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Padre Fábio de Melo – ELE É UM FENÔMENO!

Texto de ALETHÉA MANTOVANI
@ALETHEAMANTOVANI

Fotos @KLEBER_ALEPEREIRA

E quando nos referimos ao padre Fábio de Melo, 49 anos, como um fenômeno não estamos exagerando, afinal ele faz um sucesso estrondoso por onde passa e é, atualmente, uma referência como religioso, comunicador, influenciador digital, cantor e por aí vai… O mineiro da cidade de Formiga, que foi preparado para ser um padre de comunicação das grandes massas, se tornou uma das personalidades mais queridas e conhecidas do Brasil e um verdadeiro ícone das redes sociais graças ao seu jeito carismático, alegre e divertido. Muitas vezes chamado de “popstar” pela mídia, Fábio de Melo afirma que não gosta de tal denominação, pois se consider aum líder religioso e não uma celebridade. Porém, os números de seguidores e de curtidas nas suas redes sociais mostram nitida­mente a sua grande popularidade e que ele vem superando diversos famosos. No Instagram são 21 milhões de pessoas e no Twitter 8 milhões – e estes números correspondem ao dia de fechamento da edição desta revista, mas agora o montante certamente já deve ter aumentado. E os seus seguidores, pas­mem, incluem não somente católicos, mas pessoas de diversas religiões e até mesmo quem não pertence a alguma delas.

Os posts de Fábio chegam a ter 800 mil curtidas e eles não se resumem somente a mensagens religiosas, frases refle­xivas ou a fotos do seu cotidiano, mas possuem também vídeos muito engraçados da Internet, além de avisos sobre missas e louvores que sempre vêm com um toque de bom humor.

Ao vivo a tietagem com o padre também é grande, pois tem sempre um fã ou mesmo uma celebridade querendo uma fazer selfie com ele ou tentando dar um abraço no ídolo. E isso não acontece somente nas missas ou eventos religiosos dos quais ele participa, mas também em locais inusitados como nos parques da Disney, em Orlando, ou nos shows do Rock in Rio, por exemplo. Aliás, a Disney é um local que o sa­cerdote gosta muito de passar os seus momentos de lazer, pois segundo ele “tem gritos que só podem ser dados por lá”.

A vida agitada e a agenda cheia de compromissos que o religioso sempre teve lhe causaram um problema desagradável nos últimos anos. Em 2017, ele foi diag­nosticado com a síndrome do pânico e precisou mudar alguns hábitos e rever o excesso de trabalho para superar a doença. Porém, isso não foi um empecilho para ele prosseguir com a sua trajetória de fé e alegria. Muito pelo contrário, ele voltou fortalecido para estar à frente dos inúmeros compromissos que tem diariamente, porém agora de um modo menos intenso e buscando sempre priorizar o que realmente importa. Acompanhe a entrevista que ele concedeu à Linha Aberta Magazine.

LINHA ABERTA: Você é muito querido pelo grande público e seguido por católicos e pessoas de várias outras religiões, ou seja, é um verdadeiro fenômeno de comunicação e de audiência nas redes sociais. A que você atribui fazer tanto sucesso?

PADRE FÁBIO DE MELO: Eu creio que a abran­gência do meu discurso se deve ao fato de eu privilegiar as questões humanas. Nós somos todos iguais, sofremos pelas mesmas causas, nos alegramos pelos mesmos motivos, e ainda que tenhamos visões religiosas diferentes, nós nos encontramos sempre nos mesmos pontos. Toda vez que a gente escolhe falar sobre isso é natural que as pessoas se identifiquem. Eu acredito que abrangência facilita o encontro. Eu tenho os meus espaços catequéticos em que eu falo especificamente da minha fé, mas eu sempre gosto de partir de um ponto que não seja comum, de questões que, de fato, estejam conectando a todos nós. Talvez seja por isso que eu sou muito ouvido por crentes, não crentes, por indiferentes… E eu me sinto muito responsabilizado por isso e honrado também, porque toda vez que alguém para e ouve uma outra pessoa é porque ela está dando um crédito, ela está permitindo que essa pessoa, de alguma forma, participe do seu mundo e da sua construção humana.

LINHA ABERTA: O assédio dos seus fãs e seguidores lhe incomoda? Você já passou por alguma situação constrangedora devido a essa questão?

