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O sucesso de Kaysar Dadour

Texto de ALETHÉA MANTOVANI
@aletheamantovani

O ATOR SÍRIO FALA SOBRE A SUPERAÇÃO DAS DIFICULDADES COMO REFUGIADO, A GUINADA QUE DEU NA CARREIRA APÓS PARTICIPAR DO BBB E SOBRE O GOSTO PELA MÚSICA

A história de vida do ator sírio Kaysar Dadour, 32 anos, daria um bom livro com drama e aventura. Isso porque ele enfrentou muitas dificuldades até chegar ao Brasil, mas su­perou tudo com muita coragem, garra, perseverança e uma fé inabalável que o manteve firme em diversas situações.

Em 2011, Kaysar fugiu da guerra civil que enfrentava em sua cidade natal Alepo, na Síria, e foi como estudante para a Ucrânia. No país, o ator sofreu com a intolerância religiosa por ser cristão. Em certa ocasião, ele foi perseguido por extremistas islâmicos e espancado duramente por estar com um crucifixo pendurado no pescoço. Conclusão: ele teve uma das pernas e um dos braços quebrados.

KAYSAR DADOUR COM A MÃE DIANE, O PAI GEORGE, A IRMÃ CELINE E O MASCOTE DA FAMÍLIA, O PEQUENO SIMBA FOTO: ARQUIVO PESSOAL

E um fato curioso aconteceu enquanto ele estava internado devido às agressões sofridas. Ele teve um insight, ou seja, uma voz o dizia para procurar um primo da sua mãe que vivia no Brasil. E Kaysar seguiu essa intuição e procurou o familiar Abdo Abage, que era cônsul honorário da Síria no país. Foi ele quem o ajudou nessa tramitação. Além disso, um outro parente, Nassib Abage, também o auxiliou a se estabelecer em terras brasileiras, mais especificamente na cidade de Curitiba, local onde o ator vive até hoje.

No Brasil, Kaysar começou a trabalhar como garçom e animador de festas. Porém, ele ficou conhecendo o “Big Brother Brasil” pela TV e disse na mesma hora: “Eu vou entrar e ganhar!” – conta animado. E isso se concretizou, pois ele participou da edição número 18 e ficou em segundo lugar.

Porém, o melhor de tudo é que o sírio ficou conhecido tant ono

Brasil como fora do país e passou a ser querido pelo público devido ao seu jeito carismático e espontâneo de ser. E, com isso, muitas oportuni­dades surgiram para ele.

Ao término do reality, Kaysar foi convidado para fazer parte do elenco da novela “Órfãos da Terra”, da TV Globo, cuja trama contava uma história parecida com a sua, ou seja, sobre uma família de refugiados sírios que escolheu o Brasil para viver.

KAYSAR DADOUR NIX FOTOGRAFIA – @NIX_PH

Além de ser um ótimo ator, o ex-BBB mostrou também que é um excelente bailarino, tanto que ganhou o quadro “Dança dos Famosos”, do programa “Domingão do Faustão”, da TV Globo, em 2019. Em fevereiro deste ano, ele se lançou também como cantor e compositor e, recente­mente, fez uma linda música em homenagem à sua mãe Diane.

Aliás, quando o assunto é a família, Kaysar mostra ter uma ligação muito especial com os pais, George e Diane, e com a irmã Celine. E isso ficou evidente na ocasião do BBB 18, pois um dos objetivos do ator era trazer a família da Síria ao Brasil. E isso finalmente se concretizou em 2019.

Confira a entrevista exclusiva para a Linha Aberta.

KAYSAR DADOUR NIX FOTOGRAFIA – @NIX_PH

LINHA ABERTA – Quando, como e em quais circunstâncias você chegou ao Brasil? Quem te ajudou nesse processo de ida ao país?

