My Partner
Census
Lytron
Sebrae
sensus

Edson Celulari: O consagrado ator brasileiro fala sobre a carreira, a TV brasileira e a paternidade pela terceira vez

Texto de ALETHÉA MANTOVANI

@aletheamantovani

  Que o ator Edson Celulari, 63 anos, é um dos ícones da teledramaturgia brasileira, do cine – ma e do teatro, ou seja, um ator consagrado e que dispensa apresentações, todo mundo já sabe. Mas, ainda assim, é impossível falar sobre ele e não mencionar a qualidade extraordinária do seu trabalho, o seu grande talento, a elegância com que ele se posiciona em cena e o seu refinamento nato, características que vêm sendo evidenciadas ao longo dos seus 43 anos de trajetória artística. E se tudo isso ainda não bastasse para defini-lo, podemos dizer também que ele tem um estilo gentleman de ser, além de uma beleza atemporal que lhe rendeu diversos papéis de galã, muitos deles memoráveis como o Vadinho, de “Dona Flor e Seus Dois Maridos”; o Guel, de “Sassaricando” e o Jean Pierre, da novela “Que Rei Sou Eu?”.

Sobre os projetos atuais, o ator conta que está finalizando a montagem de um filme dirigido por ele, o “Exercício de Suspense”, e o “Chuteira Preta”, uma série que irá estrear no streaming em 2022, além de outros trabalhos em parceria com a sua atual esposa, a atriz Karin Roepke, 39 anos, com quem o artista está casado há 4 anos.

Celulari demonstra estar vivendo uma fase especial ao lado de Karin, que está grávida de quase sete meses da primeira filha do casal. Ele será pai pela terceira vez, 24 anos após o nascimento do seu filho Enzo e 18 da filha Sophia – que são frutos da sua união anterior com Claudia Raia.

O momento é de muita alegria para o ator que experimenta novamente a chegada de um filho, mas desta vez com um gosto de superação e gratidão. Em 2016, Edson enfrentou um linfoma não-Hodgkin, mas driblou o problema com muita coragem e hoje está curado.

Agora é só alegria para o astro brasileiro. É tempo para ele, em breve, “brincar com os cavalinhos que a sua peque – nininha irá lhe pedir”. Confira a entrevista que Edson Celulari concedeu à Linha Aberta.

LINHA ABERTA – Você é um ator consagrado, possui mais de 40 anos de carreira, com interpretações espetaculares e impecáveis. Qual é o balanço que você faz da sua trajetória profissional?

EDSON CELULARI – Fazer um balanço de 43 anos de carreira, olha é porque eu sou muito feliz. Se eu sigo fazendo o meu ofício há tantos anos é porque isso me traz uma alegria, me alimenta, me leva adiante e produz em mim uma vontade imensa de me comunicar, de fazer, de colocar a minha opinião em tudo o que eu faço. Então, esse balanço do que eu já fiz são momentos que eu curti a cada minuto, a cada trabalho, a cada personagem, a cada relação com o público, seja no cinema, no teatro ou na televisão. E eu quero aumentar essa minha história, eu quero poder trabalhar muito mais ainda, eu me sinto extremamente produtivo, cheio de vontades e sonhos e, como aquilo que eu faço é um trabalho coletivo, eu quero encontrar pessoas para realizar novos trabalhos.

LINHA ABERTA – Como você vê a teledramaturgia atualmente?

EDSON CELULARI – Olha, a dramaturgia acompanha o seu tempo e é assim que funciona na história do audio-visual mundial. E nós vivemos uma pandemia, que fez parar a produção de conteúdo para esses espaços. Então, a gente tem que retirar esse período, obviamente! Mas, é claro que evolui e que muda, mas eu acho que esse processo é natural e acredito que o nosso tempo de hoje, o contemporâneo, está em boas mãos. Eu acho que é natural a troca de estilos e de linguagens. Eu acho que o streaming chegou usando a linguagem de cinema e televisão. A televisão usa agora muito mais a linguagem também do próprio cinema do que antigamente. Então, eu acho que essas trocas todas que acontecem são muito positivas e bem-vindas. A dramaturgia mundial vem evoluindo, é claro que alguns centros mais do que outros, pelo nível de produção, de quantidade, ou seja, quanto mais se faz, mais se aprende e mais know-how se ganha. Mas, eu acho que está adequada aos nossos tempos.

