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Desejo cego – Como entender e controlar este sentimento louco

Texto de ARMANDO CORREA DE SIQUEIRA NETO

O desejo é, com frequência, um poço de superfície conhecida mas de fundo ignorado. É justo afirmar que para certos desejos temos a clareza acerca do que nos move, ou seja, as razões enraizadas que levam ao seu florescimento. Para muitíssimos outros, contudo… Não é de hoje que se tem conhecimento sobre desejos inconscientes a nos mover, causando o assombro típico de quem desconhece a autoria da música que toca e embala muitos dos próprios comportamentos. É possível nomear com a expressão ‘desejo cego’ tais manifestações que nascem sem o sabermos devidamente, sem termos refletido o suficiente a respeito das profundezas mentais que abrigam a imensa fábrica de desejos ocultos, em um velho e obscuro sistema que opera obstinadamente em turnos na calada da noite psíquica. Em suma, conhecemo-nos ao palco pessoal, ignorando consideravelmente os bastidores. ‘Sei que nada sei desejar’: quase um provérbio socrático!

O ESCRITOR FRANCÊS HONORÉ DE BALZAC FALOU SOBRE O SUBTERRÂNEO D A PSICOLOGIA HUMANA NO LIVRO “A PELE DE ONAGRO”

Quantos desejos tivemos e posteriormente nos arrependemos, tendo-os concretizado ou não? E, neste último caso, foi a sorte, cer­tas vezes, pois as consequências poderiam ser as mais dramáticas e caras. Ah! foi num momento de raiva, alega-se, impensado! Cla­ro que sim, mas tanto pior, pois as emoções impõem-se superiores à razão para além da despercebida total falta de controle sobre os plantios destemperados que antecedem inconsequentes, inevitáveis e pesarosas colheitas… (Via de regra não reconhecemos o fruto amargo da árvore que plantamos, negamo-lo com veemência sob a frondosa sombra do autoengano.) Então, pergunta­-se, é de nossa responsabilidade repensar e tentar compreender melhor o que se passa dentro das nossas cabeças, ao invés de acre­ditar fantasiosamente que já possuímos um bom nível de controle?

Podemos nos remeter às questões essenciais como: eu sei querer com clareza? Com ade­quada dose de consciência? Meus desejos podem se perder num enorme campo se eu não cuidar deles, não for persistente, abandonando-os à sorte? Eles são exata­mente o que quero ver frutificar amanhã ou desejarei (de novo) tê-los diferentes por perceber o equívoco no plantio de ontem?

Acaso eu sei o que não quero desejar para evitar arrependimentos demasiado árduos? Percebe a importância da questão? A nossa cautela, pois, deve alcançar as duas situações: (a) saber o que se quer desejar e (b) saber o que não se quer desejar. Para tanto, é fundamental pensar antes. Pensar é a chance de minimizar os erros que ocorrem por sua natureza intimamente ligada à aprendizagem, uma exigência do currículo evolutivo inscrito no DNA. Minimizar, o que é bem melhor para todo o projeto. Menos frustração e penalizações decorrentes, e mais estímulo coordenado à percepção do crescimento e do equilíbrio que alivia os altos e baixos naturais da existência.

Mais: será que os nossos desejos são mesmo nossos? Ou talvez desejemos o que vemos nos outros? Ilusão? Desejamos os sonhos das propagandas e das histórias que nos chegam ou temos bem definido o que que­remos? Aqui é preciso olhar com profundi­dade dentro de si, pois os desejos podem se confundir ilusoriamente com os conceitos de sucesso e felicidade, generalizando, infe­liz e erroneamente, aquilo que só pode ser particular, único.

Antigos pensadores e escritores já per­correram os degraus que dão acesso ao subterrâneo da psicologia humana, e de lá retornaram com pitorescas e valiosas interpretações, a exemplo do escritor fran­cês Honoré de Balzac (1799-1850), com a sua obra ‘A pele de onagro’, uma espécie de objeto mágico que permitiu ao jovem Rafael realizar os seus desejos ao exorbitante preço do encolhimento daquele couro e da sua vida também, sem perceber inicialmente que se iludiu no emaranhado dos sonhos de riqueza e triunfo com a exuberante, porém fria Fedora, passível de abreviação (caso enxergasse) à simplicidade do profundo amor com o qual convivia diariamente junto à delicada Pauline, uma descoberta dramati­camente tardia. Ou no bem humorado filme ‘Endiabrado’, cujo pacto diabólico permitiu a realização dos desejos mal elaborados (eis a graça e a reflexão do conteúdo), de Elliot Richards – interpretado por Brendan Fraser – levando-o a tropeçar na imprudente perna do desejo de glória e de atenção, cada uma delas seguida cegamente apenas pelas insi­nuações do seu objeto de amor, a charmosa Alison Gardner (Francis Ann O’Connor).