PADRE FÁBIO DE MELO: Ninguém gosta de ser assediado. O assédio é um conceito que nos reporta a um desrespeito à liberdade alheia. É claro que isso já aconteceu comigo, mas em situações mais escassas, o que prevalece é a admiração. Eu sei que eu entro na vida das pessoas, eu participo da vida delas mesmo sem que eu saiba que isso esteja acontecendo. A palavra nos permite essa proeza e a minha vida gira em torno da palavra, a começar na palavra de Deus que é o meu norte, o meu guia e, depois, de tudo aquilo que se desdobra no meu trabalho como escritor e como comunicador. Eu sei que eu acompanho muitas pessoas, que participo do processo de muita gente para a recuperação de dores, de ansiedade, de medos e perdas. E é claro que isso gera uma gratidão. Então, o que prevalece na minha vida é receber a manifestação da gratidão de pessoas que se aproximam uma forma muito carinhosa. E isso é muito bom! Já o assédio não, pois ele é uma sede que a pessoa tem pela sua imagem, é uma obsessão em lhe querer de alguma forma. E isso não é bom!

LINHA ABERTA: Como você decidiu ser padre e quando isso aconteceu? Os seus familiares te apoiaram?

PADRE FÁBIO DE MELO: O meu desejo de ser padre se manifestou quando eu ainda era um menino. E por ter nascido numa família muito católica, eu sempre recebi a aprovação de to­dos. Mas, quando eu entrei no seminário, o meu pai não gostou nada da ideia. A minha mãe me conta que, duas semanas depois, quando eu já estava no seminário, ela o encontrou abraçado a uma bermuda que eu havia esquecido e ele chorava muito. E aquela atitude não combina­va com o meu pai, pois embora ele fosse um homem sensível, ele não tinha facilidade para demonstrar a emoção. Então, a minha mãe sentou ao lado dele, mas não interferiu naquele momento, e permitiu que aquele sentimento fluísse. Ela disse que a partir daquele momento, daquele choro catártico, ele nunca mais tocou no assunto com mágoa, porque antes ele lembrava “não queria que ele estivesse lá, não queria que ele estivesse lá”. Então, na minha vida houve um objeto esquecido e que provocou dentro do meu pai uma aceita­ção, e que depois marcou a minha continui­dade no seminário.

LINHA ABERTA: O que você acha dessa de­nominação que a mídia já fez diversas vezes para você como um padre “popstar”? Esse termo o incomoda?

PADRE FÁBIO DE MELO: “Popstar” me dá a impressão que nós estamos falando de uma celebridade, né? E eu não me considero uma. Eu me vejo como pessoa que tem um destaque na sociedade e que não é nada fútil. Esse espaço que eu ocupo é de muita responsabilidade, pois eu sou um líder reli­gioso. Se, por acaso, eu me tornei conhecido, assim como um cantor, um ator ou uma cele­bridade, eu não me sinto assim. Eu me sinto uma pessoa conhecida e é esse o conceito que me mantém no eixo da minha verdade. Eu acho que se eu aceitasse essa coisa de ser um “popstar”, em algum momento da minha vida, eu teria aceitado os privilégios de ser um “popstar”, e eu nunca os aceitei ou considerei. Eu prefiro ser reconhecido pelo trabalho que faço.

LINHA ABERTA: Você é um padre muito famoso e requisitado para entrevistas e pro­gramas de TV. Como você consegue conciliar tudo isso com as suas atividades da Igreja?

PADRE FÁBIO DE MELO: Desde o iní­cio eu fui preparado para ser um padre comunicador. A melhor maneira de você preparar alguém que irá trabalhar com a comunicação é proporcionando estudo para essa pessoa. Então, eu fiz duas faculdades, uma pós-graduação e um mestrado. Logo após o mestrado, eu comecei a dar aulas na universidade. Eu nunca fui um padre de paróquia, portanto nunca tive uma, eu sempre trabalhei com a comunicação e com a educação. E, juntamente com esse trabalho de professor e estudante, eu já tinha um trabalho com a música. Com o tempo, a música e a comunicação tomaram conta e eu deixei de dar aulas e passei a administrar esse meu novo formato, que é ser um padre de comunicação de massa. A minha comu­nicação atinge muita gente e eu tenho um programa na televisão, participo de muitos outros programas. Atualmente, eu parei com a música porque precisava me refazer e voltei aos estudos porque eu precisava me renovar, pois não dá para fazer o mesmo discurso a vida inteira. O evangelho é o mesmo, ele não muda, mas a maneira como nós olhamos para ele depende muito do que escolhemos ler e estudar.

LINHA ABERTA: Você já recebeu críticas por algum segmento mais conservador da Igreja, mais tradicional, devido ao seu comporta­mento brincalhão e descontraído?

PADRE FÁBIO DE MELO: Eu nunca recebi oficialmente uma crítica vinda do comando da Igreja. É claro que eu esbarro, o tempo, com padres e bispos que podem não gostar da minha maneira de ser. Mas, como eu me preparei e estudei muito para ser padre, graças a Deus, eu não tenho absolutamente nada no meu discurso que seja contrário ao que sugeriu Jesus. Então, é isso que me deixa tranquilo. As pessoas podem não gostar de mim, elas têm esse direito, afinal ninguém precisa ser uma unanimidade. Mas, o fato de algumas pessoas não gostarem de você não sinaliza que é preciso mudar. Eu não estou dizendo que não mudo a partir de críticas, eu até gosto delas, mas eu costumo selecionar aquelas que estão baseadas em alguma coisa do meu comportamento, do meu jeito de ser e que, de fato, precisam de uma intervenção, de uma mudança. Não é um crime ser brincalhão e descontraído, pelo contrário, é uma virtude necessária nos dias de hoje.