EDSON CELULARI E GIULIA GAM NA NOVELA FERA FERIDA, DE AGUINALDO SILVA (1993) FOTO: DIVULGAÇÃO

LINHA ABERTA – Com o advento das mídias sociais e do streaming, durante os últimos anos, a TV aberta sofreu algumas mudanças. Você considera que elas foram positivas ou negativas aos grandes atores como você?

EDSON CELULARI – Eu acho que com a chegada do streaming se criou, obviamente, uma mudança de hábito. A TV aberta, durante muitos anos, se manteve em primeiro lugar como um conteúdo de interesse familiar nos lares de tantas pessoas pelo mundo, onde a telenovela tinha um horário fixo e fazia a agenda das pessoas, que marcavam encontro depois do folhetim – isso no Brasil, claro! Mas, eu acho que pelo mundo era assim, “depois da novela tal”. Isso quando não se tinha uma possibilidade para gravá-las. Depois chegou o VHS, com as fitas que você poderia gravar para ver mais tarde. E isso até se comercializava de uma forma pirata pelo mundo. E aí veio a possibilidade do streaming, onde você muda o relógio da sociedade, onde a pessoa não tem que chegar em casa naquele horário para ver o capítulo daquele dia, pois todos eles, até o final da história, já estarão disponíveis para você assistir na hora que preferir. Então, eu acho que esse foi o maior fator de mudança e é claro que influenciou. Mas, isso não atinge a mão de obra especializada, ou seja, os atores, os diretores ou criadores artísticos, isso não muda. O produto tem que continuar a ser feito e o conteúdo produzido. Agora, porém, existe uma necessidade muito maior desse conteúdo. Eu vejo isso de uma forma positiva e acho que vai ter muito mais trabalho para mais pessoas, e a tendência é que isso se torne um espaço muito mais criativo.

LINHA ABERTA – Você fez trabalhos inesquecíveis tanto no teatro quanto na TV. Qual foi o papel mais importante da sua carreira e que foi um “divisor de águas” para você?

EDSON CELULARI – É difícil escolher um trabalho mais importante numa carreira de tantos anos, mas eu posso citar alguns. Eu fiz alguns trabalhos que foram de muito sucesso, como: “Que Rei Sou Eu”, além de “Fera Ferida”, “Torre de Babel” e “Sassaricando”. Todos eles foram consistentes e muito importantes em telenovela. Eu fiz ainda “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, que obteve bastante sucesso também fora do Brasil e no qual eu interpretava o Vadinho, na obra de Jorge Amado. Fiz “Decadência”, em série também. No teatro eu fiz “Calígula”, “Dom Albert Camus”, “Don Juan” (do Molièr), eu fiz “Fim do Jogo (do Beckett) e “Hamlet”. E no cinema eu fiz “Asa Branca – Um Sonho Brasileiro”, dirigido por Djalma Limongi Batista, que era a história de um jogador de futebol. Outro filme foi “Inocência” (do Walter Lima Junior) e “Ópera do Malando” (do Rui Guerra).

LINHA ABERTA – Quais são os seus ídolos da teledramaturgia, do teatro e cinema? Com qual deles você contracenou?

EDSON CELULARI – Eu sou do interior de São Paulo, de uma cidade chamada Bauru, e fui ver o meu primeiro espetáculo, no início da minha adolescência, com Paulo Autran e outro com Walmor Chagas. Foi ali que eu decidi seguir com o meu ofício de ator e comecei a fazer teatro amador por lá. Depois, eu fui para a capital, São Paulo, fazer o curso de teatro na Universidade São Paulo. Eu poderia incluir também Grande Otelo, Paulo José, Tarcísio Meira e Francisco Cuoco. Todos esses que eu falei foram os meus ídolos e são até hoje. Eu tive o prazer de trabalhar com todos eles. E, sobre as atrizes, eu posso dizer a Fernanda Montenegro, a Tônia Carreiro e a Glória Menezes. Eu tive o prazer de trabalhar com elas em televisão e com a Dona Fernanda em teatro também.

