Feijoada

O Autoengano na Liderança

Evidentemente, aqui se esbarra em um obstáculo tão grande quão imperceptível, dada a sua natureza clandestina, uma estratégia notável criada pela natureza, a partir das necessidades evolutivas de adaptação e convivência, levando a um grau de aperfeiçoamento que demanda razoável reflexão se houver a proposta de identificá-lo, no que for possível.

O objetivo é reduzir o custo cobrado por tal artimanha, quer seja, a pesada acomodação que atrasa a evolução do líder e dos liderados pela autoilusão de que já se encontram em grau (mediano) satisfatório de obtenção de resultados, usando, inclusive, a concorrência como referência e justificativa, por exemplo, nas comparações típicas. Por que cremos no que cremos, se há muitíssimo mais a ser explorado?

“O autoengano é, por natureza, uma ocorrência passiva, ou seja, fechada à atenção consciente e sujeita a uma lógica peculiar.”, nas palavras do economista brasileiro Eduardo Giannetti, e elas oferecem uma esplêndida vista sobre tal terreno movediço, e, apesar de ser uma criação natural, fruto de um longo e lento processo que se transmite através das informações genéticas, o seu uso exagerado converte-se no perdulário gasto excedente, desequilibrando a economia autorregulatória das atividades de defesa e de ataque evolutivos dentro das atividades corporativas.

Se o líder de perfil focado nas relações interpessoais entende que já cobra o suficiente os membros da equipe, e assim tenta legitimar as suas crenças por meio de explicações autoenganadas que vão do ajuste motivacional à rebeldia contraprodutiva, ele mesmo já está convencido, de boa fé, acerca de suas “verdades”, as quais poderiam ganhar maior remodelamento se o autoconhecimento sistemático estivesse em prática, ajudando a levantar o véu que encobre mais possibilidades.

Por outro lado, se o líder de perfil focado no gerenciamento crê apenas no bom planejamento e na sua reta aplicação (com ajustes ocasionais, é claro, se assim o demandar), regada por cobranças tão somente, eis ai a sua religião cujo dogma impede qualquer perspectiva diferente, e ele o faz desta forma pelo profundo convencimento que se encontra enraizado na vivência que possui, só não enxerga, no entanto, que há mais terras para além do mar que julga interminável, e, portanto, dispensável de qualquer navegação, até que...

O autoengano é poderoso pelas razões mais básicas que sustentam a evolução da espécie com o uso de estratégias de sobrevivência e ajustes de toda ordem, ele é um miraculoso benefício, só que usado em demasia pela acomodação que proporciona. É claro que confrontá-lo é, além de doloroso, cansativo e, até certo ponto, frustrante, pois pode nos derrubar da gostosa rede de balanço íntimo, mesmo que nisto se estabeleça imensa benfeitoria, qual uma rica recompensa que se encontra enterrada no sítio mais improvável para aquele que ainda não pratica a autoavaliação profunda: Dentro de si mesmo.

É como descobrir, pouco a pouco, batalha a batalha, recursos internos, baseados em legítimas verdades pessoais, que nos fazem ver o mundo de uma forma mais robusta e pés no chão, e, decorrentemente, nos serve de apoio às construções mais sólidas sobre nós mesmos (autoconceito mais ajustado) e acerca das atividades, planos e quaisquer outras possibilidades na vida profissional, inclusive, a geração de expectativas e a comparação dos resultados, dosando melhor frustração e satisfação.

O autoconhecimento é a arqueologia capaz de identificar as evidências soterradas pelo autoengano nas cavernas mais profundas do psiquismo, e então esclarecer, reescrevendo a história através de novos e cruciais fatos do líder e de seus liderados.

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