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Brasileiros imigrantes nos EUA o paradoxo da legalidade pela sobrevivência

RODRIGO LINS É MESTRE EM COMUNICAÇÃO, ESPECIALISTA EM LINGUAGEM AUDIOVISUAL, PROFESSOR UNIVERSITÁRIO, JORNALISTA EESCRITOR. DIRIGE A AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO, MARKETING E IMPRENSA MULTINACIONAL ONEVOX CREATIVE SOLUTIONS.

O presidente Trump anunciou que irá barrar a entrada de brasileiros e viajantes que passa­ram pelo Brasil por causa da pandemia de coronavírus. A decisão foi comunicada através de um decreto assinado e divulgado oficialmente pela Casa Branca. Nesse artigo o jornalis­ta, pesquisador e escritor, Rodrigo Lins, que é autor do livro “Internacionalize-se: Parâ­metros para levar a carreira profissional aos EUA legalmente”, que investiga a imigração durante os últimos cinco anos, explica a diferença de tratamento dado pelo governo americano aos imigrantes documentados e indocumentados – uma questão de sobrevivência.

Desde o anúncio da pandemia e posteriormente do pacote de salvação econômica feito pelo Presidente Donald Trump nos EUA, a comunidade imigran­te indocumentada, inclusive a brasilei­ra, sabia que passaria por momentos difíceis no território americano. Trilhões de dólares anunciados para ajuda de cidadãos e empresas nos EUA, com um único requisito para recebimento: esta­rem dentro da legalidade imigratória.

Embora dados recentes divulgados pelo jornal New York Times mostrem que 75% da mão de obra no setor agrí­cola americano seja de trabalhadores imigrantes indocumentados, as diretri­zes do Governo Trump para concessão de ajuda financeira a esta parcela da sociedade, que soma segundo números recentes 18 milhões de pessoas, foram claras: tolerância zero para indocu­mentados, inclusive para enviar ajuda financeira.

Na semana em que o décimo quinto avião com imigrantes brasileiros depor­tados dos Estados Unidos aterrissou no Brasil, centenas de outros também brasileiros legalmente residindo no país norte americano – portadores do Green Card – recebiam por correio ou depósito em conta os cheques com a ajuda anun­ciada pelo Presidente americano. Um claro paradoxo que prova a legalidade imigratória como fator sinequanon para imigrantes sobreviverem nos EUA não apenas durante esta pandemia.

Pouco mais de três meses após o isolamento social e fechamento do co­mércio imposto pelas cidades america­nas, os indocumentados seguem na linha de frente do desamparo das políticas públicas do Governo. Situação que empurrou aos estados a garantia de ajuda mínima a esta comunidade imigrante não autorizada a viver nos EUA.

O primeiro esforço de financiamen­to estatal para indocumentados teve início na Califórnia. Em Maio, imigrantes indocumentados afetados pela pan­demia começaram a receber auxílio financeiro. O governador do estado Gavin Newsom anunciou em abril o Disaster Relief Fund – fundo de auxílio a desastres de coronavírus – no valor de US$ 125 milhões para apoiar imigrantes indocumentados que não eram elegíveis para verificações de estímulos federais e benefícios de desemprego devido ao seu status de imigração.

O fundo combina US$ 75 milhões em doações estaduais com US$ 50 milhões de organizações privadas e es­pera-se que beneficie cerca de 150.000 adultos sem documentos, segundo o site do estado. Cerca de 150 mil imigrantes indocumentados vão receber o auxílio. O benefício único fornecerá US$ 500 em suporte por adulto, com um limite de US$ 1.000 por família.

Enquanto isso, a gestão de Donald Trump no Departamento de Cidadania e Imigração dos EUA, busca um resgate de emergência de US$ 1,2 milhões no Congresso americano. A justificativa do pedido destaca que a soma é para compensar a queda de receitas devido à pandemia. A agência governamental dos EUA responsável pela emissão de vistos e pedidos de cidadania é financia­da pelas tarifas cobradas aos imigrantes que pretendem viver ou trabalhar no país. Desde março, com o encerramento das fronteiras com o Canadá e o México e a redução dos fluxos migratórios, houve uma queda drástica nos pedidos, afirmou o órgão.

Esse cenário nos mostra que a reali­dade imigratória no país norte-america­no ficará, nos próximos anos, mais cara e menos tolerante com indocumentados. Um fator que precisa ser considerado, principalmente por brasileiros, antes de deixar o país rumo ao ‘sonho america­no’. O planejamento imigratório, antes considerado opcional por muitos, agora passará a ser fundamental para se evitar o naufrágio da iniciativa ou o abandono à margem da sociedade americana.

A legalidade do processo imigra­tório pautará a vida que o imigrante gostará de viver nos EUA. É preciso que o interessado em viver na américa con­sidere este passo como um investimento e não como gasto que pode ser evitado com entradas paralelas e ilegais pelas fronteiras do país. Uma decisão que pode, inclusive, salvar a sua vida e de sua família, enquanto o país se recupera da crise econômica e alto desemprego.

O endurecimento das leis de imi­gração dos EUA, o acordo de deportação com o Brasil e as mudanças de procedimentos que dificultam o conhecido “cai-cai” (ida pela fronteira) fizeram com que o número de brasileiros sem visto barrados no país norte-americano saltasse de 1.500, no ano fiscal de 2018, para 17,9 mil em 2019, conforme dados do Serviço de Alfândegas e Proteção das Fronteiras dos Estados Unidos. Números que não podem ser desconsiderados por aqueles que planejam arriscar-se.

Será também comum, principal­mente nos países latinos, que a crise eco­nômica, como em outras ocasiões, gere o sentimento de migração a qualquer preço ‘em busca de uma vida melhor’. Mas os fatos de hoje nos mostram que, se não de forma inteligente e planejada, este futuro será ainda mais incerto e mais perigoso do que se divulga clandestinamente.

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