Lytron
Census
My Partner

Cadê a humildade que estava aqui?

“Portanto, como povo escolhido de Deus, santo e amado, revistam-se de profunda compaixão, bondade, humildade, mansidão e paciência. Suportem-se uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os outros. Perdoem como o Senhor lhes perdoou. Acima de tudo, porém, revistam-se do amor, que é o elo perfeito. Que a paz de Cristo seja o juiz em seus corações, visto que vocês foram chamados a viver em paz, como membros de um só corpo. E sejam agradecidos”. Colossenses 3:12-15 (NVI)

 Discorrer sobre humildade é sempre uma aventura. O problema inicial reside na essência filosófica do ser humilde. Perceba que quem é humilde não ousa ensinar sobre humildade, pois isto é conceitualmente contraditório. Então, quem é humilde não se preocupa em ser reconhecido como tal e tem profunda rejeição de serem rotulados com esta tamanha grandeza. Estes fazem isto não para serem vistos ou percebidos pelos que rodeiam, o fazem por simplesmente serem humildes. Portanto, aprender/ensinar sobre humildade é um desafio de projeções gigantescas, pois só de adjetivar alguém de humilde já se perder a essência do ser humilde. A situação agrava quando você pessoalmente olha para si mesmo e se juga como humilde, pois isto denuncia que tal característica não faz parte de seus atributos. Antagonicamente, os que não buscam reconhecimento se o fazem intencionalmente já se contradiz com a bendita busca da humildade, pois fazer algo para ser humilde é basicamente não ser humilde. O humilde não quer ser humilde, ele simplesmente o é. O humilde não faz nada para não aparecer, ele simplesmente não aparece. O humilde não contabiliza bondade, pois o faz naturalmente. O humilde não sabe que é humilde, pois ele é humilde.

 A humildade está na contramão da autossuficiência. O sentimento de autossuficiência surge da presunção de pensar ser mais do que o é, por isto Paulo adverte: “…digo a todos vocês: ninguém tenha de si mesmo um conceito mais elevado do que deve ter; mas, pelo contrário, tenha um conceito equilibrado…” Romanos 12:3 (NVI). Tristemente, não poucas vezes, a autossuficiência surge sorrateiramente a partir dos louvores dos outros que preferem impulsionar uns usando como combustível o elogio. Nada é mais corrosivo a humildade do que aplausos. Por esta razão o Carpinteiro instruía alguns que após o milagre não dissesse nada aos outros (cf. Mt. 8:4; Mc. 1:44; Lc. 5:14).

 A humildade requer renuncia sem retribuição. O anonimato é uma virtude dos humildes, que mesmo longe dos holofotes fazem mais que os astros que desfilam nos palanques da vida. No contexto de igreja isto também é válido de ponderação, pois, infelizmente, resumiram a fé em apenas dois ministérios, a saber: pregação e louvor – ambos ministérios enamoram existencialmente e indissociavelmente com as platéias. Contudo, ser Igreja é muito mais que discursar ou cantar, requer entrega, doação e abnegação – aqui se encontra todos os outros indispensáveis ministérios que fazem a igreja ser Igreja, e que subsistem por detrás das câmeras. Catastroficamente, muitos servem o Mestre com segundas intenções, quase sempre do gênero reconhecimento/retribuição. Estes confundem justiça de Deus com meritocracia, pois julgam que Deus tem que beneficiar os bons; confundem amar com tratar bem o próximo, pois afinal um dia pode-se precisar daquela pessoa. Confundem bondade com a lei da semeadura, estes fazem o bem não por caráter, mas por acreditar que num futuro terão a bondade retornável; confundem paciência com investimento, estes toleram o próximo não por causa do amor, mas pelo medo de perder aliados.

 A humildade dispensa vestimentas de piedade. Às vezes, na jornada nos é fornecido um traje de piedade que vem pré-formatado com programas sociais. Ali, onde se estabeleceu um processo planejado de bondade todos ficam “iluminados” pela luz da humildade. Piedosos de verdade são aqueles que extrapolam os programas sociais e torna causa de vida a vulnerabilidade social, independente dos programas ou da coletividade. Entenda, humildade não vem em um kit de combate a pobreza com datas e horários a cumprir, não se pode ser humilde apenas por algumas horas ou dias previamente estipulados. Obviamente, que não estamos desmerecendo os esforços, porém não podemos confundir humildade/piedade com voluntariado.

Por tudo isto, humildemente me despeço de você leitor, torcendo para que nós, em algum dia, sejamos surpreendido pelo Autor da Vida com a sentença: “…minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”, e seguidamente concluir como Paulo: “…Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim” –  2 Coríntios 12:9 (NVI).

Fortalecido pela cruz de Cristo,

>> VINICIUS SEABRA é é professor das áreas de teologia e administração; diretor do Seminário Evangélico de Teologia da América Latina (www.setal.org.br); presidente da Missão Tocando as Nações (www.mtn.org.br); e, pastor da Comunidade da Fé – Igreja Cristã (www.cofe.org.br) em Goiânia, Goiás, Brasil.
 

 

Share

Related posts