Uma Humanidade Raptada Pela Tecnologia

Estamos vivendo hoje num mundo dividido, eu chamaria de mundo real e mundo virtual. As últimas décadas tem sido marcada por profundas modifi­cações na qualidade relacional do ser humano que infelizmente tem sido raptado de sua essência para a coisificação. A tecnologia muito em voga hoje tem sido especialmente na comunicação um recurso de grande valia para a humanidade. Eu diria que este é o lado positivo das conquistas, especialmente na área da comunicação. É perfei­tamente aceitável que a comunicação entre as pessoas vem se tornando cada vez mais veloz, porém vem construindo uma humanidade desprovida de sua beleza enquanto ser humano. Hoje a comunicação está bem mais virtualizada, o que assalta a beleza da vida interpessoal. Recentemente eu sai de meu con­sultório no horário do almoço e fui para a praça de alimentação num shopping e percebi numa mesa bem à minha frente uma família, digo porque sinalizavam ser da mesma família, o pai, a mãe e três filhos. O impressionante é que todos estavam co­nectados em seus telefone e pude perceber que não se falavam entre si, somente o essencial. Como analista compreendi que naquele momento o mais importante para eles era o que se passava no celular. E em minha análise, pude observar que um momento único na vida daquelas pessoas passava sem que elas percebessem e que momento como aquele nunca mais voltaria. E que o mundo não para para você dar atenção ao seu celular, ou seu computador e com isso não percebemos que o que de fato vale a pena ser vivido e curtido são as pessoas, que são insubstituíveis. Os smartfones, computadores, Ipads, são atua­lizados constantemente, enquanto as pessoas, muito especial­mente na família, estão sendo aprisionadas em suas conexões cibernéticas, e envelhecem e morrem sem que percebam.

As conquistas na área tecnologica tem trazido a humanidade benefícios in­calculáveis, mas não estamos atentando para o que é construtivo e saudável para nós mesmos, podemos ver que a dita­dura do excesso vem causado perdas irreparáveis, tanto na área financeira, como nas demais, não sendo necessá­rios abordar aqui, porque de fato as perdas são inumeráveis.

Podemos perceber hoje o que eu chamaria de Transtorno na Qualidade Relacional Humana, o ser humano por ser gregário, ou seja, por ter essa neces­sidade de estar conectado com alguém, se utiliza de uma caixinha que emite cores e sons que de certa forma dispara no cérebro a sensação de saciedade com uma mix de adrenalina, que desagua na mente o estímulo da ansiedade generali­zada. São construções de neuroses pela angustia da escolha das multiformes estimulações de suas conexões. Hoje observamos o ser humano raptado de seu semelhante para um aprisiona­mento ditatorial dos meios móveis de comunicação.

O ser humano real em suas cone­xões com seus semelhantes está em fase agonizante de extinção. Em muitos lares é bem comum numa sala a TV está ligada mais cada membro da família está interagindo com seu celular. Com isso estamos percebendo cada vez mais a extinção do amor, do diálogo tete a tete. Estamos assistindo um mundo globali­zado de forma doentia. Daí pessoas mais preparadas para lidar com máquinas do que com o ser humano que tem uma mente pensante. Cada ser humano enquanto ser social, busca seu território para consolidar suas conquistas, sua plenitude no palco de sua existência biopsicossocial, mas estamos cada vez mais sozinhos e a solidão pode nos levar ao impulso de morte. O Conselho Mundial de Saúde está preocupado com o número cada vez mais crescente de pessoas que tiram sua própria vida, e um objeto (como o telefone, por exem­plo), por mais moderno que seja jamais substituirá a interatividade de um ser humano.

Todos nós enquanto gregário temos o que posso classificar de quatro necessidades básicas sociais. Em primeiro lugar, nossa necessidade de sermos conhecidos. Ninguém na sua essência normal gosta do anonimato, daí a necessida­de da busca por grupos sociais, para ter a sensação de ser conhecido naquele grupo nas mais diversas redes sociais, que muitas vezes nos leva a tantos prejuízos biológicos, sociais e etc.

