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Antonio Fagundes – O consagrado ator brasileiro fala sobre a carreira, a família e os novos projetos

Texto de ALETHÉA MANTOVANI
@aletheamantovani

O ator Antonio Fagundes, 71 anos, dispensa apresenta­ções, afinal o seu grande talento, já conhecido pelo grande público, o faz ser um dos artistas mais consagra­dos da sua geração.

Fagundes começou a carreira em 1966 e, deste então, vem interpretando com maestria diversos personagens na teledramaturgia brasileira e também nos palcos e no ci­nema. Tudo isso lhe rendeu um número extraordinário de premiações e até mesmo a condecoração Ordem do Mérito Cultural, que foi oferecida ao ator pelo Ministério da Cultura brasileiro, em 2013.

A elegância é um dos pontos fortes do astro brasileiro e está presente tanto nas suas atuações, quanto no seu jeito de ser. Além disso, o seu charme e carisma também saltam aos olhos, mas concorrem com um lado da sua personalidade um pouco mais reservado, voltado à discrição.

Nas redes sociais podemos ver um Antonio Fagundes mais solto e descontraído, que interage bastante com os seus admiradores, tanto que, recentemente, foi até mesmo bloqueado no Instagram após tentar responder aos comentários de quase 15 mil seguidores que o escreveram – pois o aplicativo achou que se tratava de um robô.

No mês passado, o contrato que Fagundes tinha há 44 anos com a Rede Globo foi alterado – segundo as suas próprias palavras – e isso fez com que surgissem vários comentários na imprensa. Ele, porém, diz que continua parceiro da emissora, assim como foi durante os últimos anos. “O que muda é tão somente a nossa relação operacional” – afirma. E destaca ainda que as negociações para a sua participação no remake da novela Pantanal – uma das próximas tramas globais das 21h e previstas para 2021 – já estão encami­nhadas.

Na vida pessoal, o ator curte uma fase muito harmoniosa ao lado da terceira esposa, a atriz Alexandra Martins, com quem está casado há quatro anos.

Dos casamentos anteriores vieram os quatro filhos de Fagundes: Bruno – do relacionamento com a atriz Mara Carvalho -, Diana, Dinah e Antonio Fagundes Neto – do casamento com Clarisse Abujamra. De todos eles, só Bruno enveredou para a carreira artística e decidiu ser ator como o pai. Acompanhe a seguir a entrevista que Antonio Fagundes concedeu à Linha Aberta Magazine.

LINHA ABERTA – Você iniciou a sua carreira há 54 anos e, durante esse tempo, vem desempenhando com maestria excelentes papéis. Era mais fácil começar a profissão de ator antigamente? Quais são as diferen­ças para a época atual?

ANTONIO FAGUNDES – Quando eu comecei a fazer teatro o mercado era bem menor, então eu acho que era mais difícil a pessoa se tornar ator porque a televisão ainda era incipiente. Eu comecei em 1966, quando a televisão mal tinha passado a primeira década e, portanto, não tinha um mercado muito grande. “O cinema também estava engatinhando e para o teatro, por ter poucas companhias e poucos grupos trabalhando, se exigia aí um talento maior do que o requisitado hoje. Então, era complicado! E, depois que a televisão começou a funcionar, ela foi buscar os profissionais no teatro, então você tinha que fazer teatro para fazer televisão, e para fazer televisão você tinha que ter feito algum sucesso, alguma coisa forte em teatro. Eu tenho a impressão que era mais difícil antigamente. Hoje você pode começar tranquilamente uma carreira de ator na televisão ou no cinema – este que tem um mercado maior do que tinha naquela época – e também no próprio teatro, com muitos grupos e experiências.

LINHA ABERTA – Você sempre pensou em ser ator? Quais são os artistas que te influenciaram para você optar pela profissão?

