quiser, eu acho isso incrível, mas não é o meu modus operandi. Então, acho que por eu não ter essa pegada nas redes sociais, isso faz com que eu sinta menos essa questão dos haters. Porém, quando aparece um comentário contrário às minhas convicções e à forma como eu penso, isso não me incomoda porque eu acho que faz parte das relações humanas.

LINHA ABERTA –Como foi a experiência de estar em Israel com os seus filhos quando o país foi atacado por um grupo terrorista?

GABRIELA DUARTE – Olha, talvez tenha sido a experiência mais complexa da minha vida, de sentimentos mesmo, de acionar uma chave que a gente não está acostumada, apesar de vivermos num mundo cheio de perigos. Então, quando você liga o modo sobrevivência, isso mexe em cada célula do seu corpo, a adrenalina fica num nível elevado o tempo todo, além do psicológico, que fica muito comprometido. Eu nunca imaginei passar por isso, ainda mais estando ali numa viagem com os meus filhos. Isso não era algo impensável de acontecer a partir do momento que você vai para um lugar com probabilidade de conflito, mas vivenciar era algo que eu nunca imaginei, nem nos meus pesadelos mais esdrúxulos. Então, foi uma experiência rápida, graças a Deus, mas profunda e complexa. A gente chegou em Israel na sexta-feira e vivenciou um pouco do que foi possível, naquele fim de tarde em Telavive, que seria o início dessa viagem de dez dias. No dia seguinte, às seis da manhã, os ataques começaram e a gente se viu numa situação na qual não sabia como lidar, foi algo inédito. Nós tivemos que acelerar o processo de saída do país, o que não foi fácil porque todo mundo queria isso, até mesmo quem estava vivendo lá. Até hoje eu tenho uma certa dificuldade para falar deste assunto porque é algo que eu digeri parcialmente, está acima do meu entendimento. Ninguém consegue explicar uma guerra, os abusos, os estupros, a violência que aconteceu por lá e que, obviamente, a gente só ficou sabendo de todas as atrocidades dessa invasão do Hamas a Israel muito tempo depois. A gente precisava sair de lá, estava com o modo sobrevivência acionado e fomos para o aeroporto. Ao chegarmos lá, nós acampamos e, depois de quase 20 horas, a gente conseguiu sair de Israel e foi um alívio. Porém, ao mesmo tempo, foi algo difícil por deixarmos para trás um país tão maravilhoso – o meu ex-marido é judeu – e a chance de mostrá-lo para os meus filhos, que também têm essa coisa muito forte da cultura judaica no DNA deles, nessa situação, num sentimento de muito medo, de impotência, de tristeza e de compaixão pelas pessoas que estavam lá sofrendo.

LINHA ABERTA – Quais são os seus cuidados com a saúde e a beleza? Você é adepta dos últimos procedimentos estéticos?

GABRIELA DUARTE – Nessa questão eu sou bem conservadora. Eu encontro pessoas que falam “Nossa, como você está jovem! Você dorme no formol?” Eu não sei responder a essa pergunta porque, obviamente, não é uma realidade, eu não durmo no formol. Eu me considero conservadora porque eu sou adepta desse combo saúde, bem-estar e de se sentir bem com o que você é, com a idade que você tem. Daí você me pergunta “Você não faz nada?”. Claro que eu faço coisas que eu considero importantes, como usar cremes específicos, hoje em dia então, tem o do pescoço, o do olho, da testa… Agora, em relação aos procedimentos, aí entra esse conservadorismo, pois eu tenho bastante cautela. Eu não gosto de coisas que modificam a estrutura de quem você é, do seu rosto… Para mim, isso não funciona. “Ah, e muda muito com a idade?” Vai mudando, mas eu continuo com aquele pensamento de que a alimentação e o exercício são muito importantes na minha vida. Eu dou graças a Deus por ser uma pessoa que gosta do exercício, que o tem na sua rotina como um hábito. Então, eu não abro mão das minhas aulas de ginástica, com o meu personal que me conhece, que tem uma série personalizada para mim. Eu gosto de fazer o meu investimento nos cremes de boa qualidade e tenho um dermatologista que me aconselha, me conhece e sabe que eu não vou injetar coisas. Nada contra as pessoas que fazem. Eu, porém, me ligo no básico, gosto de um bom banho gelado, gosto do sol, da caminhada e da natureza, eu me conecto espiritualmente sempre que posso e isso é parte da minha rotina. Eu acho que é um apanhado de coisas que vai fazendo com que o passar dos anos seja leve e condizente com o que está dentro de você.

LINHA ABERTA – Quais são os seus próximos projetos?

GABRIELA DUARTE – Eu quero lançar um livro que venho escrevendo em parceria com a Bruna Condini, que é uma jornalista, escritora e minha amiga. Esse livro está sendo construído a quatro mãos, há dois anos. Ele é um sonho que eu tenho de dividir a minha trajetória com as pessoas. Eu também tenho um monólogo que quero muito fazer este ano, seria o primeiro da minha vida, feito por mulheres, falando sobre mulheres, mas não só para as mulheres. É um manifesto feminista, no qual eu quero trazer o homem para essa conversa, pois eu preciso que ele participe.

Texto de Alethéa Mantovani / @aletheamantovani

Ensaio fotográfico Gabriela Duarte
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