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Um bate papo com Augusto Cury

ENTREVISTA DE ARILDA COSTA MCCLIVEENTREVISTA

O escritor, psiquiatra e palestrante, o Augusto Cury dispensa apresen­tações porque é conhecido no Brasil e internacionalmente em muitos paises. Já vendeu milhões de cópias e foi traduzido em 70 países. Cury é o autor da teoria de inteligência multifocal, utilizada em vários países e instituições. Cury disse que precisamos viver de uma manei­ra inteligente, para escrever os capítulos mais nobres da nossa história, mesmo nos momentos mais difíceis. Nesse bate papo, ele fala sobre como a pandemia afetou a vida das pessoas, a crise emocional entre pais e filhos , da overdose do mundo digital e do controle das nossas emoções.

LINHA ABERTA: Dr. Augusto, vivemos um período de pandemia que espalhou medo, incerteza, depressão e tristeza. Como vamos lidar com as consequen­cias e conseguir sair disso?

AUGUSTO CURY: A pandemia da Covid-19 foi dramática e expôs algumas pandemias que já estavam potencialmen­te afetando o ser humano, mas ninguém comentava. Número 1, a pandemia da ansiedade. Ela já estava poderosamente presente com a televisão, o mundo digital, as redes sociais. Com a pandemia da Covid-19, acelerou-se mais. A solidão é muito importante para a criatividade. É o momento no qual você se encontra consigo mesmo. Mas as pessoas rejeitam a solidão. Entram freneticamente no Google, em sites, nas redes sociais. Não se aquietam, não se interiorizam, não se protegem. Então, com a pandemia da Covid-19 o desafio é aprender a desacelerar a mente, a proteger a emoção para contemplar o belo, para tra­balhar perdas e frustrações, para ser autor da própria história.

LINHA ABERTA: Como conseguimos gerir nossas emoções.

AUGUSTO CURY: Usando ferramentas de gestão da emoção. Uma dessas ferra­mentas é aprender a impugnar, confrontar e discordar de cada pensamento pertur­bador. E também impugnar, confrontar, discordar de nossa necessidade neurótica de querer dar resposta para tudo e para todos no WhatsApp, de querer correspon­der a expectativa de todo o mundo.

Precisamos aprender a fazer das pequenas coisas um espetáculo aos olhos, con­templando o belo. É importante cruzar experiências entre pais e filhos, falar sobre suas perdas, lágrimas, desafios, histórias e aventuras. Essa troca de experiências raramente tem sido feita, por isso nunca tivemos uma sociedade tão doente, tão angustiada.

LINHA ABERTA: Hoje em dia há muitos filhos que abandonam os pais. O que está acontecendo?

AUGUSTO CURY: É um fenômeno socioemocional da modernidade ligado à falta de construção de vínculos mais profundos. Pais e filhos se tornam estra­nhos no mundo todo porque não sabem se colocar no lugar um do outro, ter uma empatia mais profunda, não sabem pedir desculpas, não sabem perguntar “o que posso fazer para torná-lo mais feliz?”.

A solidão do abandono social tem sido dramática, mas há outra solidão tão ou mais dramática: a solidão do autoaban­dono. Se não aprendemos a ver o char­me dos nossos defeitos e dos defeitos dos outros, se não vivemos suave, leve e ricamente, abandonamos a nós mesmos e aos outros.

Por isso estamos na pandemia da solidão e na pandemia dos mendigos emocionais, pessoas que precisam de muitos estímulos – reconhecimento, aplausos, respostas positivas, atenção – para sentir migalhas de prazer.

LINHA ABERTA: Quais serão as conse­quência da overdose de mundo digi­tal? E quais serão as doenças mentais com que teremos que lidar no futuro? Onde vamos parar?

AUGUSTO CURY: Vamos parar nos consultórios de psiquiatria e psico­logia. Vamos parar num ambiente de autopunição e autocobrança onde há o esgotamento cerebral, acompanhado de sofrimento por antecipação ou rumi­nação de perdas, mágoas e frustrações. Vamos parar num ambiente em que as pessoas se tornam cada vez mais o nú­mero do cartão de crédito, o número do passaporte, um número de identidade, mas não na condição de seres humanos completos e complexos.

A mente é a maior fonte de mentiras, de distorção, de invenção, de coisas tolas, autopunitivas, distorcidas. A mente é virtual. A construção de pensamento é virtual. Se a construção de pensamento é virtual, a pessoa pode transformar um beija-flor num monstro.

Pode transformar o escuro num ambien­te dramático. Pode pensar na possibili­dade de morrer um dia, fazer um velório antes do tempo e desenvolver doenças que só estão na cabeça dela. Nossa mente é especialista em contar mentiras e construir cárceres mentais. Na pande­mia e na intoxicação digital, tudo isso foi turbinado.

LINHA ABERTA: O que significa a frase “a emoção não pode ter um cartão de crédito ilimitado, senão ela compra aquilo que não nos pertence”?

AUGUSTO CURYA emoção, ao con­trário do que as pessoas pensam, não amadurece. Quem amadurece é o eu, que representa a capacidade de escolha, a consciência crítica, a capacidade de ser autor da própria história. O eu está entre a emoção e a razão. O eu deve ser líder de si mesmo, gestor da mente. A emoção sempre vai ser ingênua. Quando eu ima­turo dá um cartão de crédito ilimitado para a emoção, um olhar atravessado estraga o dia, uma crítica, a semana.

A emoção banca os pensamentos, com­prando de maneira tola, infantil aquilo que não nos pertence. Se você foi ofen­dido, rejeitado, excluído, a sua paz vale ouro, o resto é lixo. O eu tem de mostrar para a emoção que a paz vale ouro. Você não pode comprar uma ofensa que você não causou. Você não pode comprar um discurso de ódio nas redes sociais que você não causou.

Essas são duas ferramentas de gestão da emoção. Não devo comprar aquilo que não me pertence, ou seja, a emoção não pode ter um cartão de crédito ilimitado. E minha paz vale ouro, o resto é lixo, insignificante. Essas duas ferramentas são fundamentais para proteger a nossa mente e prevenir muitos transtornos emocionais.

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