Por Laine Furtado / @lainefurtado
Mais da metade dos americanos se identifica como classe média ou classe média alta, mas pesquisas baseadas em renda mostram que percepção e posição econômica nem sempre coincidem Em uma época em que o custo de vida, os preços dos imóveis, os salários e a inflação ocupam espaço constante no debate americano, uma pergunta aparentemente simples ganhou novos contornos: afinal, quem pode ser considerado classe média nos Estados Unidos? A resposta depende de quem está fazendo a pergunta e, principalmente, de como a classe econômica é definida.
Uma pesquisa da Gallup mostra que 54% dos americanos se identificam como middle class ou upper-middle class. Mas esse número representa percepção pessoal. Quando pesquisadores analisam a renda das famílias e a distribuição econômica do país, o cenário se torna bem mais complexo.
A Gallup perguntou aos americanos em qual classe social eles se colocariam. Em levantamento divulgado em 2024, 39% disseram pertencer à classe média e 15% à classe média alta, totalizando 54%. Outros 31% se identificaram como working class, 12% como lower class e apenas 2% como upper class.
O resultado chama atenção porque não existe, na pesquisa, uma tabela de renda apresentada aos entrevistados para determinar onde eles deveriam se enquadrar. Trata-se de uma percepção sobre a própria situação econômica e social.
E é justamente aí que começa a diferença entre classe percebida e classe medida pelos números.
O que o Pew considera classe média?
O Pew Research Center utiliza uma metodologia própria para analisar a classe média americana. Em sua análise baseada em dados de 2022, o centro de pesquisas considerou como middle-income os domicílios cuja renda está entre dois terços e o dobro da renda mediana nacional, depois de fazer ajustes para o tamanho da família e para diferenças no custo de vida entre as regiões.
Para uma família de três pessoas, por exemplo, essa faixa correspondia aproximadamente a US$ 56.600 a US$ 169.800 por ano.
Isso significa que não basta olhar apenas para o salário anual. Uma renda de US$ 100 mil pode representar uma situação econômica bastante diferente para uma pessoa que vive sozinha, para um casal ou para uma família com quatro ou cinco integrantes.
A localização também pesa. O custo de moradia em Nova York, San Francisco ou Miami, por exemplo, é muito diferente daquele encontrado em cidades menores de outros estados.
Por isso, o Pew não apresenta uma tabela universal e rígida de classes econômicas válida para todos os americanos.
A ascensão da upper-middle class
Outra análise recente, realizada pelo American Enterprise Institute (AEI), chama atenção para uma transformação na estrutura de renda dos Estados Unidos.
Segundo o estudo, a upper-middle class tornou-se o maior grupo de renda do país, representando aproximadamente 31% das famílias americanas. Em 1979, esse grupo correspondia a cerca de 10%.
Para uma família de quatro pessoas, a análise do AEI coloca a faixa de upper-middle class aproximadamente entre US$ 153.864 e US$ 461.592 anuais.
Para uma pessoa que vive sozinha, o limite inferior dessa faixa é de aproximadamente US$ 76.932 por ano.
Os números mostram por que comparações simplificadas podem ser enganosas. Uma renda que parece elevada para uma pessoa pode não produzir o mesmo padrão de vida para uma família com quatro integrantes, especialmente em uma região de alto custo.
Por que tantos americanos se consideram classe média?
A diferença entre percepção e renda não significa necessariamente que milhões de americanos estejam simplesmente “errados” sobre sua própria situação.
Classe econômica não é determinada apenas pelo salário.
Uma família pode ganhar US$ 150 mil por ano, mas ter uma hipoteca elevada, filhos na faculdade, dívidas, despesas médicas ou viver em uma região onde moradia, seguros e serviços são muito caros.
Da mesma forma, uma pessoa com renda semelhante em uma região de menor custo pode ter uma situação financeira muito mais confortável.
Também existe o chamado efeito de comparação social. As pessoas tendem a avaliar sua situação olhando para as pessoas ao seu redor, para seus colegas de trabalho, vizinhos e círculo social — e não necessariamente para a distribuição nacional de renda.
Assim, alguém que ganha US$ 200 mil pode continuar se considerando classe média se estiver cercado por profissionais que ganham US$ 300 mil, US$ 400 mil ou mais.
Não existe uma única tabela oficial
É importante também esclarecer uma informação que circulou recentemente nas redes sociais: tabelas que dividem os americanos em categorias como pobreza, lower class, lower-middle class, middle class, upper-middle class, upper class e wealthy, com valores específicos de renda anual, não devem ser automaticamente atribuídas ao Pew Research Center.
O Pew utiliza uma metodologia diferente, assim como o AEI e a Gallup fazem perguntas diferentes.
A Gallup mede identificação social.
O Pew analisa posição de renda em relação à mediana, considerando tamanho da família e custo de vida.
O AEI examina a distribuição da renda e a evolução dos grupos econômicos ao longo do tempo.
Portanto, números diferentes não significam necessariamente que uma das pesquisas esteja errada. Elas estão respondendo a perguntas diferentes.
O que os números realmente revelam?
A principal conclusão talvez seja justamente que “classe média” não é uma categoria tão simples quanto parece.
Os 54% registrados pela Gallup mostram como a maioria dos americanos se enxerga. Já os dados de distribuição de renda mostram que a composição econômica do país mudou significativamente nas últimas décadas, com crescimento expressivo da faixa de upper-middle class.
Isso ajuda a explicar uma aparente contradição: uma grande parcela da população pode se considerar classe média enquanto, ao mesmo tempo, uma parcela crescente das famílias está em níveis de renda que pesquisas classificam como upper-middle income.
A discussão também revela por que olhar apenas para o salário anual pode ser insuficiente para avaliar o padrão de vida de uma família americana.
Quanto você ganha é apenas uma parte da equação. Onde você mora, quantas pessoas dependem daquela renda, quanto custa sua moradia e quais são suas despesas também determinam o que aquela renda representa na prática.
No fim, a pergunta “você é classe média?” pode ter duas respostas diferentes: uma baseada em como você se vê e outra baseada em onde sua renda o coloca na distribuição econômica do país.
E, nos Estados Unidos de 2026, a diferença entre essas duas respostas ajuda a explicar muito do debate sobre o que significa, de fato, pertencer à classe média americana.
Fontes: Gallup, Pew Research Center e American Enterprise Institute (AEI).

