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O sucesso dos super modelos surdos Arnaud Champvigy, Brenda Costa e Ariana Martins

ARNAUD CHAMPVIGY – FOTO: DIVULGAÇÃO

Texto de ALETHÉA MANTOVANI
@aletheamantovani

Eles superaram todas as expectativas e mostra­ram ao mundo que as pessoas com deficiência auditiva podem ser gran­des talentos e vencer como qualquer pessoa. E, no caso deles, isso aconteceu no mundo da moda. São eles: Arnaud Champvigy, Brenda Costa e Ariana Martins, ambos modelos surdos e que se destacaram significativamen­te no universo fashion, ou seja, nas capas de revistas pelo mundo, nos trabalhos publicitários e até mesmo numa função mais voltada à busca por novos modelos, como é o caso de Champvigy.

ARNAUD CHAMPVIGY E BRANDA COSTA – FOTO: ARQUIVO PESSOAL

ARNAUD CHAMPVIGY

Arnaud, 39 anos, é um renomado mo­delo internacional, natural de Macon, na França, que estreou em 1999 em uma das melhores agências de Paris, a Karin Models.

Daí em diante, ele apareceu em diversas revistas, como a renomada Harper’s Bazaar (China) e outras internacionais, além de comerciais de TV em todo o mundo.

Em 2008, o francês foi eleito para o Mister Suíça, assinou um contrato de publicidade e se tornou uma perso­nalidade reconhecida internacional­mente.

Além disso, Champvigy tornou-se, em 2009, o embaixador do Fashion Week China, ao lado do famoso estilista francês Christophe Guillarmé.

Em 2015, ele foi nomeado o primeiro vice-campeão do Grand Finalist Top Model em Londres e, desde então, tem assinado diversas campanhas e trabalhos ao redor do mundo.

Após tanta vivência no setor fashion, hoje o modelo vive na ponte aérea Brasil-Europa-Ásia como internatio­nal model scout para a agência. Bello Management.

BRENDA COSTA – FOTO: DALIANA MATTANA

BRENDA COSTA

A top model internacional Brenda Costa, 38 anos, é natural do Rio de Janeiro e nasceu surda.

Ela nunca estudou em escolas espe­ciais para surdos e isso contribuiu para que ela se integrasse na socieda­de com mais facilidade.

Com a ajuda de fonoaudiólogos, des­de pequena, Brenda foi estimulada a aprender a falar. Além disso, também estudou leitura labial, e isso a auxi­liou bastante neste processo.

Hoje, ela consegue se comunicar em português, francês e inglês e tem uma vida normal em Londres, onde vive com a família.

Em 2006. a modelo fez o implante coclear para melhorar ainda mais a sua escuta.

A carreira de modelo da carioca come­çou aos 16 anos, no Rio de Janeiro. Em 2000, ela se mudou para Nova Iorque, onde trabalhou em sua primeira campa­nha para Eva Herzigova. Depois, assinou campanhas para outras marcas como: Mac e Guess. Além disso, estampou capas de revistas como Allure, Cosmopo­litan USA, GQ e outras.

Em 2006 foi a Paris, onde ficou duran­te três anos e trabalhou para diversas campanhas das marcas: Guerlan, L’Oréal, Wolford, Valisere. Também desfilou na Paris Fashion Week para a marca Valen­tino e fez campanha para Sergio Rossi, Calzedonia, além de muitas outras.

Brenda lançou seu canal no Youtube “Belle du Silence”, onde divulga vídeos sobre o universo dos surdos, por meio de suas próprias experiências.

Além disso, ela escreveu o livro “Belle du Silence” e, atualmente, está trabalhando numa segunda obra.

Já na vida pessoal, Brenda é casada com o egípcio Karim Al-Fayed, que também possui deficiência auditiva, e com ele tem dois filhos: Antonia, 10 anos e Ga­briel, 3 anos.

ARIANA MARTINS – FOTO: MARCOS SCHAEFER.

ARIANA MARTINS

A modelo Ariana Martins, 36 anos, nasceu em Balneário Camboríú, Santa Catarina, e está fazendo história ao ser a primeira mulher surda a posar para a capa da revista Playboy.

Com seus 1,79 metros de altura, hoje ela é uma das modelos mais requisitadas não só no Brasil, mas em diversas partes do mundo.

Ariana conta que sempre quis ser mode­lo, mas a mãe tinha um pouco de receio, pois achava que a filha iria ser rejeitada pelo fato de ser surda.

Porém, graças ao incentivo do seu noivo, aos 20 anos, ela participou de um concurso para selecionar a mulher mais bonita da universidade e lá tinha muitos olheiros de agências. Ariana ficou em segundo lugar, mas um olheiro da agên­cia Ford Model Santa Catarina a chamou para um teste, no qual ela foi aprovada.

Daí em diante, ela começou a trabalhar como modelo profissional e foi a pri­meira modelo surda do seu estado. Isso, porém, chamou a atenção da mídia e trouxe várias campanhas e desfiles para ela, inclusive internacionais, em Miami, New York e Paris.

Acompanhe a entrevista que os modelos concederam à Linha Aberta Magazine.

LINHA ABERTA – Você encontrou dificuldades ou sofreu preconceito na profissão por ter deficiência auditiva?

