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Rebeca, o último suspiro de uma juventude

Eduardo Prugner
@eduardoprugner

Tinha 11 anos quando nos mudamos para um bairro novo e distante do centro da cidade. Algumas ruas ainda apresentavam o calçamento de pedra, outras de terra e a avenida principal, de acesso ao bairro estava sendo asfaltada. Poucas casas, mas podia-se perceber a construção de novas residências, principalmente os sobrados geminados, muito comum naquela época. Morávamos em uma casa, próximo a fábri­ca onde meu pai trabalhava.

Tão logo os sobrados ficaram prontos, famílias foram ali morar. Assim conheci Zito, Zézito como era chamado, o meu primeiro amigo do bairro. Logo em seguida, o Manoel, o Manoelito, que ape­lidamos de Lito. O meu era Bolinha. Todos com a mesma idade. Éramos os “3 Mosqueteiros”.

Quando estava próximo dos meus 12 anos, no úl­timo sobrado, mudou uma menina, bem verdade, aparentava ter a nossa idade. Não imaginaríamos, mas ela iria mudar totalmente nossas vidas.

Estávamos conversando na frente da casa do Zito, quando Rebeca surgiu e aproximou-se de nós, com um sorriso tão encantador, que acredito que nossas faces ruborizaram, e isso aumentou seu sorriso. Ela foi logo se apresentando, dizendo seu nome, mostrando-nos onde morava e que vivia com sua avó. Nos apresentamos também…

Foi assim que iniciamos uma amizade, de um grupo inesquecível. Começamos a estudar juntos, pois logo teríamos o “temível” exame de admissão para o 1 ano do ginásio no colégio Estadual tam­bém não muito longe onde morávamos. Passamos, uma vitória!

Tão logo começaram as aulas, fomos separados em salas diferentes: Rebeca ficou na sala das meninas e nos três na dos meninos. Como era na­quele tempo a divisão das salas. Mas não importa, íamos juntos ao colégio, voltávamos juntos, estu­dávamos, brincávamos com as mais divertida das brincadeiras, pois sempre estávamos inventando. Tomávamos banho e só depois íamos para nossas casas para jantar. O nosso “quartel general” era na casa da Rebeca.

Por vezes, a avó de Rebeca preparava um bolo de fubá, com um copo de chocolate (Nescau) para cada um. Quando chegávamos em casa nem tínha­mos vontade de lanchar (era o nosso jantar).

Rebeca cada dia ficava mais linda. Seus cabelos dourados, ondulados e cumpridos até os ombros emolduravam uma face levemente rosada, onde dois olhos amendoados faziam surgir íris azuis que nos levavam ao céu no azul celeste. Rebeca estava se transformando numa menina-moça e nós não nos atrevíamos de namorá-la, mas erá­mos apaixonados por ela e era a nossa namorada.

E aí daquele “marmanjo” que tentasse se aproxi­mar dela, nem se arriscavam. Éramos também o seu guardião e ela gostava disso.

Um dia, solenemente, convidou-nos a ir ao seu quarto. Mandou nos sentarmos no chão e em cír­culo, Rebeca tirou da gaveta do seu “criado mudo”, um quadro. Seus olhos marejaram, sua boca tremia e assim como suas mãos, foi mostrando a cada um de nós e caiu em choro quase desespe­rador. Entendemos o momento, choramos e nos abraçamos.

O TEMPO FOI PASSANDO!

Quando Rebeca fez quinze anos, não houve uma grande festa. A sua avó preparou um bolo espe­cial, nossos pais foram convidados e vestimos as nossas melhores roupas.

Cantamos parabéns e fizemos uma surpresa para ela, além das flores que havíamos dado. Coloca­mos um “disco” de valsas e cada um de nós dança­mos a valsa dos 15 anos. Na realidade flutuamos no espaço. Eu queria parar aquele momento.

Dois meses depois percebemos que o rosado do rosto sumia, seus olhos por vezes perdiam o brilho e nem sempre estava disposta a estar conosco. Chorava constantemente e seu sorriso foi se pagando. Faltava as aulas.

Perguntávamos a sua avó, que simplesmente nos respondia que era coisa de moça e entrava em casa chorando.

Estávamos preocupados… Até que numa tarde uma ambulância parou em frente à casa da Rebe­ca e foi hospitalizada.

Nem sempre éramos autorizados a visitá-la, mas fazíamos plantão em frente ao hospital.

Passado quinze dias a sua avó chamou-nos e corremos para vê-la. Usava um turbante sobre a cabeça e podíamos perceber que estava sem os seus lindos cachos dourados. Seus olhos profun­dos cercado por olheiras, rosto cavado. Sorrio quando nos viu.

Aproximamos com lágrimas nos olhos. Nossa namorada estava muito doente. Sua mão magra afagou a cada um de nós, sorriu novamente e pediu que nos aproximássemos mais e falou baixinho: – “Se pudesse casaria com cada um de vocês!” Dei-nos um beijo e se deitou. Dormiu para sempre!

Com ela foi o nosso amor e a nossa juventude. Pois nunca teve uma juventude igual àquela!

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