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EDIÇÃO 119
JULHO DE 2008
 

Eleições EUA: A disputa entre poderes, ideologias e retóricas

Laine Furtado

A corrida presidencial de Barack Obama, 46 anos, senador por Illinois, pelo partido Democrata e John McCain, 72 anos, senador por Arizona, pelo partido Republicano, está somente começando. Agora, os dois candidatos vão aproveitar todas as oportunidades para diferenciar suas campanhas políticas. E mudança é a palavra que mais vem sendo usada pelos dois presidenciáveis.

Por outro lado, para o povo americano, escolher o candidato à Presidência dos Estados Unidos este ano será uma das mais importantes decisões que os americanos poderão tomar como nação, uma vez que em muitos anos, o país não enfrenta uma crise econômica como a gerada pelo crash do mercado imobiliário.

Os Estados Unidos precisam de um líder que possa levar o país ao crescimento, e na agenda, os candidatos estudam temas que são top priority. McCain e Obama investem em discussões sobre questões relacionadas ao Iraque e à segurança nacional. Outros temas quentes de debate são a política econômica do país e a imigração. Uma coisa é certa: aquele que souber como atingir o coração do americano e oferecer segurança ao país leva a presidência dos Estados Unidos, considerada a nação mais importante do mundo.

Para marcar a linha da disputa, a liderança da campanha de Barack Obama decidiu atacar em duas frentes. A primeira delas visa ampliar o mapa eleitoral do democrata, desafiando McCain em Estados tipicamente republicanos. A outra é trazer a economia para o centro do debate eleitoral. Realçar as diferenças será a mola propulsora da campanha presidencial para os próximos meses.

E Barack Obama já começou a buscar votos em estados republicanos e outros considerados cruciais para a disputa presidencial, ressaltando os contrastes de sua campanha com as do rival John McCain. O senador democrata decidiu adotar a economia como tema prioritário e, com o apoio dos eleitores que votaram em John Kerry em 2004, pretende converter a Carolina do Norte, a Virgínia e a Flórida em campos de batalha.

Em várias oportunidades, Obama tem direcionado duras críticas ao senador republicano John McCain. Obama afirmou que, no passado, McCain seguiu uma linha independente da do Partido Republicano, mas que esta não foi a marca de sua campanha presidencial. O senador acrescentou que ''existem muitas palavras para descrever a tentativa de John McCain de vender as políticas de George Bush abraçadas por ele como sendo bipartidárias e novas. Mas, mudança não é uma dessas palavras'', afirmou em análise ao sentido que McCain usa do termo mudança em sua campanha eleitoral.

Na agenda do candidato democrata, não faltam temas polêmicos que depõem contra McCain, pelo simples fato dele ser republicano: os seguidos aumentos do preço da gasolina, um problema mundial que os democratas procuram atrelar à desastrosa política externa do presidente George W. Bush - em especial a guerra no Iraque -, a crise das hipotecas, o crescimento vertiginoso do déficit público americano e o aumento do desemprego no país  reforçaram os argumentos de economistas de que o país caminha para uma recessão. 

Por outro lado, John McCain realizou uma série de paradas em Virginia e Washington, D.C. em busca de doadores para financiar sua campanha para as eleições gerais de novembro. Ele precisa de ajuda para elevar sua verba e concorrer com a máquina de arrecadação de Obama, que levantou US$ 264 milhões em 16 meses, valor bem superior aos US$ 155 mi do republicano. McCain se apresenta como o candidato que tem a experiência necessária para liderar a Casa Branca e levar os Estados Unidos de volta ao crescimento ecômonico. A guerra no Iraque também é uma das plataformas do candidato republicano, que tenta, ao máximo, se afastar da administração Bush, o calcanhar-de-aquiles de sua campanha.

