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Imigrantes: O estado de vulnerabilidade psicológica e as motivações vividas por imigrantes brasileiros que buscam novas oportunidades no exterior

Texto de DRA ANDRÉA LADISLAU
@dra.andrealadislau

Muito triste quando nos deparamos como notícias sobre mortes em relação à tentativas de entrar irregularmente em países estrangeiros. Mortes pela ilegalidade nas tentativas de se conquistar espaço em outro país, acreditando na busca por encontrar melhores oportunidades na vida, com a bagagem carregada de sonhos e desejos. Mas o que leva essas pessoas a se arriscarem em uma aventura tão perigosa, sem garantias, colocando em risco a própria vida? Como fica o estado psicológico de quem não obtém êxito? Quais os desafios culturais e emocionais de quem consegue vencer os obstáculos da ilegalidade para se instalar em outro país? Quais são os principais desafios emocionais envolvi­dos nesta batalha?

Em geral as imigrações costumam acontecer quando há algum tipo de insatisfação desen­cadeada na região de origem, seja ela pessoal, como o desejo de contato com uma nova cul­tura ou ânsia por liberdade e melhores opor­tunidades no exterior. Mas estudos mostram que implícito nesta busca está o sofrimento psicológico. Esse indivíduo, normalmente, se lança no desconhecido deixando sua pátria, no desejo de concretizar um projeto de vida.

Existe uma necessidade real de deslocamento em busca de um local seguro para se viver. Porém, sentimentos de angústia, desampa­ro, insegurança, picos de tensão, ansiedade, depressão, desejo de pertencer, mal-estar pela ruptura vividas, com: família, amigos, cultura de origem e valores primários, começam a fazer parte e acompanhar esse sujeito de forma psíquica.

Não podemos deixar de citar a fragilidade do estado de saúde mental desses imigrantes ilegais, em todos os momentos da tentativa de estabelecimento em um outro país. Muitos relatam grande dificuldade de se proteger e projetar-se em uma comunidade estrangeira, barreiras de linguagem e comunicação, falta de tempo para elaborar e passar pelo processo de luto (separação da família, por exemplo), além da insegurança em serem descobertos pelas autoridades, levando-os a serem presos ou deportados para o país de origem.

Diante de todo esse cenário, destacam-se como principais sintomas vividos em torno dessa experiência: a tristeza, a solidão e a angústia; variáveis sociais relacionadas ao sofrimento, como a discriminação racial e a pouca possibi­lidade de retorno ao país de origem e ainda, as estratégias protetivas disponíveis no psiquis­mo para enfrentar a dor.

Transtornos pós-traumáticos também podem surgir quando a pessoa consegue entrar no país de destino, permanecendo ilegal por muito tempo. A insegurança em ser descober­to, os momentos de horror vividos no período da travessia pelo deserto, somam e geram um abalo psicológico significativo, levando à depressão e até ao pânico.

A tristeza, a angústia, a preocupação excessiva, as lembranças, as ideias de morte, a insônia e a solidão juntam-se a queixas psicossomáticas, como: dores de cabeça constantes, reações intestinais, dores musculares intensas e per­manentes, distúrbios alimentares, rigidez de humor, complexos de inferioridade, baixa auto­estima, ansiedade e descontrole emocional.

Em resumo: sintomas característicos que sur­gem como resposta à falta de esperança com o futuro, tendo em vista os duros desafios ao longo do processo de integração a uma nova cultura. Além disso, os sonhos de conquistar o mundo e se estabelecer com sucesso, colo­cando em prática seu projeto de vida, entram em conflito psíquico com os gatilhos acionados pelos momentos difíceis e sofridos, deman­dando, quase que de forma instintiva, uma necessidade absurda de acolhimento na busca por confiança e segurança.

Ou seja, um verdadeiro estado de vulnerabili­dade emocional se estabelece desenvolvendo quadros de traumas e sofrimento, abalando a coerência e a identidade fragilizada do indi­víduo, que entra em conflito consigo mesmo pela continuidade de seu projeto de vida. Até porque, não se deve esquecer que antes de se tornar um imigrante ilegal, essa pessoa possuía uma profissão, pertencia a um núcleo familiar, desempenhava algum tipo de papel social no ambiente originário, com reconhecimento de seus direitos como cidadão. No entanto, ao optar por viver irregularmente em outra nação, vai experimentar a invisibilidade social, reforçando o isolamento através de sensações de impotência e fragilidade.

Fatos que revelam uma realidade clássica: O sofrimento psíquico, quando impossibilitado de ser expresso pela palavra, faz com que o corpo sofra como forma de exteriorização de um processo interno; uma forma de expressar o conflito psíquico diante da ausência das fer­ramentas simbólicas para encontrar soluções para seus medos inconscientes. Uma vez que, a instabilidade é um dos fatores que impossibili­ta o sujeito de se projetar no futuro e pensar a própria continuidade de sua existência.

É importante que esse indivíduo possa encontrar acolhimento com possibilidade de uma escuta qualificada, objetivando sanar o sofrimento, promovendo o entendimento correto dos diversos fatores envolvidos no processo de saúde e adoecimento mental provocados por essa grande aventura, já que ele esperava encontrar facilidades na concreti­zação de seus sonhos e projetos idealizados. É preciso fortalecer a resiliência, a esperança, a autoestima, o desejo de viver e a construção do ânimo para continuar lutando pela realização de seus propósitos.

Enfim, somos movidos por nossas escolhas, nossas vontades e aspirações de vida. Como explicitado por Sigmund Freud, o pai da psicanálise, somos seres desejantes e estamos sempre em busca de algo novo que fomente nossa pulsão de vida.

Escolhas arriscadas como essa de adentrar irregularmente em outro país, através de tra­vessias perigosas que colocam em risco a vida do indivíduo, devem ser muito bem avaliadas e ponderadas. Levando em consideração a individualidade e colocando na balança tudo o que já se conquistou ao longo da trajetória de vida, todas as perdas que podem surgir a partir desta escolha.

Afinal, adentrar em um outro sistema cultural, ilegalmente, não é correto, muito menos é uma tarefa fácil. Deve-se provocar a reflexão para trazer à tona o autoconhecimento que permita avaliar suas conquistas reais, onde se quer chegar, quem se é e o que é mais precioso em sua rotina de vida, buscando cautela para não estabelecer uma ruptura expressiva de seus quadros de referência, de sentido ou de pertencimento. Pois, as rupturas envolvidas na imigração são inúmeras (família, trabalho, ami­zades, língua, regimes sociais, memória afetiva e social) e podem trazer reflexos positivos ou negativos, tanto físicos quanto emocionais.

Desafios imensos que estimulam e geram dú­vidas crescentes, como: vale a pena passar por tudo isso e se arriscar, podendo perder a pró­pria vida? Apesar de todos termos o direito de ir e vir, a qualidade de vida, o bem-estar físico e emocional devem estar sempre em primeiro lugar, no momento de fazer escolhas.

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