EDSON CELULARI NA NOVELA QUE REI SOU EU, DE CASSIANO GABUS MENDES (1989). FOTO: DIVULGAÇÃO

Uma coisa muito boa desse nosso ofício é que a gente acumula conhecimento, e tudo isso que aprendemos e vivemos nós utilizamos nele. Então, eu só tenho a agradecer a todos esses que eu mencionei e também aos não foram citados, com os quais eu tive o privilégio de trabalhar, por tudo o que eu aprendi com eles.

LINHA ABERTA – Você é pai do Enzo, de 24 anos, e da Sophia, 18, e agora a sua atual esposa, Karin Roepke, espera a primeira filha do casal. Como está sendo para você ser pai novamente?

EDSON CELULARI – Eu e a Karin estamos muito felizes, curtindo essa gravidez. É claro que é um outro momento, o tempo é outro, o pai é outro, eu sou um outro Edson. E o que fica disso tudo é que eu gosto muito do papel de pai, de ser, de cuidar, de acompanhar, aliás eu sempre fiz isso com o Enzo e com a Sophia. E, com certeza, eu vou curtir muito a chegada da nossa pequenininha. Eu e a Karin estamos muito felizes esperando-a, pois criança é alegria. Nós vamos recebê-la de braços abertos, afinal ela trará esperança a esse novo mundo.

LINHA ABERTA – Você acha que é mais fácil criar um filho nos dias atuais ou quando teve os seus dois primeiros? O que mudou de lá pra cá?

EDSON CELULARI – Eu acho que nunca será fácil criar um filho. Eu tenho essa experiência com dois, só que eles têm seis anos de diferença um do outro. Eu penso que criei os dois da mesma forma, apesar dessa diferença de tempo, o momento era outro. Eles são diferentes. Mas, aí você diz: “Claro, são seis anos!”. E daí você vê os pais de gêmeos, por exemplo, que criam ao mesmo tempo duas criaturas da mesma forma, com a mesma temperatura, ou seja, com uma criação igual para os dois e com certeza eles serão diferentes. Então, eu acho que a realidade do que se vive hoje é diferente de alguns anos atrás. Porém, eu também estou diferente, ou seja, mais velho, maduro, experiente e, ao mesmo tempo, não mais cansado, mas com a idade que eu estou. Obviamente que eu não tenho a mesma idade de 24 anos atrás, mas eu estou muito disponível fisicamente para atender todos os cavalinhos pedidos pela pequenininha. E vamos correr no gramado (risos), vamos cantar pra ela… Tudo isso é como a vida, a gente tem que se adaptar a tudo, às necessidades do que enfrentamos e, ao mesmo tempo, sabendo usar aquilo que a gente tem e é, mas de forma inteligente.

LINHA ABERTA – Você está casado com a atriz Karin Roepke desde 2017 e a união parece ser harmoniosa e com entrosamento. Fale um pouco sobre o relacionamento de vocês.

EDSON CELULARI – A Karin é uma companheira incrível, uma mulher do seu tempo, extremamente generosa, disponível, criativa, com uma capacidade de se renovar, de mudar, de acompanhar aquilo que a vida exige. Ela é uma parceira, uma mulher cheia de vida e de ideias. Então, nós temos muitas afinidades. A Karin é atriz, então a gente foi criando muitos projetos e realizando alguns, principalmente durante a pandemia. Eu acho que isso também faz uma diferença na nossa relação. A gente tem objetivos comuns e admiração um pelo outro. Eu admiro muito a Karin, as suas qualidades. E não existe uma fórmula, mas tem que haver uma disponibilidade para o outro não só na relação, mas em tudo, no seu trabalho, na sua vida, com o seu vizinho (risos), no trânsito. Deve haver tolerância e disponibilidade mesmo.

LINHA ABERTA – Você é considerado um dos homens mais bonitos do Brasil e parece manter a sua aparência em dia e também a sua jovialidade. Quais são os cuidados que você tem para manter esse título? Você se considera vaidoso?

