O Brasil aos olhos do Embaixador Hélio Vitor Ramos Filho

O Embaixador Hélio Vitor Ramos Filho, Cônsul Geral do Brasil em Miami, fala com exclusividade à revista Linha Aberta sobre o trabalho do Consulado, da desvalorização do real frente ao dólar, da parceria comercial entre Brasil e Flórida e da crise econômica e política brasileira e sua repercussão internacional.

Linha Aberta: Nos últimos anos o perfil do brasileiro que mora nos Estados Unidos mudou muito. Como o senhor vê essa mudança e como ela pode ser visualizada na rotina de trabalho do Consulado?

Embaixador Helio Ramos: Nós temos hoje, na Flórida, brasileiros vindos de todos os estados do país e das mais diversas classes sociais. Há trabalhadores, professores, empresários. Há ainda os brasileiros que já aqui nasceram. Todos com demandas e necessidades específicas. E isso, como não poderia deixar de ser, tem reflexo na atividade do Consulado-Geral. Foi para atender essa demanda que a Repartição modernizou-se, mudou de endereço e ampliou os espaços de atendimento. Hoje temos dez balcões (antes eram três) para atender a quem procura o Consulado-Geral em busca de serviços notariais e consulares, além de outras áreas como promoção comercial, educacional e cultural.

Linha Aberta: A flutuação do real em relação ao dólar nos últimos dois anos foi grande, com um valor cambial de $1.68 para $3.35 (numa média de valores estimados). O Brasil passou de um destino caro a muito acessível para o turismo. Comente.

Embaixador Hélio Ramos: A nova conjuntura cambial, naturalmente, reflete-se na procura por vistos, o que é muito positivo para o Brasil. Esse ano, a partir do mês de março, os registros da Repartição indicam uma tendência de crescimento. Em julho último, houve um aumento na procura por vistos para o Brasil de 34,49% em relação a 2014, em agosto, de quase 65% se comparado ao mesmo mês no ano anterior. É preciso, contudo, aguardar os próximos meses para verificar se a tendência se mantém.

Linha Aberta: Em 2014, a parceria comercial entre Brasil e Florida representou 16 bilhões de dólares em investimento no setor de importação/exportação. Esta parceria comercial pode ser afetada em virtude da crise política e econômica do Brasil?

Embaixador Hélio Ramos: Muito pelo contrário. O intercâmbio comercial entre Brasil e Flórida representa cerca de 1/3 do fluxo de comércio entre o Brasil e os Estados Unidos. Em 2014, o Brasil manteve o posto de principal parceiro comercial da Flórida. É importante destacar que as EXPORTAÇÕES brasileiras para a Flórida, em 2014, aumentaram, diminuindo, consequentemente, o déficit comercial brasileiro com os Estados Unidos. Essa variação ocorreu, em grande medida, em razão da desvalorização do Real frente ao Dólar ao longo do último ano, o que reduziu os custos dos artigos brasileiros no mercado norte-americano.

Cabe destacar, ainda, que os investimentos brasileiros na Flórida possuem relação direta com o incremento do fluxo de comércio decorrido nos últimos 10 anos (em 2014 o fluxo de comércio Brasil-Flórida foi de US$ 10.5 bilhões, e, em 2014, de US$ 16.9 bilhões: incremento na ordem de 62%). Empresas brasileiras exportadoras que buscam consolidar seu produto nos Estados Unidos, por exemplo, constituíram empresas na Flórida, como, por exemplo a Cutrale, Citrosuco e a Bauducco. As empresas de grande porte, como Embraer, Odebrecht, 3G Capital (proprietária do Burger King) e a Gerdau (na região de Tampa) e mais recentemente no ramo de serviços, como o Banco do Brasil Americas, cadeias diversas de restaurantes, franquias, serviços de tecnologia da informação, também mostram a força do comércio entre o Brasil e a Flórida.

Linha Aberta: Hoje o Brasil está em crise econômica e politicamente. Como diplomata, que representa o Brasil nos Estados Unidos, como o senhor vê a situação do Brasil perante o mercado e a política internacional?

Embaixador Hélio Ramos: Creio não haver países que partilhem tantas semelhanças históricas, geográficas, demográficas e econômicas como Brasil e Estados Unidos. As relações bilaterais e estratégicas entre os dois países são, assim, refletidas de forma dinâmica em termos políticos, econômicos e culturais. Nesse sentido, a reunião presidencial de junho passado em Washington DC teve um significado especial porque representou a retomada do diálogo político bilateral em áreas como comércio, economia, energia, defesa, meio ambiente, entre outros assuntos relevantes da agenda internacional, que foram o plano de ajuste fiscal e o programa de investimentos no setor da infra-estrutura brasileira, que conta com foco renovado na participação do setor privado. Os Estados Unidos são o maior investidor estrangeiro no Brasil e nos últimos anos há um aumento significativo do investimento direto brasileiro nos Estados Unidos.

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