KAYSAR – Eu cheguei ao Brasil em 2014 como refugiado. Antes, eu tinha ido da Síria para Ucrânia em 2011. Um dia, eu lembrei de um parente distante da família da minha mãe que morava no Brasil e arrisquei vir ao país. No aeroporto de Curitiba, ele me esperava com uma placa com o meu nome em árabe e assim nos con­hecemos. Só tínhamos nos visto uma vez na Síria, quando eu era criança e ele já adulto. E foi esse primo quem me ajudou a aprender o português e também a conseguir trabalho.

LINHA ABERTA – Como foi a sua adaptação no Brasil? Quais foram as questões mais diferentes que você encontrou em relação à Síria?

KAYSAR – Não foi tão fácil com o idioma. No início foi complicado, mas depois deu certo. A cultura do Brasil é muito diferente da cultura da Síria, mas é maravilhosa! Então, eu me adaptei facilmente. Eu gosto muito do Brasil, o povo é muito feliz, animado e do bem.

LINHA ABERTA – Como surgiu a oportunidade de participar do Big Brother Brasil?

KAYSAR – Uma vez eu estava sentado com uma galera no sofá e apareceu o BBB na televisão. Eu nunca tinha as­sistido ao BBB e eles me explicaram que era um programa em que as pes­soas ficavam três meses para ganhar 1 milhão e meio de reais. Eu falei na hora “eu vou entrar e ganhar”. Graças a Deus, eu me inscrevi e fui chamado de primeira. Eu participei, foi mara­vilhoso e eu fiquei em segundo lugar.

LINHA ABERTA – Essa visibilidade que o programa lhe deu foi um diferencial para a sua vida, princi­palmente sob o aspecto profission­al? O que mudou de lá pra cá?

KAYSAR – O BBB mudou a minha vida. Graças ao programa, eu tive muitas oportunidades de trabalho e consegui realizar diversos sonhos. O principal deles foi reunir a minha família no Brasil após alguns anos. Eu pude estudar para atuar em novela, série e filme. Também pude partici­par e ganhar a “Dança dos Famosos”, além de vários outros projetos. Agora, eu estou também gravando músicas de funk, que são a minha paixão e o meu sonho atualmente.

LINHA ABERTA -Você sentiu algum tipo de discriminação de outros atores e atrizes por ser um ex- BBB? Quais foram as pessoas que te acolheram e incentivaram?

KAYSAR – Sim, eu senti. Aconteceram algumas coisas. Mas, eu acho que quem tem preconceito, tem que primeiro resolver consigo mesmo o seu problema. Antes de apontar para alguém por ser um ex-BBB ou estrangeiro, temos que pensar que somos todos seres da mesma terra. E, se eu fui escolhido para atuar pelos diretores e autores, se eles me aprovaram, foi porque eu fiz a minha parte em estudar. Então, o problema não está comigo. Não é preciso ter competição, pois há espaço para to­dos. Cada um que faça o seu caminho.

KAYSAR DADOUR NIX FOTOGRAFIA – @NIX_PH

LINHA ABERTA – A sua carreira de ator está se consolidando cada vez mais e você vem recebendo vários elogios da crítica. Você está satisfeito com tudo o que vem conquistando? O que mais você pretende realizar?

KAYSAR – Eu agradeço todo o apoio e conquistas, mas também gosto de receber críticas, pois elas me for­talecem. Quando a gente recebe só elogio, não sabemos onde melhorar. Eu sempre me critico, me analiso, até exagero comigo mesmo. Mas, eu faço isso para buscar o melhor, sempre correr atrás e não ficar parado. Agora eu estou sentindo muita vontade de correr atrás do caminho da música. Eu estou estudando, aprendendo e me dedicando muito à música. Eu quero continuar como ator, mas espero poder dar muito certo com a música.

LINHA ABERTA – Os relaciona­mentos que começam nos reality shows podem continuar na vida real? Qual a sua opinião sobre eles? Alguém que participou com você de algum destes games já mexeu com o seu coração?