ANTONIO FAGUNDES – Eu comecei a fazer teatro muito pequenininho, com 10, 12 anos de idade e ainda não era ator profissional, mas já estava fazendo teatro estudantil, amador e infantil. Eu me profissionalizei com 16 para 17 anos, então nem deu tempo para pensar, quando eu vi já era ator, foi uma coisa que veio quase que espontaneamente. Como eu gostava muito de teatro como espectador, eu vi naquela época grandes atores de teatro como: Raul Cortez, Fauzi Arap, Eugênio Kusnet, Gianfrancesco Guarnieri, Myriam Muniz, Célia Helena, Yara Amaral, Dina Sfat… Então, eu vi essa turma que já estava fazendo teatro, pois eles eram de uma geração anterior à minha, jovens ainda, mas já grandes estrelas. E todos eles me inspiraram.

LINHA ABERTA – Atualmente, as novelas estão diferenciadas se as compararmos com os folhetins de 20 ou 30 anos atrás. Hoje elas são mais dinâmicas , possuem menos capítulos, ou seja, são mais compac­tas. Na sua opinião, essa alteração no formato foi uma necessidade dos novos tempos, uma vez que hoje o pú­blico tem mais opções de entretenimento e as novelas poderiam ficar cansativas e perder a audiência?

ANTONIO FAGUNDES – Há uma diferença muito grande das novelas de antigamente para as atuais. Os capítulos das novelas mais antigas eram menores, mas as cenas mais longas, o ritmo mais demorado e os perso­nagens se aprofundavam mais. Você vê as novelas de 20 ou 30 anos atrás, que passam hoje em dia, com cenas d e 10, 15 minutos e isso é algo que não acontece atualmente. Eu acho que com o advento da MTV, com aquela coisa rápida dos clipes, surgiu a impressão de que o público iria cansar caso as cenas fossem mais longas. Eu acredito que isso não é verdade, pois o público iria se cansar caso a s cenas fossem mais longas. Eu acho que foi um engano dos autores, dos produtores e das próprias emissoras de televisão acharem que o público poderia se cansar e que a novela tinha que ter um ritmo tão ágil quanto um clipe d e música. Eu acho que não tem nada a ver e que se perde u aí uma belíssima relação com o público de televisão.

LINHA ABERTA – Você é um ator consagrado e muito querido pelo público, especialmente pelo femi­nino. Você já sofreu algum tipo de assédio ou cantada inconveniente?

ANTONIO FAGUNDES – Eu nunca sofri nenhum tipo de assédio, nem cantada inconveniente, pois eu sempre fui muito reservado e a minha vida sempre foi muito preservada, e também a minha privacidade. Eu acho até que as pessoas têm até um certo receio de se aproximar de mim, mim, e isso me poupou dessas coisas todas.

LINHA ABERTA – Quais são os grandes prazeres da vida para você?

ANTONIO FAGUNDES – Os grandes prazeres da vida para mim são vários, por exemplo, eu gosto muito de viajar, de ler, de ver filmes, de ficar em casa, de passear com os meus filhos e de muita coisa boa.

LINHA ABERTA – O que te desafia e te dá mais empolgação ao interpretar: uma boa e polêmica trama do autor Manoel Carlos (Maneco) ou do Benedito Ruy Barbosa, vista por um grande número de telespecta­dores, ou um papel no teatro, onde o contato com o seu público é mais próximo e direto?

ANTONIO FAGUNDES – A televisão sempre foi um desafio porque ela exige uma rapidez, uma espontaneidade no fazer e, ao mesmo tempo, uma esperteza, pois você tem pouco tempo para estudar os personagens. Então, ela sem­pre me interessou muito, porque eu achava que tinha muito para aprender. E isso é verdade, pois se você aprende essa ligeireza, se você é esperto e faz com rapidez o seu traba­lho, você passa por cima de uma série de primeiros passos que tem que dar na hora de fazer teatro. Daí, você já pod e se concentrar no aprofundar do personagem que o teatro exige. Mas, sempre que me perguntam o que é melhor, eu acho que cada veículo tem uma coisa boa. A televisão é a possibilidade de você se relacionar com quase 40, 50 milhões de pessoas ao mesmo tempo. O teatro é o fato de que você tem aquelas pessoas ali na sua frente. Mas, não tem o que se compare ao teatro, porque eu brinco que ele é a pátria do ator, pois é lá que ele erra, ousa, experimenta , que é humilde, porque lá dá para perceber se o público est á gostando ou não. Enfim, não existe comparação, embora a televisão seja um veículo extraordinário.

