A Síndrome da Distância

Quando a gente muda do lugar de onde veio, começa a sofrer de uma síndrome estranha e pouco divul­gada, mas ela existe. Eu atesto. A primeira vez que vi, foi na minha filha mais velha, uma das que apresenta sintomas mais fortes da doença. Estávamos num passeio delicioso, na Disney, quando vimos a foto de uma pizzaria em São Paulo na comemoração do aniversário da minha irmã. Todos ao redor da mesa, felizes, aqueles restos de pizza espalhados, copos e talheres sujos. Minha menina olhou devagar, silenciosamente e, de repente, com o olhar característico da síndrome, disse: “Eu queria estar lá, mãe”. Era isso. O início. Eu sorri, em­pática, e respondi: “Eu sei, mas, olha, o castelo da Cinderela…” E seguimos.

Depois, aconteceu de novo, vendo uma foto da formatura dos amigos da escola. Eu nem ia mostrar, mas ela viu não-sei-como. Segurou o celular como quem segura a vida. Olhou, ampliou a foto, voltou, me olhou, e mandou: “Queria-ta-lá…”. – “Eu sei, mas, olha, o mar”. E seguimos, de novo. Acontece que os sintomas ficam mais intensos; e sempre dian­te de imagens arrebatadoras. Estranhamento. Dor. Confusão. Tristeza. Saudade. Foi assim também num Skype que fizemos no almoço de domingo.

No chá de bebê da minha sobrinha que vem aí e numa outra ligação, que minha amiga atendeu no parquinho do prédio que morávamos. Mais recentemente, quando uma prima, minha comadre querida se casava, foi que eu entendi, e, por fim, mudei a minha for­ma de reagir à síndrome. A gente estava em casa, fazendo dobraduras, quando consegui­mos falar com a noiva! Ela apareceu na tela, maquiada, de véu, muito mais linda do que eu saiba dizer, e eu segurei o choro.

Minha filha parou de fazer a orelha da dobra do cachorro, e ficou vendo a conversa que se encerrou rapidamente, quando então, ela cochichou no meu ouvido: “Mãe?” – “O que foi, filha?”- “Eu queria tá lá”. Pronto. Era isso. Senti meu coração se despedaçar em mil. Um soco no estômago, fortes dores e uma sensação gigante de impotência. A síndrome se apresentava na sua completude, e, dessa vez, eu a olhei com todo amor possível, e dis­se, apenas: “Eu também, filha. Eu também…” Choramos juntas, tomadas por essa dor sem nome, maior que saudade, que a síndrome do “queria-tá-lá” causa.

Tive vontade de dizer para ela que já vi­nha vivendo disso, há mais de ano. Eu queria tá lá quando meu irmão chegou de viagem. Eu queria tá lá quando todo mundo foi tomar um sorvete naquele domingo. Eu queria tá lá quando minha melhor amiga correu para a maternidade, depois de contarmos juntas, por whatsup, os minutos que duravam o intervalo de cada contração. Eu queria tá lá pra sentir o cheirinho do bebê lindo e gorducho que ela teve. Eu queria tá lá na festa da família. Eu queria tá lá no aniversário da minha mãe. Eu queria tá lá na formatura do meu sobrinho, e nas bodas dos meus tios. Eu queria tá lá quando meu pai foi interna­do. Quando saiu do hospital, e minha irmã mandou mensagem no whatsup: “Alguém pra me ajudar a tirá-lo do carro?” Eu queria tá lá. Eu queria dizer: “Eu! Tô chegando em 5.” Mas eu não tava e parece que o porteiro ajudou… Eu queria tá lá mais vezes do que eu saiba dizer, mas, estranhamente, sigo escolhendo estar aqui.

Porque os sintomas dessa síndrome são assim, agudos, mas breves. Aguns minutos depois, menos de uma hora, a vida segue e você de fato acha o mar bonito. Questiona quando esse Zuckemberg vai enfim criar o teletransporte e chega a brigar um pouco com a vida: “Poxa Deus, num mundo de tempestade, furacão, como chama o outro? Tornado! Aurora boreal gente, aquelas cores tudo dançando no céu, como é que a gente não pode ir até ali com a força do pensamen­to, se o coração pode? Como?” Eu não sei.

Mas seguimos ensinando e aprendendo, que a vida não é linear. Nossas escolhas nem sempre são coerentes e, sobretudo, que a vida é assim, viva. A gente pensa e repensa, vai, volta, duvida e acredita. A gente faz acordos internos, externos, escolhe as perdas e foca nos ganhos. A vida é assim, completamente impermanente, capaz de nos arrebatar com picos de alegria e profunda tristeza, em um só dia. Nossos lugares internos são muitos, e, nesses, estamos sempre, indiscutivelmente, juntos.

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