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Minha pátria, minha língua

JOSÉ DE ALMADA NEGREIROS RETRATO DE FERNANDO PESSOA EM 1964, POR ENCOMENDA DA FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN, ALMADA NEGREIROS REALIZA UMA RÉPLICA DO RETRATO DE FERNANDO PESSOA, EXECUTADO EM 1954 PARA O RESTAURANTE IRMÃOS UNIDOS, ESTABELECIMENTO DE QUE ERA SÓCIO ALFREDO PEDRO GUISADO, COLABORADOR DE ORPHEU, FREQUENTADO POR ALMADA E OUTROS NOMES LIGADOS À CÉLEBRE REVISTA MODERNISTA.

Texto de LUCIANA SAVIOLI
@lucianasavioli

NÃO TENHO SENTIMENTO NENHUM POLÍTICO OU SOCIAL. TENHO, PORÉM, NUM SENTIDO, UM ALTO SENTIMENTO PATRIÓTICO. MINHA PÁTRIA É A LÍNGUA PORTUGUESA. FERNANDO PESSOA

No seu Livro do Desassossego, Pessoa escreveu “não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico”. Minha pátria é a língua portuguesa. e concretizou algo que muitos já sabiam: a língua é um dos elementos mais emblemáticos e característicos de um povo. Em última instância, é o próprio povo. Por meio dela – esse código dominado e compartilhado por um deter­minado grupo de pessoas – os indivíduos conhecem aprendizados dos seus antecessores, relatam experi­ências humanas, trocam informações sobre doenças, perigos e catástrofes, perpetuam receitas, compartilham mandingas de curas e remédios, re­produzem estrofes de versos e passagens de livros, divulgam descobertas revolucionárias e , claro, se socializam, ato tão primitivo quanto vital para a completa existência humana. Já esteve em uma roda de estrangeiros que falam uma língua que você não dominasse e se sentiu frustrado – para dizer o mínimo – em não poder cumprimentar, opinar, interagir, rir, se defender ou apenas participar?

Pois é isso o que muitos filhos de imigrantes passam – mas, pasme, não na terra adotada, como era de se esperar, mas na sua terra natal. Com medo de ver seus filhos não inseridos no país para onde mudaram-se, pais e mães brasileiros acabam esquecendo, algumas vezes, de manter o principal fio conector dos filhos à pátria-mãe: a lín­gua. E, então, consertam um problema, imediato, mas acabam por criar outros, no futuro.

Segundo Daniele Medeiros, coorde­nadora da escola de Português Projeto Brasil e que trabalha há mais de 20 anos com o Português como Língua de He­rança (PLH) “É um erro deixar de falar de português em casa. Isso só vai piorar a vida da criança lá na frente. Saber a língua é importante para o desenvolvi­mento da identidade da criança, já que a língua é a essência cultural de um povo.

Quando mais velhas, muitas ques­tionam os pais do motivo de não terem ensinado a língua. É como se ficasse um vazio ali, se sentem excluídos de situações de família, ficam à margem de uma grande parte afetiva delas. Uma criança multicultural precisa das línguas para poder navegar nos vários contextos sociais em que ela se insere.”

Mas, afinal, o que difere uma língua de herança de uma língua estrangeira? Especialistas no assunto, Ivian Destro Boruchowski Ana Lúcia Lico, na obra Como manter e desenvolver o português como língua de herança: sugestões para quem mora fora do Brasil, definem: “uma língua de herança éaquela utilizada com restrições (limitada a um grupo social ou ao ambiente familiar) e que convive com outra(s) língua(s) que circula(m) em outros setores, insti­tuições e mídias da sociedade em que se vive. O português éuma língua de herança para os filhos de brasileiros que moram no exterior.

Os falantes de herança imigraram ou nasceram no exterior e mantêm alguma relação com a língua da família. Os falantes de herança podem apresen­tar habilidades variadas, desde apenas entenderem essa língua, atémostrarem domínio da oralidade, compreensão, leitura e escrita (Valdés, 1995).”

Mas pais e mães que moram longe da terra natal sabem o quanto é difícil manter vivas as heranças culturais dentro de uma casa imersa em outro país. Como não se deixar levar pelo novo calendário de feriados, pela nova comida, pelos novos hábitos – e, claro, pelo novo idioma? Para Ivian Destro Boruchowski Ana Lúcia Lico, ao decidir pela manutenção e desenvolvimento do português como língua de herança, os adultos devem adotar uma política linguística familiar que seja adequada a sua rotina, como por exemplo: cada responsável falará a sua língua nativa com a criança; todos os dias, durante o jantar, todos falarão português; dentro de casa só se fala português; ou com os adultos só se fala português, etc.

A atitude requer esforço, comprometimento e dedicação. Mas os benefícios, segundo especialistas, são muitos. “A criança cria laços afetivos com seu passado, com sua história, toma contato com as brincadeiras, a culinária quando os pais decidem manter a língua materna. A língua de herança também conecta as crianças com as famílias que ficaram na terra natal e a criar relacio­namentos com eles. Quando a língua é perdida, a comunicação quebra e a conexão é perdida” afirma Daniele que, ensina, hoje, cerca de 100 alunos em sua escola em Austin, TX.

Outro motivo, certamente é menos sentimental e mais prático. Afinal, sabe­-se que o mercado de trabalho está cada vez mais acirrado e poder falar com di­ferentes públicos e mercado certamente é um diferencial profissional. “Saber uma nova língua cria novas oportunida­des constrói uma identidade completa” lembra Danielle.

Se você ainda não está convencido, mais um argumento que deve convencer os mais céticos: segundo a neurocientista Ellen Bialystok, em Cognitive and Lin­guistic Processing in the Bilingual Mind, o bilinguismo traz benefícios sociais expressivos. Se por um lado a criança bilíngues costuma ter vocabulários menores, ela exibe, no entanto, melhor desempenho em tarefas não verbais que requerem resolução de conflitos.

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