John McCain aposta que o tema segurança será decisivo na escolha do eleitorado do próximo ocupante da Casa Branca. McCain vai repetir à exaustão que Obama não tem a experiência necessária para ocupar o cargo de comandante-em-chefe das Forças Armadas. O republicano vem fustigando Obama sobre sua proposta de retirada das tropas americanas do Iraque, que, segundo ele, não tem uma estratégia clara e sob o risco de se perder o pouco que se conquistou e de seu desconhecimento sobre política externa. McCain não tem poupado comentários negativos a Obama. De acordo com o republicano, ''não importa quem vencer nesta eleição, a direção deste país irá mudar dramaticamente. Mas a escolha é entre a mudança correta e a mudança errada, entre ir para frente e andar para trás''.

O que pensam Obama e McCain:

IMIGRAÇÃO

Mcain: Pretende proteger as fronteiras e restaurar a confiança dos americanos na competência do governo. “Uma fronteira segura é essencial à segurança nacional. Podemos aumentar a segurança nas fronteiras com políticas que reconheçam a importância de estabelecer alianças com a América Latina”. Acredita que, com isso, promoverá um forte crescimento econômico, para que os americanos possam contratar e pagar o melhor possível. “Nossa política deve também reconhecer a importância de assimilar a população imigrante, o que inclui o aprendizado de inglês, da história dos EUA e do respeito aos valores de uma sociedade democrática”, assegurou.

Obama: Barack afirma que, primeiro, na área de segurança, é preciso aumentar o controle das fronteiras. Em segundo lugar, será necessário um sistema simples que permita a empregadores verificar o status legal de seus empregados. Em terceiro lugar, precisamos trazer à luz os 12 milhões de pessoas que estão nos EUA sem documentos. “Precisamos ser realistas quanto ao fato de que eles estão aqui”, afirmou.

 

IRAQUE

McCain: Quer as tropas de volta aos Estados Unidos, mas quer que as tropas voltem para casa com honra e com a vitória. “Não podemos reagir a erros do passado apoiando a retirada das tropas ou reprisando nossa estratégia fracassada de uma retirada parcial de tropas. Isto seria um erro ainda maior”.

Obama: Votou contra a guerra no Iraque. “Estive entre os poucos que tiveram o discernimento de se opor à guerra desde o início”, afirmou em diversas ocasiões. “Agora que temos que corrigir o erro, só há opções ruins e opções ainda piores. Sob meu comando, começaremos a retirada das tropas, imediatamente”. 

ECONOMIA

McCain: O candidato acredita que devemos manter os gastos sob controle e os impostos baixos, buscar mercados para bens e serviços americanos e manter uma indústria tecnológica forte é crucial para a prosperidade do país.

Obama: o democrata pretende fazer investimentos estratégicos e de longo prazo em infra-estrutura para criar mais empregos qualificados, aumentar o financiamento federal para pesquisa e lutar contra acordos comerciais que prejudiquem a competitividade dos EUA.

CRISE ECONÔMICA

Mccain: Defende um princípio fundamental: não empreste dinheiro a quem não pode pagar. “Devemos retomar esse princípio. Também devemos ajudar as pessoas que enfrentam aumentos dramáticos nas hipotecas”. Segundo McCain, as duas partes têm de sentar juntas e discutir a situação particular de cada um. “Isso deve ser feito em larga escala”.

Obama: Barack garante que sua prioridade como presidente será restaurar o senso de responsabilidade do mercado imobiliário. Isso será feito em longo prazo. “Em curto prazo, vou manter as pessoas em suas casas, porque tirá-las seria ruim tanto para essas famílias quanto para seus vizinhos, que viriam o valor de suas propriedades diminuir com as casas vazias na vizinhança”. Pretende criar um fundo de US$ 10 bilhões de auxílio para essas famílias. 

BRASIL E AMERICA LATINA

McCain: Segundo ele, a atenção dos líderes americanos e da mídia se voltou para Iraque, Afeganistão, Oriente Médio e a guerra ao terror. Enquanto isso, outras forças perigosas surgiram. “Hugo Chávez usou o manto da legitimidade eleitoral para estabelecer uma ditadura unipartidária na Venezuela. A fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina é um paraíso para traficantes e grupos radicais. Nossa prioridade de segurança neste hemisfério (Sul) é garantir que terroristas, seus parceiros e sócios, incluindo narcotraficantes, não tenham para onde correr. Há também um grande potencial para parcerias com muitos países latino-americanos”. México, Brasil, Chile e outros representam verdadeiros parceiros dos EUA, países comprometidos com valores caros para nós.

