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Moda na Rússia: Marcas estão fechando as portas

Texto de JÚLIA VILAÇA E JÚLIA DARA
@fashionnovation.nyc @julialsvilaca @juliadaraa

Desde o início dos ataques à Ucrânia, a indústria da moda tem demonstrado atitudes de repúdio à guerra. A moda na Rússia começou a mudar e em­presas de luxo fecharam suas portas no país, além de apoiar refugiados ucrania­nos. O protesto a favor da bandeira azul e amarela também chegou às passarelas. Nas semanas de moda de Milão e Paris, os designers usaram suas vozes para protestar contra a guerra.

MODA NA RÚSSIA: MARCAS ESTÃO FECHANDO

Antes mesmo da mudança no cenário da moda na Rússia, outras indústrias to­maram a dianteira e interromperam os negócios no país. Apple, Adobe, Airbnb, Google, Netflix… e a lista continua. De fato, algumas grandes marcas de luxo não estão mais na Rússia.

No entanto, a indústria da moda foi fortemente criticada por seu posicio­namento lento. Apenas 10 dias após o início do conflito, “os anúncios de fechamento de lojas em solo russo estão chegando rapidamente, assim como doações e outras iniciativas de apoio ao povo da Ucrânia”, diz o Malay Mail.

A Hermès foi a primeira marca de luxo a anunciar publicamente que fecharia lojas russas em resposta à invasão.

A Chanel também interrompeu as opera­ções na Rússia e a Adidas suspendeu sua parceria com a União Russa de Futebol.

O SHOW DE GIORGIO ARMANI COMEÇOU COM UMA VOZ LENDO UMA DECLARAÇÃO DO DESIGNER EM INGLÊS: “MINHA DECISÃO DE NÃO USAR NENHUMA MÚSICA NO SHOW FOI TOMADA COMO UM SINAL DE RESPEITO ÀS PESSOAS AFETADAS PELA TRAGÉDIA EM EVOLUÇÃO NA UCRÂNIA”. E SEU DESFILE FOI ICÔNICO

LVMH, Kering e Richemont Group tam­bém decidiram fechar temporariamente suas lojas na Rússia. A BBC diz que “sur­gem pedidos de lojas de luxo ucranianas para ‘se levantar’ após a invasão do país”.

Atualmente, a lista de marcas e empresas de moda que pararam de operar na Rús­sia só cresceu. Na verdade, as ações agora vão além do fechamento de lojas.

Empresas e agentes da indústria como Isabel Marant e LVMH doaram a diferen­tes entidades para ajudar os refugiados de guerra.

Toda essa mudança veio tanto da pressão econômica quanto política, até mesmo de agentes da indústria. A Vogue Rússia se posicionou contra a guerra.

E, claro, a Vogue Ucrânia também se po­sicionou, mas mais do que isso, por meio de um post no Instagram, foi pedido um embargo às atividades. Marcando várias marcas, a revista deixou claro que tomar um lado e uma atitude naquele momento era uma questão humanitária.

Além disso, a Mercedes-Benz Fashion Week Russia, maior evento do setor no país, cancelou esta edição. Eles anun­ciaram em seu Instagram que tudo o que aconteceria de 16 a 20 de março foi cancelado.

O DESFILE ONLINE DO ESTILISTA RUSSO VALENTIN YUDASHKIN FOI EXCLUÍDO DA SEMANA DE MODA DE PARIS. DE ACORDO COM A FÉDÉRATION DE LA HAUTE COUTURE ET DE LA MODE, A DECISÃO FOI UMA MEDIDA EMERGENCIAL DEVIDO AO SILÊNCIO DA MARCA SOBRE A UCRÂNIA.

SEMANA DE MODA DE MILÃO E O ATAQUE

Recordemos a noite de 23 para 24 de fevereiro. Poucas horas após o início da Semana de Moda de Milão, a Rússia inva­diu a Ucrânia. As Nações Unidas estimam que, em última análise, até 4 milhões de pessoas podem deixar a Ucrânia. E, de fato, isso aconteceu.

Os dados mostram que quase três mi­lhões de pessoas já fugiram da Ucrânia por causa da invasão russa. Mas ainda estamos contando. Todos os dias ouvimos depoimentos de famílias que estão fazen­do de tudo para sair do país. Ou ainda, de homens que foram obrigados a se separar de suas famílias porque não podiam dei­xar o solo nacional. Afinal, eles deveriam se alistar para lutar uma guerra que eles nem queriam.

