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Uma retrospectiva

De Eduardo Prugner

Talvez quisesse ficar em casa. O frio estava colaborando. A rua iluminada e o brilho das luzes dos apartamentos não escondiam a alegria reinante das famílias que comemoravam o último dia do ano.

Estou indo para casa do meu filho mais velho, onde tradicionalmente passo as festas de final de ano com minha nora, netas e os familiares da minha nora. Vou acompanhado de meu outro filho, com quem eu moro. Fui chegando. A noite apesar de fria estava enfeitada por um céu estrelado. Vez ou outra escutava o barulho de fogos de artifício.

Muitas famílias, buscavam lugares públicos, principalmente em volta de lagos, muito comum nos mais diversos bairros de Orlando. Levavam suas guloseimas e se deleitavam entre abraços e brindes em taças de champagne.

Talvez quisesse estar ali, próximo a elas, mas estava sentindo um pouco da solidão e com saudades da minha família, deixada em longínquas terras do Brasil…. Lá ficaram meus outros filhos e uma ex-companheira….

Afinal perguntava-me: não havia eu escolhido viver em terras do “tio Sam” ao lado de meus outros dois filhos e das minhas netas americanas?

Por um momento senti o calor que anos atrás sentia ao ser abraçado pela minha ex-companheira e meus filhos deixados no Brasil.

E, novamente tinha que explicar a mim mesmo que estava envelhecendo. Havia criado duas famílias e tinha seis filhos. Talvez fosse esse o meu grande conflito e aumentava à medida que envelhecia.

Acho que não quero lembrar-me de tempos em que existia a felicidade e que agora me davam agradáveis lembranças! Vou me permitir a voltar ao meu atual ambiente, ao meu tempo presente, neste último dia de final de ano.

A casa do meu filho permanecia toda iluminada. Entrando na sala ainda vejo a árvore de Natal, porém já sem os tradicionais presentes, mas empoderada com as bolas e enfeites coloridos, em meio a pequenas luzes mantendo o pinheirinho como símbolo das festas de final de ano.

A sua família já me esperava e fui recebido com uma calorosa saudação.

Já acolhido na sala de visitas, conversava animadamente com a sua família e seus convidados. Por orientação natural, alguns temas eram evitados, para que a confraternização não entrasse em discussões acaloradas e desnecessárias.

É chegado a hora da ceia. O cardápio normalmente era uma continuidade da ceia de Natal, mas o daquela noite, tinha sido especialmente elaborado com carne de peru acompanhado de frutas em conserva em meio a deliciosas caldas adocicadas. A farofa, tanto a de milho como a de mandioca, indispensáveis à ceia, receberam passas de uva, provocando um paladar misto de doce e salgado. Até mesmo o arroz, transformou-se em um prato colorido com a presença de milho e ervilhas.

Sentava-me sempre à cabeceira da mesa, numa cadeira com braços. O outro lado era destinado ao meu filho, anfitrião da casa. Os demais lugares mantinham sempre a formação tradicional de outros jantares.

A ceia, sempre animada em meio a conversas, era regada com um delicioso vinho da Flórida e brindávamos alegremente.

A mesa trajava uma toalha colorida, acompanhada de guardanapos da mesma cor. Na parte central da mesa, sob um delicado enfeite de Natal, havia uma sobre toalha branca, com bordados delicadamente elaborados pela avó e que se sobre punha, em luta bravia, aos enfeites feitos em máquinas bordadeiras. Os bordados faziam parte de um tesouro, porque muitas dessas toalhas foram delicadamente herdadas e bordadas pelas avós.

Por vezes envolvia-me em pensamentos e lembranças que me transportavam a um passado. Ficava em imaginar os meus filhos crianças correndo pela sala, ocupando os espaços de um ambiente de sala antiga, sob olhares atentos e reprovadores da mãe. Hoje, minhas duas netas, dominam, comportadamente, a idade juvenil de outrora.

A ceia corria alegremente entre brindes de vinho e refrigerantes para as crianças. O tempo vai passando, a conversa animada, a sobremesa e os ponteiros do relógio estão se encontrando para um se sobrepor a outro: é quase meia noite!

Não se pode mais permanecer dentro de casa e todos vão à rua.

O bairro tipicamente residencial, com calçadas largas, está apinhado de gente na rua. Crianças brincando, fogos de artifício iluminam o céu, músicas surgem de todos os lugares.

Ali, nos demais dias do ano, as ruas eram quase desertas e nas calçadas pouco se viam crianças brincando. Mas agora parecia que todos os moradores haviam saído de sua casa, invadiam a rua e saudavam uns aos outros.

Dez…nove…oito… zero! É meia noite! Pipocar de fogos, abraços entre sorrisos. Alguns procuram esconder suas lagrimas nas tantas lembranças de um passado remoto; outros cantavam as músicas tradicionais trazidas pela tradição de suas terras de origem.

Tudo se transformou em alegria, os abraços não cessavam e os acenos aos vizinhos desejando um feliz ano novo continuavam.

Aos poucos as ruas foram ficando vazias, um pequeno movimento de carros que transportavam as famílias visitantes. Com certeza poderia imaginar as conversas que comentavam aquela noite. No banco de trás, as crianças dormiam, mas em seus lábios havia sinais de sorrisos. Estampavam alegria!

Alegria por aquela noite. Alegria porque podiam imaginar um mundo onde as pessoas viviam em paz, em harmonia, enfim na Felicidade.

Um mundo que só aqueles que tinham o coração de criança poderiam imaginar!

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