A NOVA ONDA DOS SELFIES: Depois de Ellen Degeneres todo mundo quer postar uma selfie

A foto de você mesma, conhecida como selfie, está ganhando proporções inimagináveis no mundo cibernético. Todo mundo que tirar uma selfie e postar nas redes sociais.  Há mais de um ano, as blogueiras e as artistas famosas como Paris Hilton, Kim Kardashian, Thassia Naves, Fashion Kids e Camila Coelho estão postando suas selfies. Os líderes políticos também entraram na era selfie. Um exemplo disso é a selfie tirada no funeral de Nelson Mandela, onde aparecem o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, e a primeira-ministra dinamarquesa, Helle Thorning-Schmidt.

Recentemente, o Papa Francisco também aderiu a moda dos selfies nas redes sociais. Durante uma audiência no Vaticano, o pontífice posou para a foto com recém-casados. Essa, porém, não é a primeira vez que o líder da igreja católica posa para um selfie – a primeira foi em novembro do ano passado, com um grupo de jovens na Basílica de São Pedro.
Mas a febre do selfie começou mesmo depois do Oscar 2014 quando a selfie de grupo comandada pela apresentadora Ellen DeGeneres, onde aparecem Brad Pitt, Angelina Jolie, Meryl Streep, Julia Roberts, Bradley Cooper, Jennifer Lawrence,  teve mais de 2,7 milhões de partilhas, chegando a dar uma pane momentânea no Twitter  por alguns minutos. A imagem tornou-se a foto mais retuitada da história.

E a moda chegou ao Brasil. Os artistas da Globo viraram piada após tirarem uma selfie durante o prêmio Melhores do Ano, do “Domingão do Faustão”. Após o registro feito por William Bonner, internautas compararam a foto com a imagem da apresentadora Ellen Degeneres feita no Oscar deste ano, e acharam que a ideia foi cópia. Na foto divulgada pelo âncora do “Jornal Nacional”, aparecem os atores Caio Castro, Mateus Solano, Thiago Fragoso, Fábio Porchat, Paolla Oliveira e Bruno Gagliasso. Cópia ou não, a selfie deles fez sucesso e gerou frutos.

Os artistas da Record aproveitaram o evento de lançamento da nova programação, que ocorreu no dia 18 de abril para tirar um selfie. Na foto estão Marcos Mion Celso Zucatelli, Chris, Flores, Maurício Torres, Rafael Cortez, Roberto Justus, Rodrigo Faro e Sabrina Sato. Na nossa comunidade, o selfie também está em alta. Durante o coquetel de lançamento do relógio Hublot com a presença do tenista Guga Kuerten, na loja do Bal Harbour Shops, muitos dos presentes tiraram o seu selfie e postaram nas redes sociais. Em muitos outros eventos da comunidade brasileira temos visto a pose do selfie. A moda pegou e na verdade, todo mundo tem direito de postar o seu selfie. O que você acha? A selfie mostra exibicionismo? Ou é somente um momento “fun” que pode acontecer a qualquer momento?

A polêmica da selfie
Em maio de 2012, o instituto de pesquisas Pew Internet apresentou uma pesquisa sobre o crescimento do individualismo nas redes sociais (networked individualism) mostrando que as mídias sociais estão nos tornando narcisistas”; entretanto, se explorarmos o mesmo mais cientificamente, vamos encontrar coisas ainda mais interessantes.

Na Dinamarca, o pesquisador Bent Fausing, professor da Universidade de Copenhague, está estudando sobre o assunto. Recentemente, publicou um artigo no qual conceitua a selfie dentro de seu projeto de pesquisa com foco na “sociedade da tela”. “Na nossa era digital, esses rápidos autorretratos são numerosos e florescentes, e não são só o espelho ou o braço erguido que caracterizam as selfies como um gênero, mas também como uma estética particular. O selfie é sobre reflexão, identidade e reconhecimento, seres humanos querem controlar a forma como eles são vistos”, escreve.

Ele disse que “todo mundo tira selfie, mas nem todo mundo publica. Pode ser por ter um pouco de vergonha, ou por não confiar tanto na sua imagem para publicar. A pessoa não precisa nem ser bonita, mas, se ela for confiante e passar isso numa foto, é o que importa”. A moda do selfie gerou uma segunda onda de autorretratos, a do “unselfie”. A ideia é, em vez de a pessoa postar uma imagem de si própria, escreve em papel uma boa ação que tenha feito, e tirar uma foto com a folha cobrindo o rosto – o que não deixa de mostrar uma dose de vaidade.

O pesquisador Luiz Moreno Guimarães, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, explica que, na psicanálise, pode-se ser narcisista e altruísta ao mesmo tempo. O que se opõe ao narcisismo não é o altruísmo, mas sim o estranhamento. E para quem acha que narcisista é aquele vaidoso que vive se autopromovendo nas redes sociais, Guimarães ressalta um aspecto que pode ser novidade para muitos: os sentimentos que estariam mais próximos do narcisismo são a vergonha de si mesmo e, principalmente, a inveja.
Para ele, o fenômeno das selfies não é algo que acometa aqueles mais ávidos pela fama ou por se tornarem celebridades, mas, sim, uma prática diretamente relacionada à facilidade de se tirar esse tipo de retrato, proporcionada pela era dos smartphones, e pela agilidade de se divulgar as imagens pelas redes sociais. Essa onda estaria, então, mais ligada ao instrumento do que ao próprio sujeito.

