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A força do cafezinho brasileiro

Texto de LUCIANA SAVIOLI
@lucianasavioli

Nenhum aroma, talvez, nos remeta mais ao conforto de casa e de nossas origens verde-amare­las quanto o do café. A relação do brasileiro com o fruto – trazido para o Brasil em 1727 pelo oficial português Francisco de Mello Palheta, vindo da Guiana Francesa – é quase genética e certamente ancestral. Segundo a jornalista Kelly Stein, fundadora do Portal COFFEA – primeiro podcast sobre café do Brasil e o primeiro bilíngue do mundo – , “a relação afetuosa e emocional do brasileiro com o café dá-se porque ele faz parte da construção do país, da República do jeito que a gente conhece hoje.”

Degustado, sob diferentes formas, em quase todos os lares do país, o café hoje, é a segunda bebida mais consumida em terra nacional, perdendo apenas para a água (fonte: Embrapa) . Para se ter ideia da paixão do brasileiro, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), o consumo per capita no Brasil, por ano, é de 4,9 quilos de grão torrado e moído ou cerca de 81 litros em forma de bebida. Em dimensões mundiais, o número ainda é mais chocante. Dados da International Coffee Organization apontam que o consumo mundial ultrapassa 150 milhões de sacas de 60 quilos por ano – e ainda vem registrando um crescimento anual de 2,5%. Neste cenário, o Brasil é o segundo maior consumidor da bebida do mundo (20,5 milhões de sacas em 2019 ) atrás apenas dos EUA, com anualmente 24 milhões de sacas de café.

Todo esse amor, tradição e conhecimento no cultivo do café levaram o Brasil a um posto inigualável: o de maior produtor mundial, lugar que detém há mais de 150 anos, e o de maior maior exportador mundial, segundo dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Para se ter ideia do volume de expor­tação, em 1779, o país enviou a primeira remessa de café ao exterior: cerca de 19 sacas. Nos anos seguintes, a produção cresceu exponencialmente a ponto do café ser apelidado de “o ouro verde brasileiro” – e passou a ser a principal fonte de riqueza do Brasil. Em 1999, as remessas brasileiras de café ao exterior foram de 23 milhões de sacas.

Em 2019, as exportações bateram a casa de 36,8 milhões de sacas, superando o recorde de 35,4 milhões de sacas registrado em 2018. O principal destino dos cafés brasileiros são os Estados Unidos, que importaram no mês de abril de 2020, 2,7 milhões de sacas (20,2% de participação no total das exportações), depois a Alemanha (2,4 milhões de sacas) e Itália, importando 1,2 milhão de sacas. Em seguida, vem Bélgica (767 mil sacas), Japão (632,4 mil sacas), Federação Russa (426,2 mil sacas), Turquia ( 394,1 mil sacas), Espanha (327,7 mil sacas).

O CAFÉ BRASILEIRO FOI EXPORTADO, PELA PRIMEIRA VEZ, EM 1779. HOJE, O BRASIL ENVIA CERCA DE 36 MILHÕES DE SACAS DO GRÃO POR ANO, LEVANDO TODA A TRADIÇÃO, CULTURA E O AFETO DA BEBIDA A XÍCARAS DO MUNDO TODO.

Os Estados Unidos seguem sendo o país que mais recebe cafés diferenciados do Brasil, com 425,1 mil sacas exportadas (equivalente a 19,4% de participação nas exportações da mo­dalidade). Segundo estudo realizado pela APEX (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) “o café pos­sui grande relevância para a economia dos Estados Unidos, por ser a principal commodity agrícola importada pelo país. As importações americanas desse produ­to representam aproximadamente 20% da demanda mundial e vem registrando crescimentos constantes. A produção local, localizada primariamente na região do Hawai, não atende nem 5% da deman­da nacional, ou seja, praticamente todo o café consumido nos EUA provêm de mercados internacionais. O café Arábica representa 80% das importações e os 20% restantes são de café tipo Robusta, Bourbon, Peaberry, entre outros.”

Mas o que faz o café brasileiro ser tão apreciado – e vendido – no mundo? As razões são algumas: “O Brasil tem dimensões continentais. E desde a época que nós éramos colônia de Portugal, Dom Pedro investiu em ciência do café. O Instituto agronômico de Campinas foi a primeira instituição que reuniu cientistas e pesquisadores para estudar melhoramentos genéticos da planta. Isso, aliado a uma grande extensão territorial e técnicas de inovação – não só genética, da planta – mas de manejo, de colheita e pós-produção – nos coroou como maior produtor de café do mundo”, afirma Kelly.

Outro motivo, certamente, se dá pelo fato de que a cafeicultura brasileira é uma das mais exigentes do mundo, primando por altos níveis de quesitos sociais de cultivo – como seguir as rígidas legisla­ções trabalhistas de trabalho escravo ou infantil nas lavouras – e ambientais, respeitando parâmetros rigorosos de ma­nutenção da biodiversidade das fazendas.

