Os cura d’Almas

Lou Marinof escreveu dois livros interessantísssimos: Mais Platão, Menos Prozac, e Pergunte a Platão, ambos publicados pela Editora Record. Seu objetivo é questionar a banalização dos processos de saúde da mente: a busca frenética de psicólogos, psicoterapeutas e psiquiatras, bem como a falsa crença de que existe um comprimido adequado para cada angústia da alma. Diz ele que “se você está chateado porque tem uma pedra no seu sapato, você não precisa de aconselhamento – precisa tirar a pedra do sapato. Falar sobre a pedra não fará seu pé parar de doer, por mais enfático que seja aquele que o escuta e qualquer que seja a escola terapêutica a que ele ou ela pertença. As pessoas que têm um problema físico devem buscar a ajuda de um clínico ou um psiquiatra. Algumas pessoas talvez não obtenham ajuda de Platão, assim como outras não obtém ajuda do Prozac. Algumas podem precisar antes de Prozac, depois de Platão, ou de Prozac e Platão juntos”.

Em outras palavras, tem gente que precisa de remédio, tem gente que precisa de conversa e terapia, e tem gente que precisa das duas coisas. Os remédios da vovó são excelentes, mas não curam tudo (na verdade, quase nada, mas pelo menos a gente sofre menos). Da mesma maneira, as conversas com os amigos são imprescindíveis, mas nem sempre suficientes. As enfermidades da mente exigem cuidado profissional, a atuação dos psicólogos, psicoterapeutas e psiquiatras. Mas tem muita gente confundindo angústia, tristeza e melancolia com depressão. Também é verdade que tem muita gente marcando consulta por razões banais, que poderiam ser bem resolvidas pela vovó ou um bom papo com um amigo. Certamente, os consultórios estão cheios de gente fazendo terapia e tomando remédio em detrimento de relações de afeto que seriam tão terapêuticas quanto o divã ou o Prozac.

Dito isto, que ninguém me acuse de ser contra fazer terapia, procurar um analista ou tomar um remédio contra a depressão ou qualquer outra síndrome que extrapola nossa competência leiga. Chego ao ponto: o aspecto espiritual. Eis algumas questões: Qual o lugar da leitura disciplinada da Bíblia? Em que momento se deve optar pelo quarto onde as portas se fecham para a oração em vez do consultório médico? Qual a importância das amizades espirituais? Em que medida deve-se buscar o Espírito Santo e seu fruto no espírito humano no lugar de um psicólogo ou um psicoterapeuta? O que querem dizer expressões como domínio próprio, perseverança, paciência na tribulação, fé e confiança na bondade e amor de Deus? Quão verdadeiras (e em quais dimensões) são as promessas de Jesus a respeito de alegria completa e paz que excede o entendimento? Enfim, será mesmo que devemos lidar com as sombras da alma, as feridas emocionais, os traumas psíquicos, e as enfermidades do espírito, como se não soubessemos o significado de “o Senhor é o meu Pastor e nada me faltará”?

O psiquiatra, o psicoterapeuta, o filósofo, os amigos, e o colo da vovó são todos, cada um a seu tempo e do seu modo, igualmente imprescindíveis à saúde psico-emocional-espiritual. Uma boa conversa com um pastor ou um padre pode fazer toda a diferença. Mas nenhum deles substitui a experiência profunda com o amor de Deus, o Pai, a graça maravilhosa de Deus, o Filho, e a comunhão e consolação de Deus, o Espírito.

>> Ed René Kivitz é graduado em Teologia pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo, mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo; pastor presidente da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo e autor de vários livros.
 

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