Em segundo lugar, as pessoas sentem a neces­sidade de serem integradas, de pertencerem a uma equipe ou grupos nas redes sociais. Infelizmente hoje muitos com uso exagerados de seus celulares vem gra­dativamente assassinando a sua essência mais nobre como ser humano, perdem a mais rica oportunidade de contemplar o belo no seu trajeto da vida.

Em terceiro lugar, as pessoas querem ser aceitas. Todos nós necessitados ser aceitos pelo outro, porém infelizmente, hoje o ser humano está sendo substituído pelo objeto, à medida em que nos permi­timos ser raptados de nós mesmos, temos a facilidade de rejeitar o outro, muitas vezes causando dores ini­magináveis. Em quarto lugar, queremos ser amados. Podemos observar que esse gigante da alma chamado amor está em extinção entre os seres humanos, porque embora me comunique tecnologicamente com facili­dade e rapidez impressionante, da mesma forma nos afastamos da figura mais nobre que é o ser humano.

Assim caminha a sociedade, e se olharmos para família, que é a célula máster da sociedade, podemos assistir em muitos casos a destruturação, o desapego, a intolerância, a violência e outras formas negativas no único lugar onde deveria existir, amor, paz e outras formas bela que alimenta com qualidade saudável a beleza do ser humano. Vivemos hoje território social onde o relacionamento humano se estabelece de forma deficitária, indireta; cujos contatos se constroem em sua forma mais comum sob a régia da tecnologia. Estamos assistindo à gradual coisificação do ser huma­no, num processo franco e contínuo do esvaziamento da singularidade do ser, aprisionando o num território do ser social invisível.

Estamos a caminho da extinção se nos permitir­mos a ditadura do excesso de coisas com o desprezo do outro. Necessitamos usar a mais nobre função de nossa humanidade, a compreensão e aceitação do ou­tro. Urge que especialmente nas famílias diariamente e com habilidade usemos a arte de treinar a argumen­tação da convivência saudável com os membros da família, deixando de lado o objeto e nos permitindo doar-nos nunca convivência real, dialógica, empá­tica, simpática e carismática. Com isso, certamente construiremos uma família capaz de sarar as possíveis feridas ocultas de uma sociedade que parece caminhar para sua autoflagelação neurótica.

O relacionamento humano hoje vivência uma cri­se aguda de consequências imprevisíveis à medida que a mecanização do mundo prossegue aceleradamente, a relação humana fica fragilizada, retrógada deforman­do-se em direção a sua própria mecanização. Aumenta a tendência a ver o outro como objeto, instrumento de sua própria satisfação. Como disse antes, vivemos em um mundo globalizado, conectado em todos os acontecimentos em tempo real, cada vez mais descobrimos coi­sas novas entre o céu e o mar e a cada dia que passa nos afastamos mais e mais de nossos pares, que passam com suas belezas impercebíveis.

O ser humano é tipicamente relacional, assim sendo estamos sempre em busca do outro, mas onde ele está? As vezes a nossa frente ou do nosso lado, porém distante em suas interações, uma típica ausência presente necessitamos do equilíbrio psicossocial, uma tarefa difícil na sua conclusiva.

Todo ser humano tem sua singu­laridade que deve ser aplaudida, cada um com sua maneira de ser no mun­do, suas ideias, nos mais diversifica­dos pensamentos, que necessita ser ouvido e acolhido pelo outro, como disse antes nada substitui a presença do nosso semelhante.

Nesta matéria penso em seguir a linha de que para viver bem e gostar da vida, é ser mais contem­plativo, não nos permitir que que a tecnologia nos adoeça. Amor também ser o sentimento tal como a lei da gravidade, equilibra a vida em grupo, que quero aqui chamar de família nuclear. Necessitamos ver nossos filhos crescerem, serem participativos de cada momento singular no trajeto de nossa existência. Os estímulos dos sons dos milhões de cores das rápidas conexões com o mundo pela tecnologia da cibernética nos tira o mais nobre que possuímos, a vida em sua forma nobre de ser. A humanida­de grita por acolhimento, lembrando que um objeto jamais te acolherá só o ser humano tem essa habilidade.

Josué Silva é psicólogo, psicanalista com MBA em Planejamento Estratégi­co de Negócio e Pessoas. Informações sobre o tema pelo E-mail: psiqueclini­ca@uol.com.br.

Share

Related posts