LINHA ABERTA: Há algum tempo você contou que ficou em dúvida se realmente deveria se ordenar padre devido a uma paixão. Após a sua ordenação, em algum momento, você pensou em deixar o sacerdócio?

PADRE FÁBIO DE MELO: Na época eu ainda não era padre, então eu pensei em não chegar a ser. O conflito foi antes de ser padre e, após, nunca houve uma situação que me fizesse pensar em deixar o sacerdócio. Eu sempre preciso deixar de ser como fui ontem, porque o sacerdócio, o casamento ou toda e qualquer decisão que a gente queira que seja definitiva precisa ser renovada diariamente. Então, o modelo de ontem não nos serve para hoje, é preciso buscar a maneira mais coerente de ser agora.

LINHA ABERTA: A síndrome do pânico é um transtorno que você teve há algum tempo e lhe fez estar mais recluso, reservado. Como você está hoje? Quais foram as razões que te fizeram sofrer dessa doença e quais os conselhos que você dá para as pessoas superarem esse problema?

PADRE FÁBIO DE MELO: A síndrome do pânico é uma doença que pode ter pode ter origem em vários motivos. Quem tem algum sinal dessa doença precisa procurar um mé­dico e não um padre. Eu, a partir da minha ex­periência, depois de medicado e cuidado pelo médico, comecei a tentar identificar em mim quais eram os motivos que causaram aquela doença. Eu identifiquei que as razões estavam muito ligadas ao meu jeito de viver, ao excesso de trabalho e obrigações, e também devido ao pouco espaço para o cultivo pessoal. A minha vida era muito corrida, eu estava muito ligado a um ativismo. Então, após eu tomar uma medicação que me reequilibrou, eu passei a tomar decisões, mudei algumas coisas na mi­nha vida e isso foi absolutamente necessário para que eu vivesse menos escravo daquela doença. Eu não acredito que a síndrome tenha ido embora, pois de vez em quando ela me dá uns indicativos de que está aqui, mas não com aquela intensidade. Portanto, eu não tenho dúvida de que toda e qualquer pessoa que sentir algum indício que está com síndrome do pânico, a primeira coisa que deverá fazer é procurar um médico e, logo em seguida, procurar por ela mesma, além de ouvir e descobrir o que lhe adoece.

LINHA ABERTA: Como você vê essa briga de religiões que existe atualmente, na qual elas disputam os fiéis a qualquer custo e fazem até mesmo um grande marketing para atrair mais adeptos?

PADRE FÁBIO DE MELO: Nós estamos na era da imagem, do marketing e da democratiza­ção da comunicação, onde cada pessoa tem o direito de ter em suas mãos um mecanismo de divulgação de si. Portanto, numa época em que a propaganda se tornou tão importante, pois as pessoas hoje fazem propaganda de si mesmas, é natural que as religiões queiram se utilizar desses recursos também. Agora, eu não tenho crítica a fazer nesse aspecto porque eu não me sinto síndico da eternidade ou uma pessoa autorizada para criticar as escolhas dos outros, no que diz respeito a fazer pro­paganda de si. O que eu acho, em se tratando de religião, é que a propaganda pode até levar as pessoas para a igreja, atraí-las, mas não será capaz de fazê-las ficar. O que fará isso é a experiência que elas terão por lá. Se o pastor ou o padre não estiverem pautados numa coerência pessoal, em pouco tempo, as pessoas vão perceber que ali não há verdade. Por isso, nesse tempo de tanta facilidade em fazer propaganda, como líderes religiosos, nós precisamos nos voltar para a consistência da nossa experiência com Deus, que não pode ser fútil ou apenas uma imagem, mas deve ser alicerce, essência e fundamento.

LINHA ABERTA: Você tem um grande número de seguidores nas redes sociais, mais de 21 milhões só no Instagram. São pessoas de várias religiões que te admiram e simpatizam com você cada vez mais. Você acredita que conseguiu atrair seguidores para a Igreja Ca­tólica com o seu jeito alegre e descontraído?

PADRE FÁBIO DE MELO: Eu confesso que toda vez que utilizo as minhas redes sociais é para o único objetivo: fazer bem ao coração de quem me lê ou me escuta. Se isso vai provocar algum retorno à Igreja será uma consequência, pois o meu objetivo primeiro é fazer o bem e promover a bondade. Eu acho que pecado é toda e qualquer situação em que a bondade não participa e o meu grande desejo é esse, expulsar o mal do mundo. Se com uma fala que eu digo ou uma frase que escrevo eu consigo fazer isso, já valeu ter criado aquele conteúdo.