A ESPOSA ALEXANDRA MARTINS E O ATOR ANTONIO FAGUNDES FOTO: DIVULGAÇÃO

LINHA ABERTA – Você parece estar muito presente nas redes sociais hoje em dia, principalmente no Insta­gram, onde responde a muitos comentários deixados por seus fãs, envia flores. Você curte o mundo virtual, gosta de interagir com o seu público pela Internet?

ANTONIO FAGUNDES – Eu sou recente no mundo vir­tual e não tenho muita experiência ainda, portanto não sei dizer se estou gostando ou não. Eu estou prestando atenção e vendo a reação das pessoas. É claro que é emocionante e, ao mesmo tempo, te dá um certo orgulho saber que mais de 600 mil pessoas estão te seguindo, só pode ser uma coisa boa saber que tem tanta gente interessada nas coisas que você diz e que entrega para elas. Mas, eu não sei se fica só nisso e, se ficar, eu não sei se é alguma coisa que me interessa muito. Vamos ver, eu sou muito novinho ainda nessa área, mas por enquanto estou gostando muito, tanto que eu mesmo curto e respondo a todos os comentários que eu posso, pois leio a cada um eles. Às vezes, até me colocam em situações complicadas, como num outro dia em que quase 15 mil pessoas comentaram uma postagem minha, eu fiquei louco tentando responder a todas elas e fu i até bloqueado pelo Instagram. Mas, de qualquer forma, eu estou me divertindo.

LINHA ABERTA – Dos seus quatro filhos, somente o Bruno Fagundes optou em ter a mesma profissão que a sua e, inclusive, vem se destacando em diversos trabalhos. Ele teve o seu incentivo para enveredar pela carreira artística?

ANTONIO FAGUNDES – O Bruno começou a fazer teatro também muito cedinho, ele era bem pequeno quan­do já manifestou a vontade de ser ator .Eu tenho outros três filhos que não seguiram a minha profissão. Então, eu sempre tive na minha cabeça que gostaria de dar a possibi­lidade para eles escolherem o que quisessem fazer, desde que fossem felizes e livres. Portanto, eu sempre organizei a vidinha deles o máximo que eu pude para que todos tivessem acesso ao que quisessem e para que pudessem optar. E eles optaram. O Bruno foi o único que seguiu a carreira d e ator e me parece que é muito feliz com a sua escolha, pois ele gosta muito do que faz e tem talento.

LINHA ABERTA – Você está casado com a atriz Ale­xandra Martins desde 2016 e ambos demonstram ter muita afinidade e um ótimo entrosamento. Quais são os pontos fortes do casal que fazem com que a relação seja tão harmoniosa?

ANTONIO FAGUNDES – Essa afinidade e esse entro­samento, tanto pessoal quanto profissional, é uma coisa muito importante para que uma relação dure e prospere. A harmonia é essencial para uma relação ser duradoura, com respeito e admiração. Aí a coisa vai embora… E isso é o que está acontecendo conosco. Graças a Deus!

LINHA ABERTA – Você já se apresentou em quais países no exterior? O que achou da experiência? E para morar, você já cogitou a hipótese de viver fora do Brasil?

ANTONIO FAGUNDES – Eu nunca pensei em morar fora do Brasil. Como eu gosto muito de viajar, então eu sempre presto atenção nos lugares e penso: “Será que eu gostaria ou não de morar aqui?”. Naturalmente, eu gostaria de morar em vários lugares, pelos lugares , mas culturalmente eu tenho a impressão de que preciso resolver várias coisas com o meu país, que há tantas coisas que eu gostaria de trocar com as pessoas aqui no Brasil e começar do zero culturalmente em outro país ia ser uma coisa muito aflitiva para mim. Eu tenho muito prazer de conhecer outras culturas e de trocar com elas. Nós viajamos com os nossos espetáculos para o exterior ,como o Baixa Terapia, por exemplo, que levamos aos Estados Unidos, em Orlando, Miami e Boston durante um mês. Fizemos também três meses de temporada em Portugal, onde eu já fui com quatro espetáculos para lá . Portanto, eu tenho vontade dessa troca e gosto dela, mas sabendo que eu vou voltar para o meu país e continuar o meu trabalho nele, pois a gente tem muito trabalho ainda no Brasil, que é uma nação ainda pobre culturalmente e que tem muita coisa para ser feita na área da educação , da cultura e da comunicação. Então, acho que já tem desafio suficiente aqui no meu país para eu querer me testar fora dele.

