Feijoada

Os Confederados: Imigração Americana para o Brasil no Século XIX

Em 1865, 20.000* confederados migraram para o Brasil. A Guerra Civil americana terminou em 1865, com a derrota Confederada, formada por diversos territórios do Sul do país. Foi um conflito sangrento. O Norte (Union) dissolveu o exército confederado e começou um período conhecido como “Reconstrução”. O conflito teve sua origem na controversa questão da escravidão, especialmente nos territórios ocidentais. As potências estrangeiras não intervieram na época. Após quatro anos de sangrentos combates que deixaram mais de 600 mil americanos mortos e destruíram grande parte da infraestrutura do sul do país, a Confederação entrou em colapso, a escravidão foi abolida, um complexo processo de reconstrução começou, a unidade nacional retornou e a garantia de direitos civis aos escravos libertos teve início. A libertação dos escravos, capitaneada por Abraham Lincoln, não foi aceita no Sul. Consequentemente, milhares de confederados decidiram deixar a América para irem viver em outro lugar.

Esse “outro lugar” acabou sendo o Brasil, cujo imperador Dom Pedro II, estava interessado em desenvolver sua indústria de algodão e cana-de-açúcar. Para isso, ele precisava de agricultores qualificados e os emigrantes do Sul pareciam aptos para o trabalho. A maioria deles era do Alabama, Texas, Louisiana, Mississippi, Geórgia e Carolina do Sul, proveniente de grandes famílias que dependiam fortemente da agricultura e da mão escrava.

Dom Pedro II ofereceu-lhes ajuda financeira com despesas de viagem, subsidiou o preço da terra e permitiu que eles construíssem plantações isentas de impostos. Cerca de 20 mil pessoas se mudaram para o Brasil entre 1865 e 1885, onde a escravidão ainda era legal. (* Os números variam, com algumas fontes alegando que uma figura mais realista é de cerca de 10.000 colonos).

“PARTIR ERA O ÚNICO ATO DE REBELDIA CONTRA O IANQUE CONQUISTADOR”

Os colonos confederados foram morar em vários locais. Alguns aproveitaram o desenvolvimento das áreas urbanas do Rio de Janeiro e de São Paulo, enquanto outros decidiram tentar a sorte na região amazônica pouco habitada, como Santarém e se instalaram também em cidades do Estado de Goiás.

As colônias permaneceram durante muitos anos como uma comunidade enclausurada. Os refugiados confederados se casaram entre si e falavam apenas o idioma inglês. Eles também investiram em escolas, igrejas e cemitérios separados dos brasileiros, importando sacerdotes e professores dos Estados Unidos.

Fundaram a primeira Igreja Batista do Brasil e o Cemitério do Campo, na cidade de Americana (SP), onde membros da comunidade local eram enterrados.

A colônia mais bem-sucedida, a de Santa Bárbara d’Oeste, foi liderada pelo coronel William Hutchinson Norris, onde os colonos produtores de algodão e aguardente tinham mais recursos. “Cerca de 500 famílias chegaram a se estabelecer em Santa Bárbara entre os anos de 1866 e 1868”, escreveu o antropólogo e historiador Alcides Fernando Gussi, pesquisador independente da Universidade Estadual de Campinas, São Paulo.

Alison Jones, descendente de terceira geração dos colonos originais – e tia avó da cantora Rita Lee Jones - descreveu sua experiência tendo crescido nesse ambiente, para o jornal Seattle Times numa entrevista de 1995: “Lembro-me quando eu tinha 4 anos, eu estava perdida em uma fábrica de tecidos e não conseguia me expressar com as pessoas porque só falava inglês. Eu não aprendi português até começar a escola”.

Alguns historiadores interpretam essa migração motivada pelo fato de que o Brasil não havia abolido a escravidão (o que somente aconteceu em 1888) e que os antigos proprietários de escravos do Sul queriam continuar sua maneira de viver de maneira abusiva.

Alcides Gussi contesta essa afirmação. Ele diz que “embora a escravidão fosse legal, apenas quatro famílias possuíam efetivamente trabalho escravo, com um total de 66 escravos, entre 1868 e 1875”.

Alguns casos foram registrados em que os (escravos) libertos dos territórios do sul americano decidiram acompanhar seus antigos donos.

Notável foi a história de Steve Watson. Ele foi para o Brasil juntamente com o Juiz (Judge) Dyer do Texas, seu antigo dono, que o designou para ser administrador de uma serraria. Num surto psicótico, Dyer decidiu retornar aos EUA devido a uma combinação de saudade e falência financeira. Ele deixou todas as suas propriedades no Brasil para o negro Watson.

Judith McKnight Jones, bisneta de um dos colonos americanos originais, tentou explicar os motivos da saída da sua família do Texas, durante a migração: “Eles vieram porque sentiram que seu espaço havia sido invadido e suas terras confiscadas. Viajaram para o Brasil a fim de tentar recriar o que tinham antes da guerra. Cresci ouvindo as histórias. Elas eram muito amargas e chocantes. Quando eles falavam sobre isso, a mudança para o Brasil, a guerra, deixando para trás suas casas e suas terras, era um assunto doloroso para eles e que os deixava muito irritados”.

“QUESTÕES DE HONRA E ORGULHO SULISTAS MOTIVARAM GRANDE PARTE DO ÊXODO”

No entanto, os colonos americanos conseguiram formar comunidades e preservar seu patrimônio cultural em seu novo país. Santa Bárbara d’Oeste e Americana são o lar de uma série de descendentes dos colonos, que permanecem conectados através da Fraternidade dos Descendentes Americanos do Brasil.

Os Confederados, como são chamados pelos brasileiros, promovem todo ano a Festa Confederada - uma cerimônia dedicada a preservar a memória de seus ancestrais. O festival apresenta bandeiras e uniformes confederados, danças e música do período, juntamente com a cozinha americana do Sul temperada com sabores brasileiros.

Embora os descendentes tenham sido quase completamente assimilados na sociedade brasileira, eles têm carinho pelos estados e territórios confederados, que consideram sua pátria original.

O Brasil proibiu o comércio de escravos em meados dos anos 1800 e ainda demorou muito tempo para abolir a escravidão. Os sulistas não teriam podido produzir algodão competitivo sem ele, e os Confederados e Dom Pedro sabiam disso. O algodão e o tabaco não cresceram bem no solo do Brasil, mas as culturas estabelecidas como o café, a laranja e a cana de açúcar certamente o fizeram.

O conceito de que o Brasil é uma “democracia racial” moldou a identidade cultural do país por décadas como um ponto de orgulho nacional. O sociólogo brasileiro Gilberto Freyre cunhou o termo nos Estados Unidos, depois de ter assistido a um homem negro ser linchado na rua. Horrorizado, ele chegou em casa com um novo sentimento pelo Brasil, como um lugar onde as etnias se misturam livremente.

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