LINHA ABERTA: As pessoas enfrentam hoje vários problemas que já poderiam ter evoluí­do e não mais serem motivo de conflito, como o racismo, o preconceito, a briga religiosa, o feminicídio e outras questões. Apesar de tudo isso ainda acontecer, você acredita que a hu­manidade irá evoluir e superar tais questões?

PADRE FÁBIO DE MELO: Heráclito, o filósofo grego, dizia que não se banha duas vezes na água do mesmo rio, pois o rio é sempre um outro, sempre novo, o remanso renova. Eu acredito que a humanidade caminha assim também, em remanso de evolução. É claro que nem todo mundo vai no mesmo remanso, alguns estão mais lentos no processo, às vezes regridem, pois não há garantia que o movimento terá sempre a mesma velocidade para todos. Racismo, preconceito, homofo­bia, a pior de todas as vaidades que é um ser humano se considerar melhor que o outro pela condição social ou pela escolha religiosa e tantas outras chagas dentro da sociedade, tudo isso é abominável. Eu sonho com uma evolução que nos faça compreender de que nós somos todos humanos, só isso.

LINHA ABERTA: Como você vem enfrentando esse período de isolamento social ocasionado pelo coronavírus? Você acha que esse tempo de reclusão servirá para as pessoas refletirem sobre vários temas, para melhorar em alguns aspectos?

PADRE FÁBIO DE MELO: Eu estou vivendo esse período de pandemia com algumas facilidades e dificuldades. Facilidades por estar num lugar que me proporciona mais li­berdade, eu moro na zona rural, então eu não vivo esse confinamento da cidade. Dificuldade, porque eu estou em conflito, assim como a humanidade, eu estou vivendo as restrições humanas, eu estou enfrentando o desafio de me reinventar todos os dias. Eu não tenho uma visão romântica sobre o resultado da pandemia em nós, eu não acho que ficamos melhores porque sofremos, mas eu acho que podemos ficar melhores porque sofremos. Eu não acho que é uma imposição, não acho que, necessariamente, as pessoas ficarão melho­res, porque quem não quiser ficar melhor já decidiu por isso antes mesmo da pandemia, já passou por dificuldades e não encontrou nelas motivos para uma transformação. Então, eu não acredito que será agora que isso magicamente acontecerá. Eu acredito que o momento é propício e fecundo para muitas transformações pessoais e espero que a gente não perca essa oportunidade e não sofra tudo isso em vão.

LINHA ABERTA: Você é um apaixonado por viagens, sempre compartilha as suas expe­riências nas redes sociais, inclusive quando está em Orlando e vai aos parques da Disney. Quando começou essa sua preferência pelo país americano? O que você mais gosta de fazer por lá?

PADRE FÁBIO DE MELO: As primeiras vezes que eu estive nos Estados Unidos foram a trabalho, para realizar alguma missão a con­vite dos brasileiros ou hispânicos que moram no país. Então, sobrava pouco tempo para o lazer. Eu comecei a ir mais aos Estados Unidos para passear e aproveitar há dois anos, onde eu construí um grupo de amigos que me fez muito bem, eu me sinto em casa quando estou no país e gosto das aventuras dos parques (ri­sos). Eu costumo dizer que “há gritos que nós só podemos dar na Disney”, então precisamos ir aos parques de vez em quando. A gente tem o direito de dar esses gritos.

LINHA ABERTA: Você tem algum sonho que pretende realizar no futuro? E quais os seus próximos projetos?

PADRE FÁBIO DE MELO: O meu presente é tão presente em mim que pouco tempo me sobra para pensar no futuro. Eu nunca fui um homem que alimentou sonhos futuros. Eu sempre gostei de olhar para o momento presente e de viver o que ele me sugere. Claro que existem algumas coisas que eu gostaria de realizar. Musicalmente falando, eu tenho alguns projetos que, de vez em quando, retor­nam ao meu coração e eu fico alimentando. Mas, nada que eu pontue no meu calendário e fale “eu quero fazer isso”, não. Mesmo por­que, muitos desejos só nos visitam e depois passam. Então, eu prefiro amadurecer. Eu sigo muito o conselho do poeta Carlos Drummond de Andrade que dizia: “convive com o teu poema antes de escrevê-lo”, e eu parafrase­ando diria: “convive com o teu sonho antes de querer realizá-lo”. E essa regra é tão válida que, às vezes, a gente convive com o sonho e descobre que não devemos realizá-lo, porque se o realizarmos não será um sonho, mas um pesadelo.

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