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Brasileiros fazem as malas na Irlanda

O goiano Valtercides Rodrigues já fez de tudo na Irlanda. Começou como pedreiro, passou a ser catador de ostras no mar gelado, boia-fria e até mecânico. Agora, com 64 anos e depois de cinco anos no país europeu, decidiu que vai voltar para Goiás.

Assim como ele, centenas de brasileiros que há menos de uma década deixaram o País em direção à Irlanda começam a tomar o caminho de volta, deixando para trás sonhos, esperanças e até negócios montados por eles na época das vacas gordas.

A crise que assola a economia que chegou a ser chamada de Tigre Celta está tornando os brasileiros uma de suas principais vítimas. Oficialmente, a polícia irlandesa tem o registro que 1,6 mil brasileiros trabalham no país. Mas para a comunidade brasileira e para o Itamaraty a percepção é que o número real é dez vezes maior.

“A situação aqui está muito difícil”, admite Daniela Maria de Araújo Felício. Seu marido, Fernando, trabalhava no setor de construção na Irlanda, um dos mais atingidos pela crise e há meses não consegue sequer ter uma renda fixa. “Como todas as obras do país estão paradas, não há trabalho. A única solução é voltar ao Brasil e é isso que decidimos fazer”, diz.

Ela diz que está só esperando a aprovação do passaporte de sua filha recém nascida para viajar e não mais voltar para a Europa. “O que o Brasil era nos anos 80 é a Irlanda de hoje”, comentou.

A cidade mais atingida pelo êxodo dos brasileiros é Gort, no oeste da Irlanda. Há apenas quatro anos, 40% da população de pouco mais de 4 mil pessoas da cidade era brasileira. A primeira leva havia chegado de Anápolis (GO), trazida por um frigorífico. Depois disso, centenas de outros vieram para trabalhar principalmente na construção.

Por anos, os brasileiros apareciam na praça central da cidade todos os dias pela manhã e fazendeiros e construtores da região passavam para levá-los para fazer bicos. “Nunca faltava trabalho”, diz Valtercides. Em 2007, o número de brasileiros fazendo fila na praça a cada manhã chegou a ser de cem por dia. A renda e os empréstimos abriram perspectivas. Os três lava-rápido hoje da cidade são de brasileiros, que também têm lojas de produtos nacionais, cabeleireiros e até um local para festas.

A Irlanda, o bastião do catolicismo, teve de ver a proliferação de igrejas evangélicas, que também acompanharam a chegada dos brasileiros a Gort. Na cidade, são já seis igrejas evangélicas. A última foi a Universal, que alugou uma das melhores salas da pequena cidade para atrair os fiéis.

Jaqueline, que tem uma loja de roupas brasileiras no centro de Gort, diz que chegou a buscar em apenas um dia mais de cinco brasileiros que desembarcavam no aeroporto da região. “Havia apartamento onde moraram até 12 brasileiros, amontoados literalmente.”

Mas, nesta semana, a reportagem do Estado visitou a região e comprovou que a crise está deixando sua marca profunda na cidade e entre os imigrantes brasileiros. Hoje, apenas 25% da população de Gort é de brasileiros, cerca de mil pessoas. Algumas das lojas fecharam suas portas, com seus donos brasileiros abandonando o local. Uma delas é a Via Brazil, que funcionava como mercado.

Na praça central, não passam de 20 os brasileiros que esperam por trabalho a cada dia. “Quando viemos, há uns cinco anos, havia emprego para todo mundo e até faltava mão de obra. Hoje, quem tem trabalho não cede e o agarra com unhas e dentes”, disse Valtercides, que diz já estar “cansado” de lutar diariamente para ser empregado e ter renda.

Milagre. Em Dublin, o padre Pat McNamara vê uma crise profunda entre os brasileiros como resultado da recessão na Irlanda. “Estou recebendo um número cada vez maior de pessoas com depressão”, afirmou o religioso. “Muitos brasileiros viajaram para a Irlanda pensando que um milagre estava ocorrendo e que eles seriam recompensados”, diz. “Mas nada disso ocorreu e o sentimento hoje é de uma grande frustração por não terem atingido seu objetivo.”

Se muitos abandonam seus projetos, os que ficaram entenderam que estão sendo obrigado a passar por uma profunda transformação.

Roberto Carlos Xavier, ex-operário de obras, conta que chegou a ganhar 600 por mês e que tinha trabalho em obras sete dias por semana se quisesse. “Faltava gente para tanto trabalho”, afirma. “Eu mesmo montei um grupo de cinco pessoas, que administrava cada vez que me pediam para trabalhar numa obra.”

“Mas a crise foi profunda e vemos dezenas de pessoas saindo de volta para o Brasil”, diz. Ele mesmo deixou de esperar trabalho como operário e passou a organizar uma agência de viagem. Hoje, vende cerca de 15 passagem por semana para brasileiros que vão abandonar a Irlanda. “Muita gente desistiu de esperar.”

“Mas basta estar preparado para enfrentar adversidades para superar a situação”, aconselha.

Ativistas de direitos humanos acusam empresas e o governo de estarem “sorrindo cinicamente” com a partida dos brasileiros.

“Não podemos esquecer os que vieram construir a Irlanda nos últimos anos e dar graças a Deus que estão indo embora. O impacto para a vida dessas pessoas deve ser pensado”, avalia Catherine Lynch, da Rede Europeia contra o Racismo.

Para quem quer deixar o país, entidades como a Organização Internacional de Migrações chegam a dar dinheiro para comprar passagem e abrir negócios no Brasil.

Para ONGs, porém, incentivar os brasileiros a sair da Irlanda é apenas a solução mais simples e imediata para a população local, sem pensar na vida dos imigrantes nem no futuro da economia irlandesa.

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