LINHA ABERTA – Como você está enfrentando esse período de pandemia? Você lida facilmente com a reclusão? O que tem feito para ocupar o seu tempo?

ANTONIO FAGUNDES – A pandemia realmente mexeu com a cabeça de muita gente. Eu não sei se o público em geral pode entender, mas a nossa vida é muito corrida e as pessoas têm a impressão de que é tudo muito glamuroso, muito fácil, ou seja, que você vai lá e grava. E não é! São horas e horas de ensaio, de estudo e você tem que aprofundar cada personagem que faz. A própria gra­vação e os ensaios são extremamente exaustivos e nem sempre realizados em situações de conforto, às vezes você está trabalhando no meio da rua, com chuva e fica a madrugada sem dormir. Então, é uma profissão bastante puxada. Na verdade, a gente quase não para em casa e não consegue curti-la. Portanto, a pandemia trouxe isso de bom para mim, por incrível que pareça, pois eu estou conseguindo ficar em casa de uma forma que, durante os últimos 54 anos de profissão, eu nunca tinha conseguido . É claro que eu gostaria de sair, de ter a minha vida nor­mal, eu estou me ressentindo com isso, mas ao mesmo tempo eu estou aproveitando aquele cantinho que nunca tive tempo para curtir.

LINHA ABERTA – O momento está sendo muito desafiador para a classe artística de um modo geral, pois as gravações foram suspensas, os shows e as apresentações de teatro estão aguardando para retor­nar. O que deve ser feito para que haja uma compen­sação dessa situação enfrentada pelos artistas?

ANTONIO FAGUNDES – A pandemia trouxe uma coisa ruim para a nossa profissão. O teatro, principal ­mente, precisa da aglomeração, pois é a junção daquelas 700 pessoas no mesmo espaço que faz dele uma coisa extraordinária. Se elas estiverem separadas ou nas suas casas vendo pela televisão não será teatro.A aglome­ração, portanto, é o grande fator social que diferencia o teatro de qualquer outra coisa. Com a pandemia vieram também os problemas financeiros para uma grande parte das pessoas que vivem do teatro: atores, diretores, autores e também a equipe técnica que quase não aparece – os fa­xineiros, os indicadores, os contrarregras, os camareiros, os iluminadores e os sonoplastas. Então, eu acho que nós devemos rezar para que a vacina venha rapidamente e, assim, possamos retomar a nossa relação com as plateias exatamente de onde paramos.

LINHA ABERTA – Quais são os seus próximos projetos?

ANTONIO FAGUNDES – Eu tenho o espetáculo Baixa Terapia, que já estava em cartaz há 3 anos e iria fazer uma longa temporada no Rio de Janeiro a partir de maio. Nós estávamos de malas prontas quando a pandemia apareceu e ele foi suspenso. Mas, estamos prontinhos e, assim que pudermos nos reunir, o faremos novamente. Em 2021, eu também vou lançar um livro que estou preparando. Eu fiz um podcast sobre leitura , o “Clube do Livro do Fagundes”, no Gshow, e ele tem 21 programas curtinhos, de 10 a 15 minutos, que falam sobre literatura. Esse podcast me deixou bem feliz, pois fez muito sucesso. Então, eu pretendo retomá-lo e fazer a segunda temporada. A gente estava começando também a preparar uma série para televisão e ainda há um longa-metragem que eu pretendo fazer assim que a pandemia acabar.

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