O ser precede o fazer

Na ética cristã, o ser precede o fazer, sob pena de que o fazer caia no vazio ou, pior, em contradição com o ser, além de ser um peso excessivo para quem faz. A ação cristã despida de caráter anterior que a qualifique é incipiente porque não é possível de ser registrada. A mensagem mais forte suplanta a mais fraca, e nesse caso, a mais forte diz respeito ao ser, de modo que o fazer sem o ser cai no vazio.
O ser humano, portanto, deve agir tendo cuidado das intenções, do caráter e dos meios que possibilitam a ação. Deve agir, mas deve antes certificar-se de que seu estilo de vida credencia sua ação e fala. A contradição entre o ser e o fazer faz lembrar a mãe que belisca a criança no colo. É a chamada “mensagem de duplo vínculo”: o carinho do colo e a agressão do beliscão. A contradição entre as mensagens gera confusão psíquica e emocional. O homem que age em desacordo com o que é lança uma mensagem difícil de ser acreditada.
Ele portanto age em consequência de que, tal qual árvore, é fruto. A impossibilidade do mundo natural não acompanha arealidade da ação humana: laranjeiras não dão limões, mas pessoas ruins podem agir com bondade, egoístas podem doar, invejosos podem aplaudir e rancorosos podem abraçar. A violência contra si mesmo é dotada de conseqüências funestas. Quem abre mão sem antes experimentar a mansidão, por exemplo, carrega consigo um crônico sentimento de perda. O ser precede o fazer para que a ação não seja esvaziada, confundida nempesada.
Na ética cristã, o ser esclarece o fazer. Não são poucos os exemplos de ações semelhan¬tes com repercussões desiguais. A força da mensagem está respaldada pela intensidade da militância. Martin Luther King Jr., Nelson¬Mandella, Malcom X, tiveram suas mensagens amplificadas pelo fato de que suas vidas estiveram e estão comprometidas com a causa esposada. A identificação solidária com pobres não vale nada na boca de teólogos de gabinete. Não é por menos que o apóstolo Paulo insistiu em ser seguido no que falou e mostrou. O evangelho não é algo para ser ouvido é para ser visto. Aprendeu isso do seu Mestre, que ensinava com a autoridade peculiar, aqueles, cujas ações e palavras são como água a jorrar do fundo do ser.
Finalmente, na ética cristã, o ser, faz. Nada mais óbvio. Quem é misericordioso age com solidariedade. Quem é pacificador aproxima¬pessoas. E assim por diante. O mais notável, entretanto, é que a ação genuinamente cristã é decorrente. Veja, por exemplo, que Jesus não apenas serviu, ele se fez servo. Sua ação que priorizava o outro, em detrimento de si mesmo, não era uma auto-violência mas uma expressão natural do ser. São Francisco estava certo. Conseguiu interpretar o espírito ilumi¬nado cristão: “Prega o evangelho durante todo o tempo: se necessário, use as palavras”.
[Teólogo, escritor e mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo, Ed René Kivitz é pastor presidente da Igreja Batista de Água Branca (IBAB) e idealizador do Fórum Cristão de Profissionais – “um jeito cristão de ser profissional, ser empresa e fazer negócios”.]

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