Os Desafios do Mundo Digital

Quem nunca perdeu a noção do tempo apenas por checar uma mensagem no celular? Um simples text e quando se dá conta, meia hora já passou por ter lembrado do aniversário do amigo, pelos likes nas fotos de uma viagem ou pelo video imperdível. O mundo virtual é tão atrativo que relativiza o tempo e o espaço. A Era da Informação sem dúvida está deixando uma marca em muitas gerações: a digital. A combinação dos avanços tecnológicos com a integração mundial ampliou as fronteiras de tal forma que o wifi está sendo considerado sinônimo do ar que respiramos. É inegável os grandes benefícios gerados pela evolução da tecnologia para a humamidade nas diversas áreas da saúde, transporte, comércio, comunicações etc., mas grandes transformações trazem também grandes desafios que podem custar caro. A velocidade e o dinamismo das informações cria um ambiente de imediatismo, maior competitividade e muitas vezes de impessoalidade. As inúmeras possibilidades de comunicação que ao mesmo tempo estimulam a independência e a liberdade, contraditoriamente podem levar à compulsão e à dependênca, se não for praticado com bom senso. O tiro pode sair pela culatra se não houver equilíbrio. O efeito sobre as pessoas já virou caso de estudo por médicos, psicólogos e educadores que tentam identificar e avaliar quais são as consequências psicológicas e físicas à exposição em demasia aos computadores, videogames, celulares, etc. Até agora a dependência não é considerada uma enfermidade mas pesquisadores encontraram alterações no cérebro de dependentes de equipamentos.

A ligação entre importantes neu­rotransmissores não estava equilibra­da e por isso muitos dependentes de smartphones sofrem consequências que podem ser trabalhadas com uma tera­pia comportamental. “O uso em demasia do computador reduz a capacidade da criação, da comunicação e da interação da criança, podendo causar dificuldades em resolver problemas”, afirma Alessia­na Diniz, Terapeuta em Mental Health da Marriage and Family Services. O que antes era considerado uma preocupação irrelevante pelos jovens, agora está sen­do admitida por um dos públicos-alvo mais vulneráveis da cultura digital.

Segundo o Pew Research Center, 54% dos adolescentes entre 13 e 17 anos acham que passam tempo demais na telinha do celular. As meninas alegam que gastam muito tempo nas mídias sociais, enquanto os meninos atribuem que passam do limite nos videogames e jogos de celular. Cerca de 45% dos adolescentes checam as notificações e mensagens assim que acordam e mais de 30% dizem que perdem o foco na aula pela distração causada pelos telefones e quase metade se sentem ansiosos quando não estão com o aparelho por perto.

Essa pesquisa acabou mostrando uma autoconsciência que muitos julga­vam inexistente. Os adolescentes estão cientes dos perigos que o excesso de tempo em frente à telinha podem gerar revelaram alívio quando estão sem o celular, admitiram que preci­sam tomar medidas para diminuir o uso de smartphones e alegaram tentar limitar o uso das mídias digitais. Apesar dos pais se sentirem mais seguros em garantir a comunicação com seus filhos, eles se preocupam com o conteúdo e o tempo gasto, impem limites mas também reconhecem os diversos tipos de influências da cultura atu­al e a dificuldade não só em controlar seus filhos mas eles mesmos.

Para a surpresa de todos, o estudo revela também um fato curioso: mais pais do que adolescentes sentem-se obrigados a responder imediatamente a qualquer mensagem recebida. Quem possivelmente precisa também de um apoio especializado é uma parte do público feminino que passa horas testando todos os filtros disponíveis no Snapchat, no Stories do Instagram ou no Facetune. Pode ser considerado inofensivo mas está levando a desenvolver o Transtorno Dismórfico Corpo­ral (TDC), em que a pessoa apresenta um foco obsessi­vo em defeitos que considera ter em sua aparência.

