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Entenda os protestos na Venezuela

Ala radical da oposição quer forçar presidente Maduro a deixar o poder. Três pessoas morreram; dezenas ficaram feridas e foram presas

Carros foram incendiados durante protesto que deixou três mortos na Venezuela no dia 12 de fevereiro
Do G1, em São Paulo

A Venezuela tem enfrentado momentos de tensão desde o início de fevereiro, com protestos de estudantes e opositores contra o governo. A situação se agravou em 12 de fevereiro, quando uma manifestação contra o presidente Nicolás Maduro terminou com três mortos e mais de 20 feridos. Ao mesmo tempo em que milhares foram às ruas para criticar o governo – em um contexto de inflação, insegurança, escassez de produtos básicos e alta criminalidade – outros milhares se manifestaram em favor de Maduro e contra os oposicionistas.

Após as mortes, governo e oposição trocaram acusações. Maduro acusou “grupúsculos fascistas” que teriam se infiltrado no protesto. Já o líder oposicionista Leopoldo López, que convocou seus partidários para irem às ruas, disse que o governo planejou a violência para tentar desacreditar seu movimento pacífico.

O governo acabou ordenando a prisão de Leopoldo López , e novos protestos foram convocados.

As manifestações são como uma reedição da disputa política nas ruas que marcou os anos de governo de Hugo Chávez e a campanha eleitoral que levou Maduro a ser eleito em 2013, após a morte de Chávez.

O contexto atual também complica a situação do governo – os protestos ocorrem em meio a ausência de produtos industrializados nas prateleiras, similar ao início da crise política de 2002, e do controle das regras da economia para o setor empresarial.

Tentando controlar a crescente inflação, Maduro criou um decreto-lei “de preços justos”, que limita o lucro dos empresários locais a 30% sobre o valor da mercadoria. A escassez de produtos aumentou ainda mais após esta medida.

Como começaram os protestos?
Estudantes simpatizantes da oposição, acompanhados de políticos, se reuniram no dia 12 de fevereiro na Praça Venezuela , no centro de Caracas, para criticar a política econômica de Maduro e exigir a libertação de universitários detidos nos dias anteriores em protestos no interior do país.

Enquanto isso, milhares de pessoas vestidas de vermelho, a cor do chavismo, se reuniram em diferentes praças em Caracas e em outros estados, para comemorar os 200 anos da chamada “Batalha da Vitória”, na guerra de independência do país. Nessa data é comemorado o “Dia da Juventude”, em homenagem aos que morreram em combate, e o evento deste ano foi transformado em um ato em defesa de Maduro.

A passeata chavista foi transmitida na íntegra pela televisão estatal, enquanto a dos opositores ganhou destaque em canais privados.

A repressão do governo contra os opositores no dia 12 causou a morte de três pessoas – dois estudantes e um líder comunitário governista.

Dezenas também foram presos – a promotoria venezuelana informou que dos 99 detidos, 73 foram libertadas até dois dias depois. A oposição, entretanto, afirmou que 47 pessoas permaneciam presas três dias após o protesto – a maioria delas estudantes universitários.

Quem são os manifestantes e quais suas exigências?
Os manifestantes são liderados pelo dirigente político Leopoldo López (que é presidente do partido de direita Voluntad Popular), o prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, e por Maria Corina Machado, deputada ultraconservadora. Os dois últimos possuem imunidade parlamentar.

O objetivo deles é obrigar Maduro a renunciar a curto prazo. Os radicais querem uma “via rápida” para tentar tirar Maduro do poder, apostando na mobilização de estudantes anti-chavistas. “Ainda acreditam que devemos esperar até 2019 [fim do mandato de Maduro] para sair deste regime?”, escreveu López no Twitter ao convocar a primeira manifestação.

Henrique Capriles, líder da oposição na Venezuela, em foto de 18 de abril de 2013

Os universitários venezuelanos são historicamente a vanguarda dos protestos de rua no país, e muitos de seus líderes chegaram a postos de poder.

Os protestos expõem divergências dentro da oposição, já que alguns líderes defendem uma posição mais moderada, e argumentam que as manifestações, quando se tornam violentas, acabam corroborando a tese governamental de que os oposicionistas são “sabotadores”.

A tática nas ruas rendeu divergências com ex-candidato presidencial Henrique Capriles, até então visto como principal rosto da oposição. Capriles – líder  do setor moderado da coalizão opositora – é contra a violência, mas também denunciou o governo por sua ação repressora contra os manifestantes.

As duas correntes diferem acerca do método com o qual devem se contrapor ao chavismo. Os moderados acreditam que é preciso reivindicar mudanças no Executivo, admitindo que foram derrotados nas urnas. Já os radicais querem mudar o governo de Maduro, não somente suas políticas.

A oposição também critica o apagão informativo na Venezuela , acusando o governo de estar por trás de uma “censura” nas redes sociais – além do controle do que é veiculado nas TVs, jornais e rádios.