Elea firma que isso não é algo propriamente patológico de cada pessoa. É próprio do dispositivo criado. O próprio mecanismo induz a um certo exibicionismo. “A selfie explodiu com as redes sociais. É como se a sociedade de certa forma já estivesse esperando por isso. Foi um encaixe perfeito, como são os encaixes narcísicos”, explica.
O mestre em comunicação pela Cásper Líbero, Marcelo de Mattos Salgado, no seu site www.elucidez.wordpress.com, fala sobre a síndrome das selfies. “Creio que a selfie pode ser interpretada como a síntese visual do individualismo na era digital; ou a maior manifestação (por agora) do sujeito feito objeto tecnologicamente. Mas talvez “individualismo” seja apenas uma gradação insuficiente — portanto, imprecisa — para falar de comportamentos cada vez mais exagerados e recorrentes”.

Ele afirma que, como quase tudo na vida, a prática tem seus prós e contras. O individualismo a partir das redes sociais digitais nos libertaria das restrições de grupos fechados, enquanto pede certo conhecimento técnico para lidar com as tecnologias; e, talvez mais importante ainda, exige um aprendizado para lidarmos com as novas e inúmeras possibilidades sociais de conexões em redes digitais. Ao longo desse aprendizado, como sempre, erros e acertos.

Diante desses fatos, somente uma certeza. A geração das selfies tem afetado a forma das pessoas expressarem seus sentimentos e mostra que estamos caminhando para o indivialismo e do momento de fama proporcionado pelas redes socais.

O selfie e o narcisismo de Freud
O site globo news apresentou uma matéria sobre o selfie, afirmando que, numa época em que o selfie e as redes sociais estão em alta, o livro ‘Introdução ao narcisismo’, um dos textos mais importantes de Sigmund Freud, completa 100 anos e se mantém atual. “Na obra, o pai da psicanálise cunhou conceitos que serviram de base para a reformulação de toda a teoria psicanalítica. Associado a algo estritamente negativo, o narcisismo foi valorizado”, diz o texto.

A matéria apresenta a opinião do psicanilista Felipe Pena, comentarista de comportamento do Estudio1,  que explica que “sem uma pequena dose de narcisismo, você não sai nem de casa”.

Entre os pontos positivos do narcisismo estão a capacidade de qualificar as próprias ambições e aspirações e a normatização dos ideais. “Você consegue entender o que é ou não factível”, diz Pena. Por outro lado, o narcisista pode ser incapaz de relacionar com os outros, chegando a depreciá-los.
O psicanalista diz que é possível identificar os narcisistas pelo sentimento de vazio e depressão que sentem ao não conseguir ter uma vida relacional. “É preciso separar o egocêntrico do egocentrado. O egocêntrico é o que não valoriza os outros. O egocentrado é aquele que valoriza a si próprio”, explica o comentarista.

A origem do selfie
O Selfie é uma palavra em inglês, um neologismo com origem no termo self-portrait, que significa autorretrato. Normalmente uma selfie é tirada pela própria pessoa que aparece na foto, com um celular que possui uma câmera incorporada, com um smartphone, por exemplo. Também pode ser tirada com uma câmera digital ou webcam. A particularidade de uma selfie é que ela é tirada com o objetivo de ser compartilhada em uma rede social como Facebook, Orkut,  Myspace,  Instagram, por exemplo. Uma selfie pode ser tirada com apenas uma pessoa, com um grupo de amigos ou mesmo com celebridades.

Segundo o dicionário Oxford, o “selfie” pode ser rastreado até o ano de 2002, quando a palavra foi usada em um fórum online australiano. Um homem postou uma foto de ferimentos em seu rosto, depois de ter tropeçado em um degrau. Ele pediu desculpas pela foto estar fora de foco, dizendo que não era por ele estar bêbado, mas porque se tratava de um “selfie”.

Em 2013, a prática de tirar selfies ganhou popularidade a nível global e a palavra passou a fazer parte do nosso vocabulário, tanto que selfie foi escolhida como a palavra do ano de 2013 do idioma inglês pelo dicionário Oxford. Os editores do dicionário afirmam que a palavra evoluiu do uso restrito a um nicho nas mídias sociais para um termo usado corriqueiramente por pessoas no mundo inteiro. Ainda de acordo com os editores, as pesquisas apontam que a frequência do uso da palavra no idioma inglês aumentou 17.000% em 2013. O aumento no uso da palavra foi calculado pelos editores do dicionário usando um programa que coleta mensalmente cerca de 150 milhões de palavras em inglês atualmente em uso na web.

O lado negativo do selfie
Apesar de ser apenas uma foto, o vício pelo “selfie” perfeito levou um jovem de 19 anos a tentar se matar. Danny Bowman é obsecado por postar fotos suas nas redes sociais. Na tentativa de tirar a foto ideal, o britânico passava 10 horas por dia realizando até 200 selfies.

Danny perdeu quase 30 quilos, abandonou a escola e não saiu de casa por seis meses para tentar encontrar a foto perfeita. Frustrado com suas tentativas, o adolescente tentou se suicidar com uma overdose. A mãe do jovem conseguiu salvá-lo. Hoje ele faz um tratamento intensivo de terapia para controlar o vício em tecnologia e o Transtorno Dismórfico Corporal, um tipo de ansiedade excessiva com a aparência pessoal.

“Estava constantemente em busca da selfie perfeita. Quando percebi que não podia, queria morrer. Perdi meus amigos, minha educação, minha saúde e quase minha vida”, disse o rapaz ao jornal britânico Daily Mirror.

Danny é considerado o primeiro viciado em selfie da Grã-Bretanha. Ele começou a postar esse tipo de fotos no Facebook aos 15 anos. A dependência em selfies está sendo reconhecida como um problema grave pelos psiquiatras. Segundo David Veal, psiquiatra que cuida do jovem e o convenceu a ficar longe dos celulares, essa não é uma questão de vaidade. “É uma das doenças mentais com a mais alta taxa de suicídio”, afirmou o especialista ao jornal.

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