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As dificuldades de relacionamento entre pais e filhos de imigrantes nos EUA

Uma das questões que sempre vem à tona em aconselhamento familiar, tanto para os pais, quanto para os seus filhos, é um processo que chamamos de aculturação, que é a adaptação das famílias que decidiram morar no exterior. E para os imigrantes brasileiros que vivem nos Estados Unidos, esta realidade é vivida a cada dia.

Segundo o historiador francês Nathan Watchel, aculturação é todo fenômeno de interação social que resulta do contato entre duas culturas, e não somente da sobreposição de uma cultura a outra. Já Alfredo Bosi em “Dialética da colonização” afirma que esse fenômeno provém do contato entre sociedades distintas e pode ocorrer em diferentes períodos históricos, dependendo apenas da existência do contato entre culturas diversas, constituindo-se, assim, um processo de sujeição social.

Em termos práticos, o que isso significa?  Que tanto os pais que decidiram morar no exterior, quanto os filhos cujos pais vieram de outro país, passam por esse processo de aculturação.  E na verdade, a resolução, ou não desse processo de aculturação é responsável por promover alguns conflitos entre pais e filhos.

Cada um de nos carrega consigo uma bagagem própria e particular que são as nossas experiências. Essa bagagem tem a ver com o país onde nascemos e a sua cultura, o idioma que falamos, a forma de nos comunicarmos com os outros, a nossa família de origem que nos passou os seus costumes, a educação e os  valores que recebemos.  Este fatos somados faz com que tenhamos uma espécie de  “manual de sobrevivência.”  A forma como vivemos, portanto, é delimitada por todos esses aspectos emocionais e  socio-culturais. E por que entender isso é importante para entender o relacionamento entre pais e filhos que se mudaram para o exterior?  Exatamente por conta das diferenças e mudanças que vão acontecer ao viver num outro país, constituir família  e criar filhos, é que precisamos estar preparados para a aculturação, que podemos definir como a adaptação cultural num país diferente do nosso. Por isso, podemos parafrasear o escritor francês Victor Hugo, que  escreveu que “o homem possui asas e raízes. Eis aí a causa de alguns dos seus maiores conflitos.”

As crianças que nasceram e viveram a maior parte das suas vidas no Brasil, por exemplo, puderam participar e assumir uma série de valores, e por sua vez assimilar a cultura Brasileira mais a fundo do que uma outra que ao nascer, os pais se mudaram para os Estados Unidos ou as crianças de pais brasileiros que já nasceram nos EUA.

Em cada um dos casos, é preciso que se haja entendimento de que o processo de aculturação vai acontecer para ambas as partes, pais e filhos. Quando existe resistência a esse processo, os conflitos começam a se desenvolver.  Os pais, com suas próprias bagagens culturais, seus valores pré-assimilados e seus “pré-conceitos”, querem passar para os filhos costumes e valores que eram próprios às suas vidas numa outra realidade e num outro contexto social.

Os filhos que vivem num país diferente do de seus pais naturalmente têm dificuldade de entender conceitos e as culturas que estão enraigados na vida de seus pais. Muitos  rejeitam ou não entendem como podem conciliar o que eles não conhecem, mas que é dado como verdadeiro para os seus pais, com o que estão aprendendo no dia-a-dia.
Temos também os pais que tentam negar o seu “background” cultural, esquecer ou minimizar o seu sistema de educação, e tentam  fazer uma adaptação “relâmpago” aos novos costumes e a essa nova realidade, numa tentativa de facilitar a vida dos seus filhos, e daí metem os pés pelas mãos.

Em se tratando das dificuldades que tanto os pais quanto os filhos têm por viverem num país diferente,  encontramos a mais básica de todas, que é a dificuldade com o idioma.  Na maioria das vezes, os pais, por não falarem o inglês, têm problemas de se comunicarem e de participarem nas atividades escolares dos filhos, conversarem com os professores, ajudarem nas tarefas e projetos, bem como em se sociabilizar com os pais dos amigos dos próprios filhos. Além da dificuldade em comunicar-se com médicos, dentistas ou outros profissionais que falam somente o inglês.

Os filhos, no entanto, também enfrentam essa dificuldade, ou por terem que aprender o inglês, se vieram pra os EUA já maiores, ou em falar corretamente o português, para continuarem se comunicando com os pais e com a familia que ficou distante. As crianças muito embora bem mais resilientes do que os adultos, se adaptam mais facilmente às mudanças, mas não estão isentas das dificuldades com adaptação  à nova escola e aos novos amigos.

