cultureholidays
My Partner
Lytron

O mundo pós coronavírus

ÁLVARO LIMA, DIRETOR DE PESQUISAS DA BOSTON RESEARCH PLANNING AND DEVELOPMENT AGENCY (BPDA), FALA SOBRE O MUNDO PÓS PANDEMIA.

O mundo mudou com a pandemia do Coronavírus. Como esta mudança temporária vai afetar a vida das pessoas de agora em diante? Será que esta mudança será mais radical do que as vivenciadas depois de 11 de Setembro, da guerras e crises mundiais? Estas são as perguntas que fizemos a Álvaro Lima, diretor de pesquisa da Agência de Desenvol­vimento (BPDA). Álvaro supervisiona a pesquisa que ajuda a formar políticas públicas para o planejamento e o desenvolvimento econômico da comunidade. Ele é mestre em economia pela New School for Social Research. Veja as conside­rações do pesquisador sobre o mundo pós Coronavírus.

LINHA ABERTA: Álvaro, como pesquisador, como você vê a possibilidade do controle do coronavírus nos EUA e no mundo?

ÁLVARO LIMA: Sobre o controle do coronavírus nos Estados Unidos e em todo o mundo, eu penso que está bastante claro hoje que desde as primeiras experiências no primeiro país que foi a China, e depois na Coréia do Sul, Itália, Espanha, Inglaterra, é de que a única solução imediata para o con­trole é o distanciamento social até termos uma vacina, o que parece no momento a única solução de controle da contamina­ção. Ainda não se sabe com precisão como o vírus é transmitido, sua capacidade de contágio e mutações.

LINHA ABERTA: Eventualmente as coisas vão voltar ao normal. Como você acredita que será essa retomada às atividades?

ÁLVARO LIMA: Eu penso que vai levar bastante tempo para chegarmos ao que era o nosso normal. Hoje temos o novo normal. Acredito que o plano de reabrir a economia é baseado no entendimento do ciclo do coronavírus e que ainda não é bem entendido quando os especialistas falam sobre como achatar a curva. Uma coisa é achatar a curva e outra é ver como está o rabo grande da curva (the tale of the curve) e saber que leva bastante tempo para as coisas voltarem ao normal. Não está claro qual será a sequência que teremos para voltar à vida normal, apesar sabemos que será em fases.

Hoje, cerca de 50% dos negócios, os considerados essenciais, estão em funciona­mento. O problema é como voltar os outros 50% ao trabalho. Para abrir a economia precisamos saber quem está infectado, e para isso é preciso fazer o traçado do con­tágio, quem precisa ser isolado, quem está

imunizado, ect. A economia vai ser aberta por etapas, independente da vontade do presidente Trump, porque está é uma necessidade.

O grau de risco de cada setor é diferente e por isso esta abertura será baseada também nesse aspecto. Os últimos a voltarem a funcionar serão os ligados aos setores de eventos, shows, tudo que envolve grandes aglomerações. O serviço de hotéis e restaurantes vai precisar ser redesenhado para que as pessoas tenham segurança em frequentar. É um plano que está sendo desenvolvido e será um processo longo, estado por estado, cidade por cidade, e com certeza, em caráter experimental, e que será monitorado para que haja o controle do vírus e não tenhamos uma recaída.

LINHA ABERTA: O mundo mudou depois de 11 de Setembro. Será que o mundo vai mudar da mesma forma radical depois do novo coronavírus?

ÁLVARO LIMA: O mundo vai ser diferente depois desse vírus. Eu penso que de várias formas, esta pandemia é diferente de tudo aquilo que já vivemos, inclusive o 11 de Setembro, que foi um evento com começo e fim e, comparado com esse vídeo, foi fácil de controlar. Eu penso que a política americana depois do 11 de Setembro foi um desastre porque foi um erro declarar uma guerra mundial contra o terror, o que desestabilizou vários países, mas isso é uma outra questão. Eu creio que esse vírus vai ter uma experiência como o da gripe espa­nhola porque leva tempo até as pessoas (e ogoverno) a terem determinados compor­tamentos por questões de saúde.

Temos também a questão psicológica onde as pessoas se sentem seguras para te­rem uma vida normal. Em geral tem muita relutância a ter uma vida normal. Uma epi­demia não está no nosso controle. Este vírus surgiu na China em novembro/dezembro do ano passado e hoje, meses depois do fato, ainda não sabemos como controlar o contágio, e esse é um fator diferenciador de outras catástrofes mundais como furações, terremotos e crises econômicas.

LINHA ABERTA: Qual o perfil de uma sociedade que volta à retomada do cres­cimento depois de uma grande crise, usan­do como parâmetros as guerras mundiais, a grande depressão, as pandemias e a crise de 2008?

ÁLVARO LIMA: Eu espero que o mundo em que a gente volte a viver seja um mundo diferente. Que possamos aprender as lições geradas por esta pandemia. Para todo mundo que tinha dúvida de quão importan­te são questões como, por exemplo, o fato de ser um crime as pessoas não terem segu­ro de saúde quando sabermos que tem jeito de ter seguro de saúde para todos. O gover­no americano aprovou trilhões de dólares para socorrer as pessoas nos hospitais por causa do coronavírus. O fato de você ter pessoas em situação de desemprego e que precisam de ajuda. Ficou bastante claro que as pessoas precisam ter sua dignidade preservada. Aqueles que trabalham em hospitais e na área de saúde passaram a ser vistos como essenciais nesta nova realidade e isso valoriza o profissional de saúde.

Eu espero que o mundo que vamos viver daqui para frente seja um mundo onde possamos aprender com as lições do que estamos vivendo hoje. Precisamos que os estados mudem sua forma de gerir porque todas as desigualdades que existiam antes dessa pandemia estão aí para quem quiser ver.

Por exemplo, no início dessa crise se dizia que o vírus é democrático e ataca todo mundo, o que não é verdade. O vírus não ataca todo mundo, segundo dados e pesquisas que existem sobre o contágio. As pessoas que morrem do covid-19 nos EUA, em sua grande proporção, e em todas as cidades até agora, são afro-americanos, latinos, imigrantes, pessoas que já estão numa condição precária antes de acontecer esta crise da pandemia.

Espero que venha um mundo onde os estados, o governo e as pessoas tenham responsabilidade social, valorizem a vida e sejam co-parcipantes de um novo tempo. Que possamos ver esta nova realidade.

 

Share

Related posts