Obama: Para Barack Obama, o relacionamento entre Estados Unidos e Brasil não pode atrapalhar a produção doméstica de combustíveis renováveis ou o desenvolvimento de novas tecnologias em casa.

AQUECIMENTO GLOBAL

McCain: O republicano acredita que a mudança climática é real e devastadora. “Temos a obrigação de tomar uma atitude para revertê-la. Acredito que a América fez bem em não assinar o protocolo de Kyoto, mas se pudéssemos fazer com que China e Índia assinassem, então os EUA deveriam considerar seriamente - em nossos próprios termos - unirem-se a todas as nações do mundo para reduzir as emissões de gases do efeito estufa”. Acredita num esforço global para vencer o problema da mudança climática no mundo.

Obama: Para o candidato democrata, como o maior produtor de gases do efeito estufa, os EUA devem tomar a responsabilidade de lidar com as mudanças climáticas. “Pretendo implantar um sistema de 'cap-and-trade' (limitação e negociação de emissões) que vai reduzir dramaticamente as emissões. Arrumar a nossa casa será o primeiro passo”. Acredita que uma resposta global que inclua compromissos especialmente entre aqueles países que poluem mais, como os EUA, China, Índia, União Européia e Rússia será fundamental para o sucesso contra o aquecimento global.

CELULAS TRONCO

McCain: É contra a criação de embriões humanos para a pesquisa e apóia a legislação que torna crime o uso de células ou tecido de um embrião criado com finalidades científicas. É a favor de uma política que equacione as preocupações morais daqueles que se opõem ao financiamento público de pesquisas com células-tronco com o senso moral dos contribuintes que o apóiam. “Apóio a ampliação do financiamento federal às pesquisas, mas acredito que devamos estabelecer limites para não sacrificar valores morais e princípios éticos em nome do progresso científico”, afirmou.

Obama: É defensor convicto do ato que regula o financiamento público de pesquisas com células-tronco. “O presidente George W. Bush errou ao vetar o projeto, e vou garantir que este ato seja finalmente transformado em lei”, garantiu.

ABORTO

McCain: Como uma pessoa a favor da vida, John McCain acredita que a decisão do caso Roe versus Wade que, em 1973, tornou o aborto legal, foi um erro, e deve ser revogada. “Se eleito, trabalharei para construir o consenso necessário para pôr fim à tragédia humana do aborto”, reforçou o candidato.

Obama: É contra qualquer emenda à Constituição que procure revogar a decisão tomada pela Suprema Corte que, em 1973, no famoso caso Roe versus Wade, tornou o aborto legal nos Estados Unidos. 

CASAMENTO GAY:

McCain: Como federalista, reconhece o direto de cada Estado de legislar sobre a instituição do casamento. E acredita na legislação corrente que diz que nenhum Estado é obrigado a reconhecer casamento ou união entre pessoas do mesmo sexo realizado em outro lugar. “Pessoalmente, sou contrário a que uniões civis tenham o mesmo status do casamento tradicional”, afirmou.

OBAMA: Apóia a união civil entre pessoas do mesmo sexo. É contra a emenda federal que define casamento como a união entre um homem e uma mulher.

SAÚDE

Mcain: John McCain acredita que o maior problema com o sistema de saúde americano é que é caro demais. Empresas e famílias pagam mais e mais todos os anos para receber algo que consideram inadequado.

Obama: Acredita que a maioria das famílias quer um plano de saúde, mas não pode pagá-lo. Sua ênfase será a de reduzir custos, negociar com as empresas de plano de saúde, “certificando que haja limite em sua capacidade de extrair lucro e limitar cobertura."

 

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