ARNAUD – Não sofri. Quando eu co­mecei a ser modelo profissional todos pensavam que eu não falava bem o inglês e, portanto, nem desconfiavam da minha deficiência. Às vezes, até eu mesmo a escondia e, por isso, não sofri muito preconceito.

LINHA ABERTA – Qual a análise que você faz da sua trajetória como mo­delo e hoje como head scout?

ARNAUD – Eu tive muito sucesso na minha carreira de modelo, adquiri muita experiência e vejam que eu sou homem, o que é mais difícil. Em primeiro lugar, nós ganhamos menos do que as mulheres e temos menos oportunidades. Hoje eu estou numa função diferente, atuo como head scouter, que é um olheiro internacio­nal. Eu sou muito grato à Alessandra Bello, confiou em mim e me deu a oportunidade de gerenciar os nossos modelos. Essa função faz com que eu entenda um pouco mais os modelos, saiba partilhar os sentimentos deles e até cuidá-los. Afinal de contas, eu também já fui um deles.

LINHA ABERTA – Você se considera um vencedor?

ARNAUD – Não, na vida eu sempre precisei lutar e mostrar o meu melhor. Nós aprendemos todos os dias com os erros, com o fracasso, com o momento ruim, etc. A vida tem muitas surpresas e muitos obstáculos que nos desafiam. Então, eu mantenho a minha cabeça erguida e permaneço humilde para vivenciar todos os tipos de situações.

LINHA ABERTA – Como foi a sua infância e adolescência? Você en­frentou algum tipo de preconceito?

BRENDA – Sim, na escola pública eu sofri muito preconceito. Hoje estamos lutando para isso não acontecer mais. O Brasil tem uma cultura diferente em relação à Europa, onde eu vivo atual­mente. Na Europa, nós surdos somos muito respeitados e incentivados.

O fato de, mesmo tendo surdez, eu ter alcançado uma carreira internacional é um exemplo para mostrar às pesso­as que possuem qualquer dificuldade física ou até mental, ou seja, que elas podem obter conquistas como qualquer pessoa. Apenas o esforço e o caminho são diferentes, mas a possi­bilidade é a mesma.

LINHA ABERTA – Como você co­nheceu o seu marido, que também tem deficiência auditiva? Como é a comunicação entre vocês?

BRENDA – Eu e o meu marido nos conhecemos em Paris e foi o destino que nos uniu. Nós temos um relacio­namento ótimo e a comunicação entre nós é muito tranquila. O Karim per­deu a audição ainda criança, então a dicção dele é melhor do que a minha. E isso faz com que ele me ajude muito com as pronúncias em inglês. Ele foi o meu primeiro relacionamento com uma pessoa surda. Na época, ele era o fotógrafo de um trabalho que eu fui fazer, mas o que eu não sabia é que ele já estava de olho em mim e acabou me contratando para fotografar. Desse encontro em diante, pudemos nos conhecer melhor e terminamos nos casando.

LINHA ABERTA – Como você concilia o lado profissional com a materni­dade?

BRENDA – Eu tenho uma vida normal graças a Deus, consigo conciliar tudo muito bem. Quando eu tenho dúvidas, sempre procuro me aconselhar com alguém de minha confiança e que pos­sa me ajudar. Mas, de um modo geral, eu sou independente e muito deter­minada. Os meus filhos se comunicam muito bem comigo e com o meu mari­do. Como eles falam os dois idiomas, mais inglês do que português, eu tenho a ajuda de uma babá fluente em inglês e português, e isso facilita mui­to a comunicação entre todos nós. As crianças aprenderem desde cedo que, para falar conosco, temos que estar de frente para fazer a leitura dos lábios e isso se tornou normal para elas.

LINHA ABERTA – Você já foi excluída de algum trabalho por ter deficiên­cia auditiva?

ARIANA – Sim, eu já fui. Os responsá­veis não falaram, mas eu acredito que fui pela forma que me olhavam quan­do souberam que eu era surda, além de não terem feito entrevista comigo e nem perguntarem o meu nome. Já com as outras modelos fizeram entre­vista, muitas perguntas e eu descon­fiei. Mas, graças a Deus foram poucos trabalhos. Além disso, eu também fui recusada para um teste na maior agência de modelo em São Paulo. Na minha vez, o booker perguntou o meu nome e eu estava com interprete de libras. Daí ela começou a sinalizar, o booker me viu falando libras e já res­pondeu que não estava interessado. Eu fui simplesmente ignorada e saí de lá chorando. Depois disso, aprendi e levantei a cabeça, fiz teste em outras agências e fui aprovada.

LINHA ABERTA – Qual foi o momen­to mais marcante da sua carreira?

ARIANA – Quando eu fiz um teste para fazer uma campanha internacional, concorri com várias modelos e fui a única modelo aprovada e escolhida para uma campanha em Paris. Foi um momento muito especial e único.

LINHA ABERTA – Qual a dica que você dá para os jovens surdos?

ARIANA – Não desista quando receber um “não”. Esse “não” faz você correr mais ainda atrás do seu sonho. Eu recebi diversos “nãos”, mas nunca desisti. Claro que desanima, mas deixa você mais forte e determinada para trabalhar duro. Não é fácil, mas não é nada impossível. Você pode fazer ser possível. Você consegue e é capaz! Surdez não impede as pessoas de nada. Corra e realize, porque você pode!

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