Estamos estranhos, cada vez mais

Padre Fábio de Melo
Estamos estranhos. Cada vez mais. Imersos na dinâmica de inúmeras derivações pre¬fixais, seguimos indispostos à consciência. Desvivendo, desumanos, desregrados, despreparados, desleais. Des à frente de valores funda¬mentais, des à frente de verbos essenciais à maturidade humana.
Enquanto o outro nos fala, digitamos um texto a alguém que está distante. E ainda oferecemos consolo ao que está diante de nós. “Pode falar que eu estou te ouvindo”. Não, não estamos ouvindo. Estamos no protagonismo do embuste que nos desen¬sina as regras do encontro.
Estamos desertados, devassados. Assus¬tadoramente devassados. Perdemos a medida do que deveria pertencer somente a nós e do que deveria pertencer somente ao outro. Registramos. A tudo registramos. Alucinadamente registramos. Como se pessoas fossem monumentos públicos, como se todos estivessem dispostos a viver os excessos de nossa publicidade, como se todos estivessem sob a proibição da intimidade.
Tudo para nossa promoção, manutenção de um mundo paralelo que cumpre a função de nos conceder o privilégio de prevalecer, ainda que por alguns instantes, sobre os outros que buscam o mesmo disparate que nós. As praças virtuais mo¬dernas substituíram as praças medievais da inquisição.
Purgamos nossos pecados nos escolhidos ao achincalhamento de cada dia. Um eleito qualquer na fogueira virtual, pego por alguém qualquer que filmava o particular que não lhe pertencia, e todos ficarão esquecidos temporariamente de suas mazelas. Queimar o outro nos ajuda a dar disfarce aos mesmos crimes que comete¬mos, mas que não foram deflagrados.
Estamos desmedidos. Na ânsia de sermos notados, inventamos motivos, fingimos alegrias, expomos os incapazes, criamos intrigas. Tudo porque não suportamos o vazio causado por nossos des. Tudo por¬que estamos fartos e cansados da superfi¬cialidade que condena nossa rotina.
Estamos desprovidos. De consistência, bom senso, delicadeza, educação. Que o tédio nos chegue a galope. Que a satu¬ração nos venha antes que o absurdo se torne natural. A desconstrução é doída, mas necessária. Colocar o des à frente de conjugações que favoreçam a nossa humanização.
Desmentir, desestruturar, desobedecer a tudo o que nos idiotiza e nos desperso¬nifica. Que a redenção nos chegue pelos braços da reflexão. Somente quando pen¬samos a vida que vivemos é que podemos interferir no como vivemos.
[Padre Fábio de Melo é sacerdote católico, cantor, compositor, poeta, escritor, professor e apresentador. Iniciou a carreira musical com a gravadora Paulinas- Comep, posteriormente na gravadora Canção Nova, um projeto independente com músicas tipicamente mineiras, o “Tom de Minas”, passando pela Som Livre e atualmente está na Sony Music. Apresenta o programa Direção Espiritual na TV Canção Nova.]

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