EDSON CELULARI COM A ESPOSA KARIN ROEPKE E OS FILHOS ENZO E SOPHIA. FOTOS: @FERNANDOPICCOLI

EDSON CELULARI – Eu acho que essa coisa de você se cuidar é algo natural e que, portanto, todos nós temos que fazer. Obviamente que existe a vaidade feminina, os códigos femininos sociais e de beleza que, inclusive, às vezes até escravizam e prejudicam muitas mulheres. O homem é um pouco mais livre para isso. É claro que eu me cuido, atividade física não é novidade e todos nós teremos que fazer sempre. Os ossos só se manterão em pé se a musculatura os estiver segurando, isso é uma coisa básica. Eu acho ótimo você recorrer a profissionais e ir até um médico para cuidar da sua pele, passar um creme. Eu confesso que sou meio indisciplinado nisso. Eu vou à dermatologista, ela me receita, eu compro, começo a passar e esqueço depois de um tempo. Daí, até eu voltar novamente, ela puxa a minha orelha e diz que preciso continuar usando o tal de creme. Agora, o protetor solar é algo que eu uso. Mas, eu acho que tem muitos outros fatores que te levam a dizer: “Olha que pessoa interessante, bonita, iluminada!”, que é a sua outra parte, como ter bom humor, por exemplo, a maneira como você vê as coisas; como distorce aquilo que é ruim, transforma numa coisa divertida e todos que estão ao seu redor riem, , ou seja, faz aquilo ser algo mais leve. Eu acho que diz respeito à sua relação com você mesmo, a capacidade que você tem de focar e se concentrar em você. A meditação é algo muito importante, a sua parte religiosa e espiritual também, tudo isso faz parte. Eu acho que você tem que cuidar não apenas da sua pele, mas de todos esses itens.

LINHA ABERTA – Após você ter se curado de câncer, em 2017, o que hoje em dia é primordial na sua vida? Como foi essa experiência de superação?

EDSON CELULARI – Esse câncer que eu tive foi um susto. Você fica se perguntando: “Será que chegou a minha hora? Será que não dá para esperar só mais um pouquinho, para eu arrumar as coisas aqui? Depois eu posso ir!”. Eu fiquei realmente assustado. É claro que eu tenho o privilégio de viver um tempo, não só eu como os meus contemporâneos, no qual a medicina que tem muitos recursos. Dizem que os homens de 60 hoje são os de 40 de antigamente, porque a medicina está prolongando a vida de todos nós. Eu tive acesso a uma ótima medicina na cidade de São Paulo e me curei. Obviamente que foi um câncer logo identificado, então já existia um protocolo. Após esse susto, claro que você valoriza o seu tempo. Você imagina um carro, por exemplo, que é uma coisa tão precisa, feita de aço, e que requer um reajuste nos seus parafusos de tempo em tempo. Imagina a gente que é feito de outro material? Então, você fica mais atento depois de um susto desse que eu tive e quer viver cada momento, obviamente, não como se fosse o último, mas como se fosse único. É você olhar o outro que está ao seu redor, porque também faz parte de você viver o seu trabalho com intensidade, foco e ser feliz, aproveitar o que você tem. A finitude existe, ninguém quer pensar nisso, mas depois desse susto você entende e encara melhor tanto a vida quanto a morte. Eu acho que isso seria bom que todos nós vivêssemos, mesmo sem ter levado um susto como eu levei.

LINHA ABERTA – Você gosta dos Estados Uni – dos? Já morou ou pensou em morar no país ou recebeu algum convite de trabalho?

EDSON CELULARI – Claro que eu gosto dos Estados Unidos, gosto muito! Eu já tive um endereço no país e, quando as crianças eram menores, a gente usou muito. Agora eu não tenho mais. Hoje a minha filha Sophia estuda na NYU, em Nova Iorque e, não sei se é o caso de ter ou não um apartamento na cidade, não sei. Mas, dá vontade! Eu frequentei muito a Flórida, Orlando, Miami e Nova Iorque, sempre. Los Angeles menos, mas eu gosto muito de Chicago também, Boston. Eu acho que é um país organizado. Claro que tem as suas questões! Mas, trabalhar nos Estados Unidos aí já é outro negócio. Eu tenho tanta coisa para fazer onde já estou (risos). Claro que, se vier um convite interessante… Eu tenho vontade de fazer teatro nos Estados Unidos. Eu tenho alguns amigos que fizeram um tour de teatro com espetáculos brasileiros para brasileiros no país e gostaram bastante. Quem sabe algum dia eu faça.

Share

Related posts