CEO da Vibra desde fevereiro deste ano, Ernesto Pousada quer deixar sua marca na companhia, a quarta maior do Brasil em faturamento no ano passado, como um gestor que é próximo das pessoas. “Vou muito a campo. Acho importante escutar o que está acontecendo na ponta”, diz ele.

Ponta, no caso da Vibra, são os 8,3 mil postos de combustíveis e 30 milhões de clientes que passam por eles todos os meses, além de 20 mil clientes corporativos e 60% do mercado de combustível de aviação. A empresa surgiu como o braço distribuidor de combustíveis da Petrobras, com o nome de BR Distribuidora, abriu seu capital na Bolsa em 2017 e foi totalmente privatizada dois anos depois.

Em 2021 mudou o nome para Vibra e se posicionou na dianteira da transição energética como uma plataforma multienergia, usando o seu peso no mercado para impulsionar investimentos em postos de recarga de carros elétricos e na produção de outros tipos de energia, como eólica, biogás e etanol. Isso não significa, diz Pousada, que os investimentos em energia fóssil vão parar. “Eu acredito muito na transição energética. Mas também temos ainda muita geração de valor no combustível fóssil”, diz ele.

Em 35 anos de carreira, Ernesto Pousada, que é formado em engenharia mecânica pela Escola de Engenharia Mauá, com especialização em Administração e Negócios pela Fundação Instituto de Administração (FIA), trabalhou na Dow Química por 16 anos, cinco deles fora do Brasil, foi COO da Suzano Papel e Celulose ao voltar ao país, presidente para América Latina da Ingredion, a antiga Refinações de Milho Brasil e, entre 2019 e 2023, CEO da VLI Logística, onde em 2021 foi eleito Executivo de Valor do setor de Transporte e Logística pelo jornal Valor Econômico.

Nesta entrevista à [EXP], ele fala sobre seu estilo de gestão e conta seus planos para a empresa. Apesar da importância da mudança nas fontes de energia, Ernesto alerta: como o Brasil já tem uma matriz energética com grande participação de fontes renováveis, a transição por aqui será mais lenta do que em outros países e o consumo de combustíveis fósseis ainda vai subir antes de estabilizar e só então começar a cair. “Ainda temos inúmeras possibilidades no nosso negócio de combustível fóssil e isso vai aumentar cada vez mais a geração de caixa, que será colocado no crescimento do negócio de renováveis. Um alavanca o outro”, afirmou.

[EXP] – Você assumiu agora em fevereiro, veio do setor logístico, trabalhou antes no químico. Qual é o seu modelo de gestão, o que você está mudando na Vibra?

Ernesto Pousada – Depois da minha trajetória de 35 anos como executivo, a Vibra é uma empresa que permite a gente sonhar em muitas dimensões. Ela tem muitas oportunidades ainda de melhoria de resultado no combustível fóssil. É a maior distribuidora de combustível do Brasil, está em mais de 8.300 esquinas do país, tem 60% do mercado de combustível de aviação e quase 20 mil clientes no segmento corporativo. A relevância, o impacto, a possibilidade de transformar o resultado para os nossos acionistas e de deixar um legado para as pessoas que estão aqui, de crescimento, de evolução, de desempenho pessoal. Essa é uma das coisas que eu acredito muito.

Um dos papéis mais relevantes de um líder é fazer as pessoas irem além. Não é entregar mais, é um além relacionado à capacidade. Em primeiro lugar, a minha gestão é uma gestão próxima das pessoas. Eu acredito muito no achatamento da pirâmide e pratico isso. Eu vou muito a campo, já visitei todas as regiões do país. Acho muito importante escutar o que está acontecendo na ponta.

Eu não sou um CEO sozinho. Trabalho com as pessoas e para a minha equipe. Um livro que me influenciou muito, que li há 30 anos e reli há uns 10, é O monge e o executivo. É sobre um líder que serve. Confesso que naquele primeiro momento eu tinha 28, 30 anos, e não entendia direito. Fui aprendendo que, na verdade, o meu principal papel é remover os obstáculos para as pessoas da minha equipe poderem entregar. Quando elas entregam, eu entrego também. Tem uma arte que é o puxa e reconhece, puxa e reconhece, e as pessoas vão vindo.

"Meu principal papel é remover os obstáculos para as pessoas da minha equipe poderem entregar. Quando elas entregam, eu entrego também."

Você já nota resultados nessa estratégia?

