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Casamento – Relacionamentos Amorosos e Suas Crises

Como advogado de família há mais de 36 anos e trabalhando no atendimento a milhares de casos, pude verificar que as crises e os desentendimentos nos relacionamentos amorosos podem causar muitos problemas de ordem física ou psicológica, além de dificuldades financeiras. São comuns os casos de depressão, doenças cardíacas, baixa no sistema imunológico, prejuízos nos negócios, enfim uma série de problemas que mesmo que o casal chegue à separação, ou ao divórcio, estes sintomas ainda levam muito tempo para cessar. Mais não só: mesmo após o divórcio os filhos do casal ainda continuam sofrendo por bastante tempo, as vezes até a maturidade, os efeitos dos conflitos entre seus pais. Tudo isso pode perfeitamente ser minimizado, e muitas vezes evitado, desde que as crises conjugais sejam enfrentadas, tratadas, reduzidas ou contornadas. Entretanto, é preciso desmistificar o conceito comum de que “casais felizes não enfrentam crises”. Nada disso.

As crises são normais e derivam de inúmeras fontes, podendo ser previamente anunciadas ou surgirem de uma hora para outra, dependendo de alguns fatores. A maneira como se iniciou o relacionamento, as expectativas iniciais e suas fantasias, o nível de envolvimento amoroso do casal e a atração sexual recíproca podem ser fatores determinantes para se avaliar a intensidade da crise, a expectativa do prazo em que ela vai ocorrer e também a sua gravidade.  

Na dinâmica da vida moderna, são muito comuns os encontros amorosos pelo uso dos aplicativos digitais e, nesse caso, muitas vezes as pessoas mesmo sem nada saberem uma da outra, rapidamente progridem de um simples encontro descompromissado para um vínculo que pode envolver a decisão de morarem juntos. Nada contra a velocidade da decisão, mas é necessário ter prudência para se preservar.

Evidentemente, os riscos das decisões precipitadas, muitas vezes mal avaliadas, podem gerar situações imprevisíveis, havendo notícia, inclusive de violência entre o casal, não sendo incomuns casos de tentativa de golpe financeiro e até venda de bens em prejuízo de uma das partes. Porém, não se pode ter uma visão alarmista porque em muitos casos os relacionamentos iniciados por aplicativo também podem dar muito certo e a mídia se encarrega de divulgar esses casos com bastante frequência.

Na loteria do amor não existem números marcados. Porém, nem tudo depende apenas da sorte. Estudos mostram que são muito menos frequentes as crises quando o relacionamento se inicia em situações onde as partes já se conhecem previamente, como por exemplo, no ambiente de trabalho, cursos ou faculdade, nas igrejas ou encontros religiosos, em grupos de interesse comum, tais como aulas de arte, dança, esporte, filosofia, culinária, leitura, etc.

A própria existência de um grupo relacionado com o novo casal reduz significativamente a falta de informações a respeito da conduta de ambos, do caráter e também do histórico quanto aos relacionamentos anteriores.

Na verdade, há um novo formato para a mesma e antiga história: o encontro de duas pessoas que naquele momento mágico sentem borboletas no estomago, um olhar diferente e aquela intuição de que alguma coisa “bateu” com a outra pessoa.

Os neurocientistas explicam que tudo isso é produto da chamada “química do amor”. No interior daquelas duas pessoas que acabaram de se encontrar ou, às vezes, já haviam se encontrado muitas vezes antes, uma enxurrada de hormônios dá sinal de vida e decide bagunçar com tudo, fazendo com que aquele casal passe a pensar ininterruptamente um no outro, a desejar aquela companhia incessantemente até que a exigência constante da presença una os apaixonados, sempre com a promessa de que aquela união irá durar para sempre.

Contudo, todo esse fascinante e misterioso processo de aproximação e acasalamento não está imune às crises previsíveis de adaptação, pois afinal são duas pessoas muito diferentes, com suas histórias de vida individuais, experiências e percepções próprias que, invadidas pela química do amor, resolvem se unir e viver a sua própria, única e empolgante história de amor, baseados na sua própria intuição de que tudo vai dar certo.

Deve-se convir que é muita coisa para ser harmonizada, ajustada e compatibilizada, sendo certo que, na maioria dos casos, haverá ruídos ou crises durante esta caminhada. Evidentemente, caso houvesse antes da união o aprofundamento do conhecimento recíproco, ou a convivência com os respectivos grupos familiares ou sociais onde o outro está inserido, seria possível a melhor avaliação dos valores, princípios, caráter e conduta um do outro.

