Trump defende imigração por mérito, promete reforma fiscal e pede fim do Obamacare em discurso no Congresso

Presidente fez seu primeiro discurso a legisladores do Senado e da Câmara de Representantes. Ele pediu união entre os Partidos Democrata e Republicano.
O Presidente americano Donald Trump fez na noite desta terça-feira (28) seu primeiro discurso em sessão conjunta aos legisladores do Senado e da Câmara de Representantes dos Estados Unidos. Durante sua fala, Trump defendeu pela primeira vez um sistema de imigração baseado em mérito, prometeu uma reforma fiscal e pediu união entre o Partido Democrata e o Republicano para avançar em legislações como a substituição do programa de saúde Obamacare.
O presidente começou seu discurso condenando as recentes ameaças a centros judaicos nos EUA. “As recentes ameaças aos centros da comunidade judaica e o vandalismo de cemitérios judeus, além do tiroteio em Kansas City na última semana, nos lembram que, ao mesmo tempo em que podemos ser uma nação dividida na política, somos um país que permanece unido na condenação ao ódio e ao mal em todas as suas formas”, declarou.
Trump disse que queria passar uma mensagem de unidade e força. No início de sua fala, fez um retrospecto das medidas tomadas por seu governo desde que tomou posse, no dia 20 de janeiro. Ao citar sua indicação para a Suprema Corte, o juiz Neil Gorsuch, pediu: “Peço ao Senado para que rapidamente aprove a nomeação”.
O presidente, falando em um terreno favorável, já que os republicanos controlam as duas Câmaras, também defendeu uma série de medidas que pretende impulsionar em seu governo. Como de costume, seu discurso teve foco no crescimento e protecionismo do país, com slogans como “os americanos em primeiro lugar” e “fazer a América grande de novo”. Desta vez, o presidente não adotou o tom pessimista como o que usou no discurso de posse em 20 de janeiro, quando descreveu um quadro sombrio dos Estados Unidos e se referiu a um “massacre americano”.
Reformas
Trump afirmou que está preparando “uma reforma tributária histórica”, que irá diminuir a taxa de imposto para as empresas e proporcionará um “alívio fiscal enorme” para a classe média:
“Minha equipe econômica está desenvolvendo uma reforma tributária histórica que reduzirá a taxa de imposto de nossas empresas para que possam competir e prosperar em qualquer lugar e com qualquer um”.
“Para conseguir nossos objetivos no país e no exterior, devemos reiniciar o motor da economia americana, facilitar que as empresas façam negócios nos Estados Unidos e dificultar as saídas delas do país”, disse, pouco antes de assegurar que “as empresas americanas pagam as taxas mais altas em qualquer parte do mundo”.
O presidente apresentou uma nova proposta em relação ao sistema de imigração nos EUA, defendendo a adoção de um novo sistema baseado em mérito e na capacitação dos candidatos, e que contenha o acesso ao país de pessoas com baixa qualificação para o mercado de trabalho:
“Se passarmos do atual sistema de imigração de pessoas com baixa capacitação e adotarmos um sistema baseado no mérito, teremos muitos benefícios: pouparemos dólares, elevaremos os salários e ajudaremos as famílias em dificuldades – incluindo famílias de imigrantes – a ingressar na classe média”.
Segundo o presidente, Canadá e Austrália adotam este sistema, que segue o princípio básico de que aqueles que queiram entrar no país tenham como se sustentar financeiramente.
Trump falou sobre uma reforma “positiva” em imigração. “Acredito que uma reforma real e positiva de imigração é possível, desde que tenhamos focos nos seguintes objetivos: aumentar empregos e salários para americanos, fortalecer nossa segurança nacional e retomar o respeito pelas nossas leis”, disse. Segundo ele, o atual sistema de imigração está ultrapassado, pois afeta os salários dos americanos e pressiona os contribuintes americanos, custando “muitos bilhões de dólares ao ano”.
Pouco antes de seu discurso, a imprensa americana divulgou que o presidente considera apresentar uma legislação que proporcione aos imigrantes uma rota para o status legal, mas isso não foi mencionado no Congresso.
Também pediu que os legisladores se unam para revogar e substituir o programa de saúde Obamacare. “Nesta noite, também peço a este Congresso para revogar e substituir o Obamacare, com reformas que expandem a escolha, aumentam o acesso, diminui os custos, e ao mesmo tempo, oferecem melhor cuidado da saúde”, disse.
“A maneira de tornar o seguro de saúde disponível a todos é diminuir o custo do seguro de saúde, e isso é o que vamos fazer”, acrescentou, fazendo um apelo aos membros do Congresso:
“Estou pedindo a todos os democratas e republicanos no Congresso para trabalharem conosco para salvar os americanos desse desastre implosivo do Obamacare”.
Estado Islâmico e muro
Trump disse que “trabalhará” com os países aliados para “extinguir” o grupo jihadista Estado Islâmico (EI). “Vamos trabalhar com nossos aliados, incluindo nossos amigos e aliados do mundo muçulmano, para extinguir da face da Terra esse inimigo”, disse Trump. “Como prometido, ordenei ao Departamento de Defesa que desenvolva um plano para destruir o EI, uma rede de selvagens sem lei que matou muçulmanos e cristãos, homens, mulheres e crianças todas as crenças”, afirmou o presidente.