Qual o papel de Leopoldo López?
Leopoldo López, fundador do partido conservador Voluntad Popular, utiliza o radicalismo para projetar-se como uma nova liderança no interior da coalizão opositora, tentando tornar-se uma alternativa a Henrique Capriles , candidato presidencial derrotado por Maduro e até então principal rosto da oposição e dono de uma postura mais moderada.

Ex-prefeito do munícipio de Chacao, ele vem de uma família da elite venezuelana, ligada ao setor industrial e petroleiro.

Leopoldo López, líder dos protestos na Venezuela, em foto de 11 de fevereiro

López vêm convocando os protestos desde o início de fevereiro, e é um dos mais fervorosos defensores da derrubada de Maduro. Ele é acusado pelo governo de ser o autor intelectual da onda de protestos violentos.

Após as mortes no dia 12, a Justiça venezuelana decretou sua prisão , por acusações que incluem terrorismo e homicídio.

Em um vídeo divulgado no dia 16, ele convocou uma nova passeata no dia 18 com direção à sede do Ministério de Interior e Justiça, disse que participará da marcha e afirmou estar pronto para ser preso se isso for necessário.

Como seguiram os protestos?
Após a morte de três pessoas no dia 12 de fevereiro, manifestantes voltaram às ruas em praças de Caracas e outras cidades venezuelanas.

No dia 14, manifestantes foram dispersados por guardas nacionais com bombas de gás lacrimogêneo e jatos d’água, depois de bloquearem duas movimentadas avenidas.

No dia 15, cerca de 3 mil opositores, em sua maioria estudantes , protestaram em Mercedes, zona de luxo da capital venezuelana. Eles estavam vestidos de branco em sua maioria e levavam bandeiras da Venezuela.

As forças de segurança usaram gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar um grupo de estudantes que protestava contra a prisão de manifestantes antigoverno, e mais de 20 pessoas ficaram feridas .

No domingo (16), milhares de opositores voltaram às ruas, com a presença da deputada María Corina Machado e do prefeito metropolitano de Caracas, Antonio Ledezma. Eles rejeitaram a violência dos dias anteriores e pediram que os manifestantes denunciem os “baderneiros infiltrados”.

Após dias de manifestações, o ministro do Interior, Miguel Rodríguez Torres, informou que das 120 pessoas que foram detidas por incidentes em todo o país, 14 ficaram presas e serão processadas pelo incêndio de veículos da polícia, pela agressão a funcionários e porte de armas de fogo.

Como o governo reagiu?
Maduro classificou como tentativa de “golpe de Estado” os incidentes que deixaram três mortos durante protestos no dia 12 de fevereiro. O presidente denunciou que os protestos opositores constituem um “golpe de Estado em desenvolvimento” contra seu governo, e alegou ter usado a força policial para impedir manifestações que não estejam autorizadas, assim como bloqueios das ruas.

A declaração foi dada em um exaltado discurso transmitido por rádio e televisão, no qual prometeu que “a revolução bolivariana vai triunfar”. O presidente disse ter dado “instruções muito claras às forças de segurança (…) que quem sair para tentar exercer violência sem permissão para mobilização será detido”.

Manifestante joga pedra contra a polícia durante protestos em Caracas

No dia seguinte, um tribunal ordenou a prisão do líder oposicionista Leopoldo López por acusações que incluem assassinato e terrorismo.

Maduro o acusa de buscar a violência para tentar dar um golpe similar ao que 12 anos atrás tirou do poder por breve período o falecido presidente Hugo Chávez, embora haja poucos indícios de que os protestos possam derrubá-lo.

O presidente venezuelano também afirmou que o ex-presidente colombiano Alvaro Uribe está por trás das manifestações opositoras no país ao lado do canal de notícias colombiano NTN24, que fez uma ampla cobertura dos protestos.

Qual o posicionamento internacional?
Após as mortes, a Alta Representante da União Europeia (UE) para a Política Externa, Catherine Ashton, expressou sua preocupação pela situação da Venezuela e pediu às partes que desenvolvam um “diálogo pacífico”. Ela ressaltou que a “liberdade de expressão e o direito à participação em manifestações pacíficas são essenciais”.

No dia 15, o Departamento de Estado dos Estados Unidos também manifestou sua “preocupação” com a tensão na Venezuela. Maduro acusa os EUA de confabularem com a oposição para depor o seu governo, e no dia 16 anunciou a expulsão de três funcionários consulares norte-americanos.

O governo do México lamentou a violência e pediu o diálogo para resolver as diferenças.

Entre os que apoiam Maduro, o presidente boliviano, Evo Morales, disse que o “imperialismo norte-americano” e a “oligarquia” venezuelana financiam os jovens que protestam na Venezuela para tentar acabar com a revolução de seu colega Nicolás Maduro.

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