Tudo isso faz com que a produção do café brasileiro seja sustentável e ainda mais admirada no mundo. Mas, claro, sempre há desafios. “ Temos mais de trinta e duas regiões que produzem café – isso nos dá uma enorme vantagem, porque a gente consegue uma variedade de perfis sensoriais que vai atender todos os gostos e todos os bolsos. Também temos uma cultura de investir em ciência do café então produzimos quantidade e qualidade graças aos avanços tecnológi­cos, não só de melhoramento genético, mas maquinários, técnicas de manejo do solo de poda de colheita de pós-colheita. Mas o desafio é mostrar para o mundo que somos capazes de produzir cafés de excelente qualidade, além de uma cafeicultura justa social, econômica e ambientalmente. Havia uma ideia – equivocada – de que o Brasil produzia em quantidade mas não em qualidade. Hoje, isso mudou. Sensorialmente, os produto­res brasileiros também produzem café de excelente qualidade.”

Leonardo Montesanto Tavares – um dos proprietários do Grupo Montesanto Tavares – é um dos maiores exportadores de café do Brasil e sabe disso. O café produzido em sua fazenda, a Primavera, conquistou, em 2018, o Cup of Excelen­ce – o maior concurso de qualidade do setor – levando a maior pontuação do mundo naquele ano. O sucesso se traduz em números e cifras: com cerca de 900 funcionários trabalhando no cultivo e distribuição dos grãos, a empresa produz em média, cerca de 80 mil sacas ao ano, das quais exporta 80 % para o mundo todo (exceto África e América Central). “A ideia de que o americano não entende de café é equivocada. Eles são muito mais educados que nós nesse quesito e não compram café ruim. O brasileiro ainda está acostumado com o café comercial e não o fino, o especial, até por uma questão econômica.” O valor do quilo do café comercial é R$18, enquanto o café especial é R$120. Mas, para o mineiro, o negócio vai muito além de comercializar o grão: “A indústria do café especial é muito mais profunda que uma relação de compra e venda. Ela é baseada no relacionamento. Do mesmo jeito que a gente só toma café com quem gosta e res­peita, eu só vendo meu café para quem compartilha dos meus valores e quem se alinha aos meus princípios. A cafeicultura é quase uma igreja.”

E, ao que parece, a religião do café tem adquirido cada vez mais adeptos – e nem o Covid abalou a indústria: “A pandemia não gerou muitos impactos já que o consumo apenas mudou de lugar. As pessoas deixaram de consumir nas cafete­rias, padarias, restaurantes, para consumir mais em casa. E os em­presários que souberam aproveitar esse movimento, vendendo café on­line, por exemplo, certamente não sofreram tanto”, afirma Leonardo.

Prova de que ele está correto é que, em julho deste ano, o Brasil exportou 3 milhões de sacas de café, considerando a soma de café verde, solúvel e torrado e moído, o segundo recorde histórico de exportações brasileiras de café para um mês de julho já registrado. A receita cambial gerada pelos em­barques foi de US$ 356,8 milhões, equivalente a R$ 1,9 bilhão, o que representa um aumento de 22,3% em reais em relação a julho de 2019 (Fonte: Conselho dos Exportadores de Café do Brasil – Cecafé).

Joel Shuler é outro pastor dos fieis do café. Fundador da Casa Brasil, o americano – amante do Brasil – é um dos pioneiros em levar a cultura brasileira do café aos Estados Unidos. Joel fez mestrado em Engenharia Agrícola da Univer­sidade Federal de Lavras, uma das maiores instituições de pesquisa em café e hoje, é uma das maiores autoridades no assunto, percor­rendo o mundo degustando cafés, conhecendo produtores e ensinan­do cafeicultores e baristas sobre o grão e suas peculiaridades. “Be­bemos muito café. Viajamos ao Brasil a cada colheita e degustamos centenas de café de diversas regiões cafeeiras do país. Estamos constan­temente buscando novos parceiros e provando como as características de cada ano afetam a colheita. De­pois de quase uma década fazendo isso, somos felizardos em termos desenvolvido ótimas relações com alguns dos melhores produtores do Brasil.”

Os cafés comprados por Joel, vindos de regiões como a Chapada Diamantina, Cerrado Minero, Vale da Grama, entre outras, são torra­dos em Austin, TX, vendidos para os apreciadores do grão e servidos em diversos restaurantes do mundo.

ARÁBICA X ROBUSTA

– Há duas variedades de café cultivadas no Brasil, o café arábica e o café robusta.

– O primeiro é mais delicado, não aceita muita umidade e precisa ser plantado em um terreno situado entre 600 metros e 2.000 metros de altitude. O segundo, como o próprio nome já diz, é um café mais forte, mais resistente e se dá bem em altitudes compreendidas entre o nível do mar e 600 metros.

– Enquanto o café arábica é muito utilizado em blends de alta qualidade, o café robusta é usado na indústria de café solúvel.

– Outra diferença entre eles é a quantidade de cafeína presente no grão. A primeira va­riedade tem 1,4%, já a segunda tem 2,5%.

Fonte: Conselho dos Exportadores de Café do Brasil – Cecafé.

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