Lytron
My Partner
cultureholidays

Audácia para Viver

Já passava do meio dia e eu ainda estava ali deitada, meu corpo doía, parecia que tudo dentro de mim estava quebrado, solto, destruído. Foram tantas dores, decepções, perdas que não aguentei. Guardei dentro de mim mais escuridão do que luz e agora estava assim, deprimida, olhando o mundo ora através do vidro da janela ora através da tela do meu telefone.

Quando olhava para o mundo lá fora, para a vida do outro, para a felicidade estampada no Facebook, para as vidas perfei­tas no Instagram e olhava para minha, para minhas dores, limitações, problemas, medos, parecia que eu tinha sido a única pessoa a fracassar na vida. Que tudo havia dado certo para todo mundo, menos para mim, que todos haviam en­contrado um caminho e só eu, pobre eu, estava abandonada, fracassada, perdida.

Então mais e mais fui me fechando, sufocando meus sonhos, calando minha voz e minha alma e vivendo por viver. Mais e mais minha pele foi perdendo o viço, meus olhos o brilho, mais e mais a vida foi se tornado um peso, um peso insus­tentável. Mas, estranhamente, enquanto meu corpo gemia de dor, porque a inercia, a inveja, a ansiedade, a depressão, causam dor física, minha alma começou a gritar por vida e cada vez mais eu percebia que precisava encontrar uma forma de voltar a viver, de acreditar, de sonhar e especialmente de re­alizar. A vida não podia ser só aquilo, eu não podia passar os meus dias admirando, desejando, invejando a vida do outro pelas mídias sociais, eu precisava encontrar um caminho.

Eu precisava mais do que isso, mais do que encontrar um caminho, eu precisava construir um novo caminho, um caminho que me levasse a meu verdadeiro eu, onde minha identidade pudesse ser restaurada e que de alguma forma a vida voltasse a pulsar nas minhas veias, que o meu sorriso, ao invés da raiva, dor, revolta, voltasse a ser a minha marca registrada.

Confesso que quanto mais eu pensava na possiblidade e na necessidade de deixar essa flecha de luz e vida entrar dentro de mim, mais ansiosa eu me sentia, afinal para sair da depressão, eu precisaria antes de tudo sair da minha zona de conforto, e isso era assustador. Fiquei semanas, meses, ensaiando minha volta triunfal a vida, até que percebi que não era assim que funcionava, que não seria mágico, mas sim instável, um passo a cada dia, um dia atrás do outro. Percebi que eu precisava de ajuda, de inspiração e coragem.

DE ATITUDE!!!

Decidi então primeiro buscar ajuda espiritual para ajudar a organizar todo o caos que estava dentro do meu espírito, depois aceitei que mais importante que ir ao cabelereiro era ir ao psiquiatra. Definitivamente havia algum desequilíbrio químico na minha mente e eu precisava ser generosa comigo mesma e não me culpar ou me envergonhar por ter adoecido emocionalmente.

Aceitar que eu precisava de ajuda espiritual, mental e psico­lógica foi o início da construção desse meu novo caminho. Resolvi assumir para o mundo que quando eu recusava convites para tomar um café, ir a festas ou simplesmente não atendia o telefone eu não estava ocupada, trabalhando muito ou com agenda cheia, como fazia questão de dizer. Eu estava fugindo da vida, do movimento, das companhias, eu estava doente, eu estava em depressão.

A coragem para buscar ajuda, reconhecer que algo muito sério estava acontecendo comigo, aliada à minha atitude ao decidir enfrentar essa guerra, me trouxe até aqui. Aqui onde conto uma nova história, onde quem está ao meu redor pode ver, tocar e até seguir comigo no caminho que construí para me reinventar. Onde resgatei minha identidade focando nos meus talentos e nas habilidades e não nas minhas limitações e imperfeições.

Conscientemente decidi assumir a responsabilidade de lutar, vencer e realizar sonhos para inspirar, motivar e mostrar não só para minha geração, mas também para as gerações futuras, que é possível, sim, nos sentirmos plenos, cheios, realizados, mesmo e apesar do fantasma da depressão.

Que a depressão, como tantos outros transtornos psicoló­gicos, não definem quem eu sou, mas me provoca a colocar para fora uma força extra que eu antes desconhecia que existia dentro de mim. Que não sou fracassada porque tenho essa ou aquela limitação, mas porque desistir de lutar, porque sinto pena de mim, porque deixei o orgulho e a altivez me impedir de humildemente gritar por socorro.

Uma das coisas mais libertadoras que descobri nessa minha nova caminhada foi perceber claramente que a vida de quem está longe ou de quem está perto não é perfeita, que todo mundo vive enfrentado seus demônios, que a felicidade nas mídias sociais é fake, mas também é real, e que a diferença do vencedor e do perdedor não é a ausência da dor, mas a habilidade de seguir e ainda ser feliz mesmo e apesar da dor.

Então eu por aqui, apesar de carregar uma coleção de dores na minha alma, sigo sonhando, realizando e inspirando, porque há muito tempo descobri que para viver, coragem só não basta, é preciso ter audácia. E eu tenho audácia, e você?

Share

Related posts