Após os ataques iniciais, os modelos, estilistas e influenciadores ucranianos participantes da Semana de Moda de Milão protestaram. Eles pediram que a Rússia parasse com os ataques à Ucrânia.

Um exemplo é Giorgio Armani. Ele pres­tou homenagem ao sofrimento da Ucrânia com show silencioso. Nenhuma música tocava enquanto as modelos estavam nas passarelas.

A SEMANA DE MODA DE PARIS NÃO ERA UMA CORTINA DE FUMAÇA

Ralph Toledano, presidente da Federa­tion de la Haute Couture et de la Mode (FHCM), divulgou um comunicado em 1º de março *incentivando* os participantes do evento a “experimentar com soleni­dade os shows dos próximos dias e como reflexo dessas horas sombrias”.

Uma semana depois, após o fim da sema­na de moda, Toledano disse à CNN que na noite de domingo anterior ao primeiro dia de desfiles, ele tinha duas imagens conflitantes em sua mente. De um lado, a emoção do retorno da semana de moda com desfiles ao vivo livres da pandemia. Do outro, imagens de guerra e “um país sendo atacado de forma muito cruel e sel­vagem… e pessoas morrendo, e pessoas sofrendo”.

Ou seja, acaba sendo até um pouco con­traditório, um evento com tanto glamour acontecer simultaneamente e fisicamente próximo a uma guerra.

Infelizmente, muitas marcas fizeram seus desfiles durante a semana de moda da cidade da luz sem dizer nada. Outros aproveitaram o momento para levantar a bandeira contra a invasão russa. E, como a Paris Fashion Week aconteceu algum tempo depois do início das apostas, os protestos

A ESTILISTA ISABEL MARANT USOU UM MOLETOM COM AS CORES DA BANDEIRA UCRANIANA EM SEU DESFILE. ELA TAMBÉM ANUNCIOU UMA DOAÇÃO AO ACNUR (ALTO COMISSARIADO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA OS REFUGIADOS) E AO UNICEF (FUNDO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A INFÂNCIA).

ELIZABETH MARANT

A estilista Isabel Marant usou um mole­tom com as cores da bandeira ucraniana em seu desfile. Ela também anunciou uma doação ao ACNUR (Alto Comissaria­do das Nações Unidas para os Refugia­dos) e ao UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância).

BALENCIAGA

Um dos destaques desses protestos foi Balenciaga. A designer Demna Gvasa­lia enviou “uma mensagem sincera à Ucrânia no desfile Balenciaga Outono/ Inverno 2022 em Paris”.

“São apenas pessoas inocentes que morrem na guerra. Eu experimentei isso e realmente bloqueei por 30 anos até que comecei a ler as notícias na semana passada. Isso trouxe toda essa dor de volta, como qualquer um que passou por isso”, disse Demna.

Embora a coleção tenha sido projetada antes do início da Guerra, era difícil não imaginar semelhanças com esse conjun­to, como disse o The New York Times:

“Em um hangar de avião frio e escuro nos limites de Paris, (…) Demna, o desig­ner mononímico de Balenciaga que fugiu da Geórgia aos 12 anos durante a guerra civil daquele país, construiu um enorme globo de neve e deixou acontecer uma tempestade.”

DESIGNER DE MOSCOU VALENTIN YUDASHKIN

Como dito antes, a guerra impacta diretamente as semanas de moda e as marcas. O desfile online do estilista russo Valentin Yudashkin foi excluído da Semana de Moda de Paris. De acordo com a Fédération de la Haute Couture et de la Mode, a decisão foi uma medida emergencial devido ao silêncio da marca sobre a Ucrânia.

“Temos uma posição firme contra a iniciativa do presidente da Federação Russa. Não temos nada contra [o povo russo], mas não apoiaremos ou aceita­remos ter em nosso calendário aqueles que apoiam sua posição”, disse Ralph Toledano ao WWD.

A moda sempre andou lado a lado com a política. Sem apatia, a indústria e seus agentes usavam roupas e eventos para se posicionar.

Júlia Vilaça é Jornalista e Head of Content da Fashin­novation e Júlia Dara é Produtora de Conteúdo na Fashinnovation. A empresa, sob a coordenação de Marcelo & Jordana Guimaraes, é uma plataforma global que preenche a lacuna entre a indústria da moda e as indústrias que se cruzam, por meio de quatro pilares principais: empreendedorismo, sustentabilidade, tecnologia e inovação, diversidade e inclusão. Para mais assuntos relacionados ao mundo da moda, visite o site www.fashinnovation.nyc.

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