O alerta foi divulgado pelo JAMA Facial Plastic Surgery Journal. Os programas de edição de fotos antes disponíveis somente para profissionais, hoje são acessíveis para o público em geral, possibilitando o retoque das fotos e consequentemente gerando um alto nível de preocupação com seus corpos que são divulgados amplamente pelas redes sociais com o intuito de obterem aprovação. E não para por aí. Toda essa exposição vira uma bola de neve, aumentando a exigência em alcançar a perfeição.

De acordo com a Academia Americana de Cirur­gia Plástica e Reconstrutiva, em 2017 mais da metade dos cirurgiões entrevistados perceberam um aumento significativo de pacientes pelo simples fato de deseja­rem ficar mais bonitas nas fotos. O consumo excessivo de mídia digital por meio de smartphones, compu­tadores e tablets não deixa ninguém de fora. Para as crianças, eleva o risco de hiperatividade e distúrbios de concentração podendo afetar seu desenvolvimento físico e psíquico.

Na Alemanha, médicos detectaram a hiperativi­dade a uma taxa 3.5 vezes maior que o normal entre crianças de dois a cinco anos de idade que usam o celular por mais de meia hora por dia. Já em crian­ças de 8 a 13 anos, este sintoma foi detectado com o consumo diário de mais de uma hora. O assunto é tão sério que atinge até os bebês que são amamentados por mães que usam a tecnologia em demasia, prejudi­cando o sono e a alimentação deles. O relacionamento social virtual aumenta o poder de comunicação e de networking mas para alguns pode ser uma fuga do convívio pessoal.” A maioria das pessoas dá mais atenção às mensagens de texto do que ter um diálogo”, alerta Fábio Brito, Editor e Produtor de Vídeo.

Para identificar o perfil do legítimo dependente, o livro Escravidão Digital do autor Jaime Zimmer revela algumas características: dorme e acorda conectado, prefere ficar conectado do que se relacionar social­mente, anda desinteressado em atividades que prati­cava antes, navega na Internet enquanto dirige e anda, perde a paciência com facilidade, tem uma vida para­lela com os amigos virtuais, diminui o desempenho no trabalho ou na escola e vive se defendendo quando é confrontado sobre o uso de eletrônicos.

O excesso do consumo virtual é notório mas o livro enfatiza que há maneiras de se tirar vantagem da tecnologia digital sem perder a essência do convívio social e sugere passos de como se livrar da depen­dência digital: fazer uma auto-avaliação dos hábitos, excluir os aplicativos que não são significativos, criar um tempo livre inteligente com aplicativos que tragam aprendizado como por exemplo o Duolingo e o Pocket, instalar aplicativos de produtividade que ajudam a manter o foco, utilizar técnicas para gerenciar o tempo de uso dos equipamentos, determinar regras em casa e ajudar a família a cumprí-las e principalmente fazer uma desintoxicação digital, conectan­do-se mais com o mundo real que é mais importante e significativo.

O termo Digital Detox foi incluído no dicionário Oxford um ano depois que a Organização Digital Detox iniciou o movimento em San Francisco em 2012 com o lema “Des­conecte para reconectar”. O princípio é semelhante ao do tratamento de pessoas com adicções `a substâncias químicas. A ideia é limpar o corpo e a mente. Muitas pessoas que vêm aderindo ao movimento podem enfrentar desafios como a nomopho­bia causada pela angústia resultante da incapacidade de acesso às mídias digitais. Uma batalha injusta contra a dopamina, substância química que quando estimulada leva à sensação de prazer.

Mas com disciplina e foco, tudo poder ser vencido. Não é à toa que participantes de uma empresa ameri­cana na área de finanças sentiram na pele o efeito da desintoxicação digital com a redução do stress e ansiedade em 27% após um mês do progra­ma de Digital Detoxing. As novas tecnologias sem dúvida vieram para ficar, deixando um grande legado e trazendo muito mais benefícios do que desvantagens. Cabe a cada indi­víduo tomar as rédeas e desenvolver a capacidade de saber ser humano no mundo digital.

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