Econômia – Na Ilha Jussara, mulheres lideram a produção e colheita de açaí

Econômia -Na Ilha Jussara,  mulheres lideram a produção e colheita de açaí na região das ilhas, no Pará

Na Ilha Jussara, a cerca de uma hora de barco do centro de Belém, um grupo de mulheres está mudando a realidade social e econômica de comunidades localizadas na área conhecida como Furo do Maracujá. Na ilha, ao contrário do que ocorre em outras regiões ribeirinhas, as mulheres são responsáveis pelo manejo e a colheita do açaí, vendido diariamente em locais como o Complexo Ver-o-Peso e demais feiras da capital. O trabalho é resultado de cinco anos de acompanhamento técnico oferecido pela Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-PA), que ajudou a aumentar a produção em quase 60%.

Foto: Sidney Oliveira/ AG Pará
Foto: Sidney Oliveira/ AG Pará

“O maior produto econômico das ilhas é o açaí, que corresponde a algo em torno de 85% até 95% da renda. Nós fizemos um processo inicial de manejo de açaizal com alguns produtores. Quando chegamos aqui já havia comunidades com algum treinamento. Então, o que fizemos foi aperfeiçoar o manejo já iniciado e ensinar aqueles que precisavam começar do zero, para que o pessoal pudesse melhorar a renda”, conta o engenheiro agrônomo Lucival Solim Chavez, da Emater, que há cinco anos acompanha o trabalho desenvolvido na comunidade.

Aos 50 anos, a habilidade de Edina dos Anjos do Nascimento Siqueira ao subir no açaizeiro utilizando apenas uma peconha (artefato feito com um pedaço do tecido da saca de açaí) é impressionante. Uma atividade que não requer nenhum esforço, segundo ela. “Eu faço isso desde criança. Era muito danada e subia no pé de açaizeiro para fugir da minha mãe. Nasci e me criei aqui. Eu e várias mulheres cuidamos dos açaizeiros, fazemos o manejo e também a colheita. Os homens nos ajudam, mas nós somos a maioria e nos ajudamos”, disse Edina, que é líder da comunidade na Ilha Jussara.

Foto: Sidney Oliveira/ AG Pará
Foto: Sidney Oliveira/ AG Pará

Orientação – “Estamos trabalhando com o açaí já faz uns sete anos. Eu comecei a apanhar açaí com o meu pai há mais de 40 anos, mas não tinha manejo e tudo era mais difícil. Começamos a receber uns cursos, mas quem nos acompanhou mesmo foi a Emater, que nos ensinou a trabalhar melhor, e assim o nosso plantio e a colheita também melhoraram. Além disso, a gente aprendeu como conseguir financiamento, e agora participamos do Pronaf (Programa Nacional de Desenvolvimento da Agricultura Familiar). Tudo isso foi muito bom para a gente”, acrescenta Edina Siqueira.

O quintal da casa de Edina tem mais de 5 mil palmeiras de açaí, distribuídas pelo terreno de forma planejada, e outras árvores frutíferas que também geram renda, como cacau e cupuaçu. “A produção aumentou aproximadamente uns 50%, podendo a chegar a 60%. A prova é que a produção cresceu em termos de tempo: começa mais cedo e acaba mais tarde. E quando chega o período do pico da safra alguns produtores têm dificuldade na colheita devido à grande quantidade produzida nas unidades. Hoje, por exemplo, uma unidade que antigamente ficava numa faixa de quatro toneladas por hectare, hoje pode atingir até oito toneladas por hectare”, explica o agrônomo Lucival Solim.

Foto: Sidney Oliveira/ AG Pará
Foto: Sidney Oliveira/ AG Pará

Liderança – Dentre a principal característica da comunidade na Ilha Jussara está o engajamento das mulheres, que naturalmente conquistaram a liderança na produção de açaí, inclusive com o apoio dos maridos, que geralmente são responsáveis pela venda do produto. José Maria Freire Siqueira, 58 anos, marido de Edina, todos os dias sai à meia-noite da Ilha Jussara para vender a produção no Ver-o-Peso. Enquanto a mulher prepara as rasas (recipientes feitos de fibra vegetal para acondicionar os frutos), ele negocia o preço com os clientes e abastece o barco, para descarregar o produto em Belém.

“A gente trabalha bastante. Carregamos os barcos todos os dias e, na época da safra, a gente amanhece vendendo no Ver-o-Peso. Cada um faz a sua parte, e o trabalho delas é muito bom. As mulheres são mais organizadas do que os homens em muitas situações. Mais dedicadas. A mulher quando coloca algo na cabeça não tem quem impeça. A minha mulher é um exemplo: sobe no açaizeiro, pesca de matapi (armadilha para captura do camarão), corta palmito, mobiliza todo mundo, faz de tudo. O pessoal diz que ela devia ter nascido homem, mas eu acho que ela fazendo o certo, assim como as outras mulheres daqui”, conta José Maria, sem esconder o orgulho que sente da esposa.

Foto: Sidney Oliveira/ AG Pará
Foto: Sidney Oliveira/ AG Pará

Fora da safra, o preço da rasa do açaí (com capacidade para 28 quilos) pode ultrapassar R$ 250,00. Já nos períodos de colheita uma unidade de plantio pode lucrar por volta de R$ 1.500,00 por semana. A renda é utilizada para manter a família e também para investir nas áreas de plantio.

“Nós observamos que havia uma associação das Ilhas Sul e, com o decorrer do tempo, a demanda de cada ilha se tornou bem diferente, e isso fez com que a gente orientasse a liderança das ilhas para cada uma ter a sua associação. Durante este processo nós vimos o papel fundamental das mulheres na produção e mobilização das comunidades, tanto nas reuniões, quanto para levar a informação às famílias de que a mulher tem uma dedicação especial em qualquer tarefa, sendo capaz de fortalecer a comunidade”, frisa o engenheiro da Emater.

O grupo da Ilha Jussara está prestes a formar uma associação e transformar a atividade em uma microempresa. Este crescimento será proporcional à estrutura oferecida no local, como a distribuição da rede elétrica. Até lá, o crescimento das mulheres no Furo do Maracujá será acompanhado de perto, para que possa continuar rendendo bons frutos em todas as épocas do ano.

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