Elas precisam viver o “luto” por terem deixado os amigos anteriores e sua “zona de conforto” escolar e necessitam se adpatar a uma nova realidade, muitas vezes, desconhecida demais para elas.

Outro aspecto a ser considerado é a linguagem cibernética na qual os jovens estão involvidos. Esse mundo digital, virtual, está acontecendo com uma velocidade enorme. Muitos pais não conseguem acompanhar essa nova forma de comunicação, e se intimidam, ou desistem de aprender, o que gera um sentimento de impotência.  Outra vez quero dar ênfase a este assunto, afirmando que cabe aos pais se involverem e aprenderem com os filhos a respeito das suas vidas, escolhas, amigos, uso da internet, sua forma de se comunicar com o mundo, suas  mensagens de texto, etc.

Essa onda digital gera uma outra questao que leva os jovens ao consumismo exacerbado.  A maioria das crianças e dos jovens querem o “top do top” no que diz respeito a ter o melhor telefone, o melhor computador, o I-pod , I-pad e video game mais moderno e disponível no mercado. O único problema é que da mesma forma e velocidade com que esses artigos são lançados, assim é a vontade dos filhos em obtê-los.  E muitas famílias se veem direta ou indiretamente obrigadas a suprir a “pobre criança” com o novo.

Por conta dos pais trabalharem muito e por consequência, estarem ausentes, eles se sentem compelidos a compensar essa ausência com bens de consumo. Esse comportamento dos pais em vez de ajudar, atrapalha.  A idéia de que as coisas “veem fácil”, são descartáveis e não precisam de cuidado, nem de serem valorizadas, é uma ilusão e contribue de forma negativa na formação dos jovens.  Isto não significa dizer que devemos deixar de presentear nossos filhos com coisas boas, mas devemos agir com sabedoria, julgando antes de simplesmente comprar tudo que a criança quer, sem estabelecer critérios. Claro que com suas devidas excessões, a criança que merece deve ser recompensada positivamente.  Mas não apenas com coisas, mas com cuidado, carinho e principalmente com tempo.

Uma outra dificuldade que muitos pais enfrentam está diretamente relacionada ao status imigratório da família.  Para alguns, isso não é problema, no entanto, para a maioria, é um fator de estresse, que gera muita ansiedade no relacionamento familiar.  Isto sem levar em conta o fato de que estar nos Estados Unidos sem documentos atrapalha o jovem que precisa estudar, dirigir, ter um plano de saude, trabalhar, enfim, seguir a vida tão promissora que os seus pais pensaram um dia poder proporcioná-los.

Outro problema é o acesso às drogas que torna-se maior à medida em que o poder aquisitivo  também é maior. O acesso fácil às drogas e a má influência dos amigos exercem um peso grande sobre as escolhas dos jovens que precisam estar preparados para dizer não quando alguém oferece drogas na escola, no clube ou na rodinha de amigos. Em situações como esta, a combinação de pais ausentes com as más amizades é  suficiente para que o jovem ou adolescente passe a consumir álcool e drogas. Por isso, todo cuidado é pouco.

Não creio que seja possível esquecer tudo o que aprendemos através do nosso próprio sistema de educação, nem tampouco que toda a bagagem que trouxemos conosco do Brasil seja tão disfuncional que mereça ser apagada da nossa memória. Até porque nós, seres humanos, temos a tendência de repetir o que nos é familiar. Seja de forma positiva ou negativa. Apenas sei que precisamos nos adaptar e nos “reciclar.” Sei quão importante é estar se atualizado ao novo, para que haja entendimento, empatia, diálogo. Para que se possa acompanhar os filhos aonde eles forem, em termos práticos e emocionais, e para que a nossa cultura seja perpetuada. Caso essas diferenças se tornem conflitos que pareçam sem solução, e que atrapalhem a dinâmica familiar, busque ajuda professional. Um professional competente será capaz de ajudar nessa transição, facilitando a comunicação entre os membros da famíilia, ajudando neste processo de aculturação.

Karina Lapa é psicologa licenciada e mediadora de famílias pela corte suprema da Flórida. Para outras informações, envie seu e-mail para karina@southfloridacounseling.net ou visite o site www.southflloridacounseling.net.

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