Cada um é responsável por encontrar os seus próprios desejos a fim de avançar à es­trada das realizações, sejam elas simples ou complexas. Sem perceber, tomamos caronas em direções que não nos dizem respeito e nos levam a pontos que frustram e desani­mam. Conciliar autenticidade e contenta­mento é difícil, mas vale o seu preço. Mesmo que desejemos coisas semelhantes a outras pessoas, se assim resultar das nossas refle­xões, temos como vantagem a ponderação e não o impulso cego, o olhar da vontade clara e não o desejo cego.

Ainda: será que as repetidas frustrações sucedidas aos plantios de desejo cego não nos levam à desesperança, impedindo-nos de prosseguir em condições mais adequa­das, mais justas e consequentemente mais recompensadoras? Deixamos de desejar o tanto a que temos pleno direito? Há limites para os desejos? O desejo é um extraordiná­rio poder pobremente empregado em boa parte do tempo, ainda envolto no misterioso véu do desconhecimento; é muito reduzido a pouco.

Ah! se soubéssemos com ideal propriedade: o verdadeiro desejo é a metade do caminho a ser percorrido!

Mas, e se o desejo melhor direcionado e bem cuidado nos oferecer um futuro mais interessante? E quando se diz futuro, é bom ter em conta que há colheitas de médio e longo prazos, mas também as surpresas de curto tempo… A natureza do desejo demonstra ser majestosamente digna em suas respostas, tanto que se desejamos (e cuidamos) ‘X’, normalmente o alcançamos, mas de nada adianta se queixar do ‘Y’ colhi­do, justificando-se pelo erro da desatenção ou do impulso despercebido na hora do plantio.

Afinal, você sabe desejar?

O FILME BEDAZZLELED (ENDIABRADO) PODE SER VISTO NA NETFLIX. O FILME CONTA A HISTÓRIA DE ELLIOT (BRENDAN FRASER) UM ENFADONHO PROGRAMADOR DE COMPUTADORES QUE ESTÁ PERDIDAMENTE APAIXONADO POR SUA COLEGA DE TRABALHO ALLISON (FRANCES O’CONNOR). O PROBLEMA QUE ELA NÃO LHE DÁ A MENOR ATENÇÃO. PARA RESOLVER ISTO, ELLIOT RESOLVE VENDER SUA ALMA AO DIABO (ELISABETH HURLEY), QUE LHE DÁ 7 DESEJOS PARA QUE POSSA ENFIM CONQUISTAR A GAROTA DOS SEUS SONHOS.

A PELE DE ONAGRO (THE SKIN OF SORROW) DE HONORÉ DE BALZAC TEM A VERSÃO EM LIVRO E FILME EM INGLÊS E PORTUGUÊS. O LIVRO TEM NA AMAZON E O FILME PODE SER VISTO NA NETFLIX. VEJA O RESUMO DA HISTÓRIA: O JOVEM ARISTOCRATA RAPHAËL DE VALENTIN ESTÁ DESESPERADO POR TER FRACASSADO NA VIDA E NO AMOR, E PLANEJA O SUICÍDIO. JUSTO NESSE MOMENTO, ELE ENCONTRA UM VELHO E ESTRANHO ANTIQUÁRIO QUE O PRESENTEIA COM UMA MILAGROSA PELE DE ONAGRO (ESPÉCIE DE JUMENTO ENCONTRADO NO ORIENTE), QUE CONFERE AO DONO PODERES ESPECIAIS, SATISFAZENDO TODOS OS SEUS DESEJOS. PORÉM, SOBRE O MALÉFICO TALISMÃ PAIRA UM MISTERIOSO FEITIÇO, E, A CADA DESEJO ATENDIDO, ELE ENCOLHE E ENCURTA A VIDA DO PROPRIETÁRIO. PUBLICADO EM 1831, “A PELE DE ONAGRO” É UM DOS MAIS ORIGINAIS ROMANCES DE BALZAC E ANTECIPA TANTO A LITERATURA FANTÁSTICA QUANTO O REALISMO MÁGICO DO SÉCULO XX.

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