‘Até o último homem’, de Mel Gibson. Muita fé e violência

Andrew Garfield faz soldado americano pacifista em filme dirigido pelo astro veterano. Produção teve ao todo seis indicações ao prêmio.
Mel Gibson sofre de quatro fetiches e não nega: a fé, o herói, a violência e o clichê. Fé no sentido cristão, moral. Herói não no sentido de superpoderes, máscara e fantasia justinha, mas, sim, de gente da vida real que triunfa na guerra. Violência no sentido de sangue, esquartejamento, tiro na cara (no olho, se possível), amputações involuntárias de membros. E clichê no sentido hollywoodiano que você vai descobrir por si mesmo logo mais.
Em “Até o último homem”, que estreia nesta quinta-feira (26), o diretor e ex-galã mostra repetidamente que morre de orgulho dessas crenças e preferências. Incomoda? Sim. Então significa que o povo da Academia de Hollywood estava bem louco ao dar seis indicações no Oscar 2017, incluindo melhor filme, melhor diretor e melhor ator (para Andrew Garfield).
“Até o último homem” reprime suas imperfeições (não são poucas, a começar por um americanismo reiterado a ponto de provocar náusea). É um requintado banquete visual para quem ama sadicamente filmes de guerra em que vísceras e sangue são tão explícitos que mereciam aparecer já nos créditos de abertura, antes dos nomes dos coadjuvantes.
Mas o que fica, sobretudo, é um bom filme, executado e narrado à moda antiga e com obediência fiel e extrema ao realismo. O Mel Gibson confia tanto em Deus quanto na narrativa clássica. As cenas de conflito (estamos em Okinawa, na 2ª Guerra Mundial) são muito, mas muito bem filmadas, câmera na mão, tensão interminável, suspense. E sangue, sangue, sangue.
O filme
Resumo da ópera (spoilers discretos): Desmond Doss é um jovem humilde do interior, quase mais religioso que a própria religião, que uma hora acha certo ir à guerra com o único propósito de salvar vidas (americanas, bem dizer). Sim, tudo baseado em história real (e improvável, absurda).
O drama deste adorável e franzino pacifista é um só: irracionalmente fiel ao mandamento “não matarás”, Desmond tem alergia a fuzis. É sério – pegar em arma nem pensar. Azar o dele? “Não”, dirão seus sensatos colegas e superiores no exército. “Azar o nosso, porque este anjinho covarde e insano, afinal, vai refugar quando mais precisarmos dele.” Inocentes incrédulos…
Agora, resumo do criador da ópera: “Até o último homem” marca, sim, meio que a ressurreição (paralelo com a vida de Jesus Cristo: feito) do cineasta. Mel Gibson não lançava nada desde “Apocalypto” (2006). E uns anos atrás ainda deu para beber, fez comentários antissemitas, racistas e machistas. Todo errado.
Parece – reforçando: parece – que isso é coisa do passado. Profissionalmente, ele renasce. Aí está o astro que ganhou cinco estatuetas do Oscar com “Coração valente” (1995). E, como a mão que afaga é a mesma que apedreja, aí está também o ambicioso e questionável que nos legou “A paixão de Cristo” (2004), aquele…
Não é (só) um filme de guerra
O Mel Gibson cineasta é o Mel Gibson da vida real: um conservador. Não pelo lado negativo. Trata-se daquele que confia no que tem funcionado há décadas no que diz respeito ao modo de contar uma história. Antiquado no que isso tem de bom (mais) e no que tem de ruim (menos).
No começo de “Até o último homem”, não vemos o nosso Andrew Garfiel estilo “Jesus na guerra”. Na tela, está a história anterior deste bom moço. Não é que seja ruim. É apenas ridiculamente constrangedor. Nada justifica aquela abordagem e aquele tom de interpretação. A não ser que se quisesse fazer uma paródia de produção romântico-cristã e com um protagonista estilo Marcelo Adnet afetando sotaque de capiau do interior dos Estados Unidos.
Você vê e o Andrew Garfield falando, o Andrew Garfield se apaixonando, o Andrew Garfield existindo e a única conclusão plausível é esta: Deus há de existir, porque só ele para me salvar desta. Por favor, insista, supere, vai valer a pena. Tenha fé (no crítico): “Até o último homem” vira outro filme – e ele justifica o sacrifício.
Ignore também a maneira como são registrados os japoneses, aqui inimigos do mocinho e sua tropa. Esses rivais surgem de modo generalista, despersonalizado e preconceituoso mesmo. Zumbis sádicos e masoquistas. E tem o Vince Vaughn totalmente desajeitado como o superior do protagonista na hierarquia militar. Convence nada, zero naturalista no papel. Dá vontade de ver o Owen Wilson entrar em cena para salvar o amigo.
A tragédia é coletiva
Em resumo, “Até o último homem” é o clichê do filme de guerra, pega forte no cristianismo e no patriotismo e tem mensagem “hollywoodianamente” edificante. Que tenha saído um bom filme daí que o Andrew Garfield melhore consideravelmente, é mérito de alguém que já foi equivocadamente ambicioso, quis ser grande, mas hoje se basta em ser necessário.
Você sairá do cinema em silêncio: em respeito aos que tombam na guerra – e, principalmente, em respeito à fé do próximo. É a ilustração evidente, sem disfarce, da empatia e da ideia de que julgar pela aparência é perigoso (para quem julga).
Não interessa a ninguém, diz “Até o último homem”, repudiar e zombar da crença alheia. Na guerra (como na vida), a fé é individual. Mas a tragédia é de todos nós.

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