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Inquietude é fundamental

Texto de ARMANDO CORREA DE SIQUEIRA NETO

Não há evolução sem movimen­to. A natureza, em constante alteração, é o símbolo maior da necessidade de ação — o verbo –, o vento que sopra, o rio que corre, o sol que faz amanhecer o dia e a beleza do poente dando lugar à escuridão e à formação dos sonhos na incessante vida interior do universo psíquico. Faço, logo vivo. Vida em progresso é a dinâmica do vaivém, do sobe e desce, enfim, da força que faz e acontece e também trans­forma feito uma inquietude fundamental à própria existência, tanto na aparente percepção cotidiana quanto na expansão do cosmos e no estonteante e imperceptível interior atômico.

Nada nunca para? Ciclicamente, nós nos inquietamos com quase tudo, e pomos à prova a urgência do movimento, dando-lhe o devido crédito através das incontáveis contradições com as quais convivemos. Provocações? Valorizamos, por exemplo, a perfeição e a imperfeição, o risco e a segurança, conforme nos apetece ao longo de um dado período, trazendo à tona o jogo das oposições que não apenas cria o equilíbrio vez por outra, mas agita as partículas do estado de ser, como ondas crescentes ao redor da pedra atirada ao lago da vida. Seguimos tendências comportamentais com a velocidade da luz que acende o desejo de mudar, não apenas por influência psicológica da manhosa propaganda (ainda que se valha da discreta incons­ciência), mas por essencial ânsia de atuação.

Tomamos os caminhos mais cômodos e me­nos trabalhosos, é claro, porém, quando espremidos pela emergência das questões, agimos na direção agudamente complexa, qual dedicar-se às exaustivas reflexões de caráter íntimo, ora mais robustamente, ora mais lenta e progressivamente.

Mas e a “imóvel” depressão, onde entra nesta história? Se o descanso (mesmo ativo) é a recuperação para mais movimento posterior, podemos ponderar acerca da depressão como um alerta evolutivo que se impõe em graus variados e, notadamente, um efeito que busca a modificação de um estado para o outro: o aviso que cresce à medida que não se alcança a devida intervenção sobre algo que não está em conformidade, um tipo de pressão inteligente a luzir em prol de alterações.

Note-se, contudo, certas deficiências neu­rológicas relacionadas à produção de substâncias químicas importantes na regulação do humor, mas, observe-se igualmente, que trata-se de um contingente pequeno (em números relativos) em relação à população mundial, como apontado pela Organização Mundial de Saúde.

Frustrações, tristezas e conflitos de toda ordem estão na base da maioria dos casos, assim assinalado desde os longínquos estudos das ciências psicológica e psiquiátrica. Logo, percebe-se a con­siderável presença do movimento em suas muitas manifestações.

Não obstante, vale pensar cuidadosamente a respeito da frequência com que empregamos a movimentação no dia a dia, talvez exageremos na carga, no tempo e na finalidade, quiçá dirigimos os nossos canhões do poderoso movimento às situações desfocadas, mal percebidas e, consequentemente, mal planejadas e pobremente aplicadas, gastando excessiva energia. Quem sabe? Só a reflexão sabe a resposta…

Então, apesar de vital a inquietude, não é necessária ainda mais inquietude a sobrepor-se. Requer ai uma boa investigação cujas ponde­rações façam assentar um bocado a poeira da agitação, pois o seu assentamento completo é impossível, visto ser sinônimo de inação, palavra formada pelo prefixo ‘in’ (negativo) + AÇÃO, do latim: actio, ato de colocar em movimento, de realizar. Ação é poder.

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