Nosso resultado no terceiro trimestre foi absolutamente recorde histórico da companhia (lucro de R$ 1,255 bilhão no terceiro trimestre, revertendo prejuízo de R$ 61 milhões no mesmo período do ano anterior). Esse é o nosso modelo de gestão: ele foca no resultado, mas com as pessoas. Não tem um grupo de iluminados que vai fazer isso. É o esforço dos nossos quase 3.500 funcionários. É com eles, num processo cultural que está gradativamente evoluindo, de as pessoas se expressarem, darem suas opiniões, contraporem os seus líderes, contraporem o presidente. Com isso, a gente vai construindo soluções melhores e as pessoas vão ganhando confiança. E uma coisa muito importante hoje, que é a agilidade. Reduzir as camadas de decisão, ajudar as equipes a entregar resultados e ao mesmo tempo dar liberdade, criar um ambiente seguro para que elas possam se expressar, falar as verdades e ter confiança e coragem para fazer diferente e entender que o erro faz parte do processo de aprendizagem.

Uma das coisas que eu aprendi na minha vida profissional é que errar faz parte. Quando você erra e reconhece o seu erro, esse é um investimento que a companhia fez em você e fica um aprendizado. O problema é quando a pessoa erra e esconde. Aí é um desperdício, ninguém aprendeu nada com isso.

E como você cria esse ambiente de confiança, em que as pessoas possam dizer que erraram sem medo de serem punidas?

Eu acho que você tem que trazer novas experiências às pessoas. Tem muito a ver com cultura. Para mim, esse é um dos papéis mais fundamentais de um CEO. Transformar a cultura da companhia, criar novas experiências.

Vamos ter um encontro de líderes no ano que vem, quando estarei completando um ano de companhia, e uma das coisas que vou fazer é sentar por meia hora e falar onde errei. Eu quero dar o exemplo, para que as pessoas tenham cada vez mais esse ambiente de confiança. São movimentos muito importantes e isso vai criando a cultura que a gente quer, de um ambiente seguro.

"O Brasil já tem um alto uso de energia renovável, quase 85% de toda a energia elétrica e 40% de toda a energia, incluindo combustíveis. O país vai ter uma transição energética mais gradual, porque o renovável já é muito alto."

É como as startups inovam, arriscando e assumindo o risco de errar. Mas são empresas menores. Como fazer isso numa grande empresa?

O que a startup tem é a cultura do risco, mas as grandes empresas têm muito mais condição de fazer isso e podem fazer em uma área. Startup tem pouco dinheiro. Nós temos uma geração de caixa alta. Se um diretor quiser fazer um teste e não der certo e ele perder R$ 200 mil, isso não vai impactar a empresa e pode gerar um aprendizado e ninguém mais cometer esse erro.

Nós somos os incumbentes, então é muito mais difícil se transformar. Só que o incumbente que não se transforma, é engolido. Não adianta fechar os olhos, por exemplo, para a transição energética.

Você assumiu falando que iria investir em transição energética, que é uma coisa que a Vibra já investe, mas sem perder o pé no core business, que é o petróleo. Como fazer as duas coisas?

Eu acredito muito na transição energética. Mas também nós temos ainda muita geração de valor no combustível fóssil. O Brasil já tem um alto uso de energia renovável, quase 85% de toda a energia elétrica e 40% de toda a energia, incluindo combustíveis. É o mais alto do mundo. Então o país vai ter uma transição energética mais gradual, porque o renovável já é muito alto.

A Vibra está se posicionando como uma plataforma multienergia. Essa é a nossa estratégia. Eu vou estar presente para o meu cliente com a energia que ele quiser.

E como é hoje a composição dos negócios em relação ao combustível fóssil?

O fóssil ainda é a maioria, mas o renovável vai crescer mais nos próximos anos. A Vibra investiu muito, nos últimos anos, em energia renovável. Foram R$ 4 bilhões em três investimentos. A Comerc, que é o nosso maior investimento, faz energia solar, principalmente, e um pouco de eólica. A Evolua Etanol, em parceria com a Copersucar, e a ZEG Biogás, que produz gás biometano. Em todos eles, nós temos 50% da empresa. E a gente acredita que em três, quatro anos isso deve estar representando cerca de 30% da geração de caixa da empresa.

Temos a EZVolt, que é uma parceria, uma solução para recarga dos carros elétricos. Foi a primeira empresa a colocar, no ano passado, um posto 100% elétrico para recarga em São Paulo. Estamos criando corredores em estradas, para resolver o maior problema do carro elétrico, que é o de longas distâncias. O custo dos pontos de recarga ainda é bastante alto.

O consumo de combustível fóssil ainda vai continuar crescendo no Brasil até 2030, pelo menos, depois deve ficar estável por alguns anos e começar a decrescer. Vamos ver muito crescimento do etanol, especialmente de milho no Norte e Nordeste, com a instalação de plantas nas regiões produtoras de milho, como o Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí, Bahia).