Também declarou o “forte apoio” de Washington à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), mas voltou a convocar os países aliados a cumprirem seus compromissos financeiros.
“Apoiamos fortemente a Otan, uma aliança forjada pelos laços de duas guerras mundiais que destronaram o fascismo e uma Guerra Fria que derrotou o comunismo. Mas nossos sócios devem cumprir suas obrigações financeiras”, afirmou Trump.
Prometeu iniciar “em breve” a construção do muro na fronteira com o México, com o objetivo de conter “as drogas e o crime”, e o fortalecimento das fronteiras. “Enquanto falamos, estamos removendo criminosos, vendedores de drogas e criminosos que ameaçam nossas comunidades e nossas crianças. Esses caras estão indo embora, enquanto falamos aqui esta noite, tal como eu havia prometido”, disse o presidente.
“Também vamos proteger país contra o terrorismo radical islâmico”, disse. “Não podemos permitir que a nossa nação se torne um santuário para extremistas”, acrescentando:
“Minha administração está trabalhando em procedimentos de veto melhores e logo vamos tomar novos passos para manter nossa nação segura. E tirar aqueles que nos prejudicariam.”
Há algumas semanas, o presidente aprovou uma ordem executiva instruindo as agências federais na “construção imediata” do muro com o México e aguarda com expectativa o custo de tal construção com fundos do governo, embora ele tenha dito que o investimento será reembolsado pelo México.
Ao defender alguns de suas propostas, Trump chamou a atenção para a presença de alguns convidados presentes na plateia. O presidente destacou a presença de familiares de policiais mortos em serviço por imigrantes ilegais e de uma família, cujo filho de 17 anos foi morto por um imigrante ilegal. O presidente aproveitou para anunciar que pediu a criação de um escritório de vítimas do crime praticado por imigrantes.
Orçamento militar
O presidente também defendeu o aumento no orçamento militar para garantir a segurança do país. “Para manter a América segura, devemos fornecer aos homens e mulheres das forças armadas dos Estados Unidos as ferramentas de que precisam para impedir a guerra e, se for preciso, lutar e vencer”, afirmou.
Na segunda-feira (27), a Casa Branca anunciou que Trump propõe um aumento de quase 10% no orçamento militar dos Estados Unidos. Com quase US$ 615 bilhões, já é o maior do mundo.
Ao falar da importância do trabalho dos que lutam pela defesa do país, Trump homenageou um funcionário da Marinha americana, cuja viúva estava presente na plateia.
Gestos
Contrariando a tradição, os democratas reservaram uma recepção fria para o presidente em sua entrada na Casa. A maioria ficou de pé, sem aplaudi-lo, enquanto outra metade dos congressistas, os republicanos, aplaudiam com entusiasmo.
Em um gesto em defesa pelos direitos das mulheres, cerca de 40 legisladoras democratas foram à sessão vestidas de branco.
Nancy Pelosi, membro da Câmara dos Representantes, afirmou pelo Twitter: “Hoje à noite, nossas Democratas #WomenWearWhite (Mulheres Vestem Branco) em apoio aos direitos das mulheres — ao contrário de um @POTUS (presidente dos EUA)”.
Antes do discurso de Trump, representantes da Casa Branca disseram que a fala do presidente teria alguns gestos para unificar um país polarizado por uma eleição dura e dividido nos primeiros dias do governo. Uma média de pesquisas recentes feita pelo Real Clear Politics coloca o índice de aprovação de Trump em cerca de 44%, baixo para um novo presidente.
Resposta dos democratas
Após o discurso de Trump, foram transmitidas duas mensagens do partido Democrata em resposta ao pronunciamento do presidente. Uma delas foi feita em inglês, pelo ex-governador do Kentucky, Steven Beshear, e a outra em espanhol, pela imigrante mexicana Astrid Silva.
Beshear representa uma das maiores histórias de sucesso do Obamacare. Como governador de Kentucky, entre 2007 e 2015, ele expandiu o acesso à saúde a todos os moradores do estado e diminuiu o número de pessoas sem seguro saúde para 7,5%, uma das maiores margens de progresso em todo o país.
Em sua mensagem, ele defendeu o Obamacare, dizendo que seu fim reduzirá o número de americanos com cobertura de plano de saúde e “colocaria as companhias de seguro de volta ao controle”.
Astrid, filha de imigrantes ilegais que entrou no país quando era criança, afirmou que os imigrantes sem documentos são parte do país e constituem os valores e as promerssas dos EUA. “O discurso de Trump tem como objetivo causar medo e terror em comunidades ao redor do país. Isso serve como evidência e uma recordação de que os planos e a visão do presidente Trump e dos repubilcanos vão de encontro aos nossos valores como democratas, como americanos e seres humanos”, disse.
Astrid se tornou uma ativista em defesa dos “dreamers”, como são chamados os jovens que, como ela, se beneficiaram do programa de alívio migratório Ação Diferida (Daca), aprovado em 2012 por Obama, e ao qual se acolheram cerca de 750 mil imigrantes ilegais que chegaram quando crianças ao país.
Durante sua campanha, Trump prometeu acabar com o Daca e deportar os “dreamers”. Mas recentemente sua administração estabeleceu novas diretrizes para a deportação de imigrantes ilegais e manteve o programa.

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