KAYSAR – Sim, os relacionamentos podem continuar na vida real. A gente fez amizades e elas podem con­tinuar, não importa o lugar, pois todo lugar é vida. Lá convivemos juntos e há pessoas que mexeram, outras não, há pessoas com quem concordamos ou não. É uma parte da nossa vida e que envolveu vários sentimentos.

LINHA ABERTA – Com qual dos reality shows, “Big Brother Brasil” ou “No Limite”, você se identificou mais? E, qual foi o mais difícil?

KAYSAR – O “Big Brother Brasil” é muito legal e mais tranquilo que o “No Limite”. No BBB, eu aproveitei, dancei e fiz as provas com garra. Mas, falar sobre qual deles eu me identi­fiquei mais é difícil, pois eu também gosto da sobrevivência e da luta do programa “No Limite”, dos desafios de dormir na areia, com comida e água limitadas, além de aprender a conviver com menos coisas. Não dá para escolher, pois são duas ex­periências maravilhosas e diferentes.

LINHA ABERTA – Qual foi o trabal­ho mais desafiador para você aqui no Brasil? E qual lhe deu maior destaque?

KAYSAR – Todo trabalho eu encaro como desafiador. Eu tento dar o meu máximo em tudo o que faço. Mas, é claro que eu sei que, sem o BBB, eu não teria conseguido tudo o que veio depois.

LINHA ABERTA – Além de ótimo ator, você mostrou que é um excelente, dançarino e faturou o “Dança dos Famosos 2019”. Recentemente, você soltou a sua voz e gravou um funk inspirado no BBB. De onde surgiram estes talentos para a dança e a música?

KAYSAR – Eu adoro dançar, rebo­lar e descer até o chão. Eu sempre adorei, desde sempre. Já a música… Ah, eu amo o funk, a cultura do funk brasileiro! Desde que eu cheguei ao Brasil e ouvi, eu me apaixonei. Eu me considero funkeiro por paixão. É algo que eu quero fazer cada dia mais: música! Eu estou agora nessa onda, estou estudando, aprendendo, cor­rendo atrás porque eu amo demais. Mas, eu sei que preciso me soltar e aprender muito ainda.

LINHA ABERTA – Durante o BBB18 você sempre dizia um dilema que tinha, trazer o quanto antes a sua família da Síria para o Brasil. E isso você conseguiu. Como foi a adaptação deles aqui no país? Eles gostam de morar em Curitiba?

KAYSAR – Eu entrei no BBB com esse objetivo: trazer a minha família. Eu fui o segundo lugar no programa, mas consegui. Esse era o maior sonho da minha vida e eu consegui realizá-lo, graças a Deus! Agora eu tenho vários outros sonhos que estou tentando realizar. Todo dia eu crio um sonho novo, eu não posso parar! Quanto à minha família, eles estão morando em Curitiba, estão felizes e se adaptando bem. Meu pai não fala muito o português, nem a minha mãe. A minha irmã estudou e já fala o idioma. Eu, fico entre Rio, São Paulo e Curitiba, entre o trabalho e a família.

LINHA ABERTA – Quais são os seus próximos projetos e qual um sonho que você pretende realizar?

KAYSAR – Eu agora quero dar certo na música, eu quero fazer mais música. Também quero continuar a ser ator e trabalhar mais na televisão. Mas, o mais importante de tudo, eu quero continuar a me descobrir de verdade, quero ver quem é o Kaysar de verdade. Eu fiz uma música para homenagear a minha mãe, para dar de presente à ela no meu aniversário, para agradecer a vida à ela. A nossa mãe sempre fala a verdade e a gente não presta atenção. A gente acha que sabe tudo na vida e não a escuta. As mães sempre falam a verdade, sempre tem outro olhar, um olhar de amor. Elas são únicas, portanto, temos que admirá-las e cuidá-las. Eu queria passar essa mensagem de que temos que ouvir mais a nossa mãe e o nosso pai. Eu ainda vou fazer mais músicas para os dois.

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