À medida que essa transição energética avança, a Vibra está muito bem-posicionada. Somos líderes nessa transição energética, temos uma plataforma multienergia e vamos fazer essa transição com segurança para prover a energia que o país precisa.

E a Lubrax fez agora 50 anos.

Temos algumas oportunidades muito interessantes de crescimento no mercado de lubrificantes. A Lubrax, por seis anos consecutivos, é Top of Mind de lubrificantes. Nós temos um share de 18%, que é importante, mas não somos líderes, ainda tem espaço para crescer. Estamos lançando novos produtos, como um para o agronegócio, e um produto específico para carros híbridos. A área de lubrificantes vai crescer significativamente nos próximos quatro, cinco anos. Queremos expandir para a América Latina e no ano que vem vamos aumentar a produção em 50%.

"Uma das coisas que eu aprendi na minha vida profissional é que errar faz parte. O problema é quando a pessoa erra e esconde. Aí é um desperdício, ninguém aprendeu."

E vocês estão preparando a entrada em outros mercados?

Nós vamos avançar fortemente nas lojas de conveniência. Hoje temos cerca de 1.300 lojas BR Mania, franqueadas, e queremos pelo menos dobrar de tamanho. Também estamos investindo no nosso aplicativo, o Vivo Premia, que já tem 19 milhões de downloads, melhorando a experiência do usuário, estamos criando uma área de ciência de dados para ter mais informações dos clientes.

Também estamos melhorando o nosso mix de produtos. O consumidor ainda compra bastante gasolina e etanol comuns, e temos os nossos aditivados, que trazem um benefício adicional para o carro.

Ainda temos inúmeras possibilidades no nosso negócio de combustível fóssil e isso vai aumentar cada vez mais a geração de caixa, que será colocado no crescimento do negócio de renováveis. Um alavanca o outro.

Na linha dos renováveis, existem outros produtos, outras áreas que vocês já mapearam para investir?

Uma área bastante interessante é biogás. Hoje tem uma produção ainda pequena com a ZEG Biogás, a partir de aterro sanitário. Estamos fazendo uma segunda planta em Minas Gerais, a partir da vinhaça, que é um subproduto da produção de etanol. No próximo ano vamos acelerar a implantação de novas fábricas, para clientes industriais que querem substituir combustíveis para uma menor emissão de carbono na sua produção.

Vibra investiu R$ 4 bilhões em diversas fontes de energia renovável

Como é o processo de inovação da Vibra? É in house, é com startups?

Temos três pilares. No ano passado fizemos um CVC com R$ 150 milhões para investir em startups, e estamos programando para no próximo ano reservar parte desses recursos para startups lideradas ou fundadas por mulheres. Temos um hub com diversas startups, ganhamos vários prêmios de empresa mais inovadora. Outro pilar é atrair startups do mercado para trabalhar conosco para resolver os nossos problemas. E um terceiro pilar é o processo de inovação interna. Temos um processo de eleger ideias e as mais interessantes a gente investe e desenvolve. Essa é a verdadeira grande transformação de uma companhia.

Tem um problema nesse mercado que é o mercado ilegal de combustível. Vocês estão fazendo ações para coibir, estão cobrando ações do governo?

Hoje no Brasil, o governo, a sociedade, acaba aceitando que é normal ter combustível adulterado, é normal empresas sonegarem. Nós vamos liderar junto com o setor uma transformação. Queremos trabalhar em conjunto com o poder público para sanear isso. Acho que a reforma tributária vai ajudar, trazendo algumas mudanças importantes que inibem um pouco a sonegação.

O que você espera do mercado em 2024 e quais são os planos de investimento da Vibra?

Eu sou, no geral, um otimista. Eu espero um crescimento do país, apesar dos diversos desafios.

E na Vibra vamos seguir mostrando resultado e não só financeiro, mas de satisfação das nossas pessoas, para a sociedade, projetos sociais, a satisfação do nosso cliente, que permeia toda a nossa estratégia. Mostrar que o negócio combustível ainda tem oportunidades relevantes de crescimento, em lubrificantes, combustíveis aditivados, mais lojas BR Mania. E avançar forte na nossa agenda de transição energética, consolidando mais projetos de biogás, evoluindo na geração de energia renovável através da Comerc, vendendo mais etanol.

Eu tenho certeza de que os dois pilares vão entregar resultado, mas sempre trabalhando com as nossas pessoas para que o potencial de cada um floresça ainda mais e a gente tenha um ambiente em que as pessoas gostem de trabalhar. Eu acho que esse é um binômio bastante importante, entregar resultado com as pessoas e sempre buscando esse ambiente de felicidade.

Por Denize Bacoccina