Porém quase nunca é assim, porque a tal “química do amor”, da mesma forma que atrai duas pessoas de maneira definitiva, ao mesmo tempo e pelo mesmo efeito das substâncias que produz, reduz a capacidade de avaliação dos riscos e perigos envolvidos naquela situação.

É muito comum se ouvir durante uma briga alguém afirmar: “não foi com essa pessoa que eu casei”, “eu não conhecia essa pessoa”… Mas existem boas notícias, pois em condições normais, essas crises, em maior ou menor escala, podem ser superadas e o melhor: podem solidificar o relacionamento e torná-lo mais prazeroso.

Por outro lado, existem relacionamentos afetivos que mais parecem um vício, em que há brigas constantes, permanentes provocações de ambas as partes, onde até os próprios filhos sugerem que os pais se divorciem e, por mais incrível que pareça, muitas vezes duram anos e até décadas sem qualquer sinal de ruptura e o que é pior: sem a menor sombra de solução. As pessoas que vivem esta situação parecem se acostumar com o sofrimento e se habituam aquele estilo de vida, com violências verbais, discussões públicas e constantes desacertos e discórdias, uma verdadeira montanha russa emocional.

Durante muitos anos, a “solução” sugerida para estes casos quase sempre foi o divórcio e as poucas tentativas de terapias clássicas ou aconselhamentos apresentavam pequenos resultados efetivos, infelizmente.

Porém, atualmente existem muitas alternativas para minorar o sofrimento desses casais, assim como da família como um todo, possibilitando que todos vivam harmonicamente. Modernas abordagens de treinamentos sobre felicidade conjugal, uso crescente de recursos da neurociência e, até mesmo, coaching de relacionamento são ferramentas acessíveis para casais que, muitas vezes, precisam de apenas um pequeno movimento para saírem do verdadeiro tormento que seus respectivos relacionamentos se tornaram.

Buscar ou aceitar ajuda são passos muitos importantes, mesmo quando tudo parece estar perdido! É claro que existem casos de desajustes doentios que devem ser tratados como tal e trazem enormes riscos para os envolvidos. Caso não recebam cuidados especializados, inclusive psiquiátricos, mas este tipo de situação representa uma pequena parcela; a esmagadora maioria das crises conjugais tem solução! O psicólogo americano John Gottman, professor PHD da Universidade de Washington e autor best seller do New York Times, com milhões de livros vendidos em todo o mundo, ensina em sua obra “Sete passos para o casamento dar certo”, um minucioso roteiro, cuja aplicação é capaz de: (i) melhorar incrivelmente a comunicação entre um casal em crise, aspecto fundamental para a retomada do diálogo, que é o fator decisivo para a reconstrução do relacionamento; (ii) fazer cessar ou reduzir consideravelmente a hostilidade entre o casal, permitindo a recuperação do respeito mútuo, elemento essencial para que o diálogo possa ocorrer em bases construtivas; (iii) restaurar os melhores sentimentos e a alegria que levaram aquelas pessoas a se unirem, sendo, nessa fase, muito utilizadas as memórias afetivas dos bons momentos vividos pelo casal; e, finalmente, (iv) ensinar um caminho de felicidade real para o futuro, com novos planos e projetos de engajamento com vistas a solidificar o vínculo restaurado.

Nunca é demais lembrar que casamentos felizes tem enormes vantagens para os parceiros, já existindo estudos sérios que demonstram que nos casamentos felizes as pessoas vivem em média oito anos a mais, assim como há relatos de que as crises conjugais e os conflitos decorrentes do divórcio aumentam as doenças, principalmente, enfartos e outros graves problemas de saúde. Como se não bastasse isso tudo, como a cereja do bolo, existem comprovações de que a restauração da felicidade no casamento reduz drasticamente os problemas financeiros do casal. E, se ainda fosse pouco, é bom destacar que os casamentos felizes melhoram o rendimento escolar dos filhos e produzem gerações de jovens que também terão casamentos mais felizes.

Concluindo, pode-se afirmar com segurança que crises conjugais, além de, na imensa maioria, poderem ser tratadas e superadas, se tornam excelentes oportunidades de fortalecimento dos melhores sentimentos entre o casal, permitindo que o casamento siga em frente, duradouro e feliz. Sempre é possível construir um novo futuro, mesmo que no auge da crise isso pareça absolutamente impossível. Basta acreditar que o amor é capaz de vencer qualquer obstáculo.

Luiz Fernando Gevaerd é advogado de família, palestrante e escritor. Especialista em relacionamentos conjugais.

Informações sobre o tema pelo E-mail: gevaerd@gevaerd.com.br.

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