UM DISCURSO PRÁTICO DE FÉ

A quase espontânea capacidade de incriminar alguém é proporcional ao interesse de outro em se safar de um erro, pois quando se culpa alguém os olhos se voltam para o acusado, não para o acusador. Por esta razão um dos mais inquietantes discursos de Jesus Cristo foi acerca da hábil facilidade do ser humano de estender o braço e erguer o dedo indicador para outrem e culpá-lo de algo. Isto fica notório em Mateus 7:3: “E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho?”. Observe que Jesus repreende os fariseus não por terem a capacidade de apontar as falhas alheias, mas sim de serem incapazes de observar seus próprios desacertos. Portanto, o cerne da questão não é o motivo do julgamento, mas sim as vivências de quem está julgando.

O erro dos fariseus não era o fato de acusar, mas sim o de não terem capacidade de praticar o que acusavam. Isto fica explícito no texto de Mateus 23:4: “Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; eles (fariseus), porém, nem com o dedo querem movê-los” – destaque do autor. Por esta razão Jesus adverte os fariseus: “Não julgueis, para que não sejais julgados” – Mateus 7:1. Ao contrário do que se diz por ai, Jesus não queria recriminar o fato de se julgar, mas sim a incompatibilidade prática (ações/obras) daqueles que acusam. Por isto os fariseus seriam julgados, por não viverem aquilo que exigiam dos outros. Em concordância a este postulado o versículo subseqüente afirma: “Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós” – Mateus 7:2.

A inquietante advertência de Cristo aos fariseus se resume da seguinte maneira: antes de apontar os erros de alguém atente primeiramente se você está praticando o que exige dos outros, pois é isto que igualmente exigirão de você. Portanto, o conceito de “fariseu” não é sinônimo de acusador (julgar), mas é aplicável para com aqueles que culpam os outros de algo que ele próprio não vive. Então, contextualizando, pode-se afirmar que nas vivências eclesiásticas a história farisaica se repete, pois há muitos que impõem aos demais diversas obrigações sem que os mesmos as pratiquem. A semelhança dos fariseus, muitos cristãos tem se munido de belos discursos espirituosos e de um puritanismo desmedido, pois assim podem se esconder atrás de suas vidas inglórias e culpar outros pelos seus fracassos ministeriais.

Os fariseus pós-modernos se mostram nas igrejas evangélicas estampando uma superioridade espiritual inatingível, pois assim evitam que outros julguem na medida em que estes estão julgando – já que no ambiente eclesiástico as pessoas tem medo de julgar os “espirituais” (leia-se lí deres religiosos, semelhantes ao “encargo” de fariseus nos tempos bíblicos). Estes confundem (de forma intencionalmente) o termo insubmissão com o conceito de contestação. Segundo os dicionários o termo “insubmisso” se refere a alguém que seja altivo e independente. Contrariamente, o termo “contestação” se refere à capacidade de negar a rigorosidade de alguém. Por tanto, não é insubmissão questionar aqueles que estão nos pedestais exigindo algo das massas, é contestação – isto é bom para o cristianismo, mas ruim para os fariseus.

Os fariseus dos tempos contemporâneos gostam de apontar inúmeras falhas eclesiásticas, são capazes de propor muitas estratégias evangelísticas, se alegram com sugestões inovadoras para o culto e se rejubilam com o fato de poderem fazer melhor do que já é feito. Entretanto, estes são incapazes de colocar em prática a menor das homilias – por esta razão são fariseus. Devido à presença indiscutível dos fariseus no seio das igrejas é que, por fim, se aprende a não mais dar tanto valor para o que as pessoas dizem, e então, se aprende a arte de escutar o que as pessoas fazem. Esta é a gritante diferença entre fariseus e cristãos, o primeiro se limita ao falar, o segundo se satisfaz em fazer.

Os fariseus eclesiais da atualidade sempre tendem a ter “dois pesos e duas medidas” – sobre os outros é pesado, sobre si próprio é leve. Portanto, é válido relembrar o poema: “Quando outra pessoa não faz algo, é preguiçosa; quando eu não faço, estou ocupado. | Quando outra pessoa reclama, é intrigante; quando eu falo, é crítica construtiva. | Quando uma pessoa teima, é cabeça-dura; quando eu faço, estou sendo firme e coerente. | Quando outra pessoa fala de si mesma, é egocêntrica; quando falo, preciso desabafar. | Quando outra pessoa encara os dois lados do problema, é indeciso e fraco; quando eu o faço, sou compreensivo. | Quando outra pessoa faz algo sem ordem superior, estava excedendo suas funções; quando eu o faço, é iniciativa” – texto de autor anônimo.

Enquanto as igrejas ainda continuarem sendo o recôndito para os fariseus, então, a frase de Margaret Mead (antropóloga, 1901-1978) continuará a ecoar: “O que as pessoas dizem, o que as pessoas fazem e o que elas dizem que fazem, são coisas inteiramente diferentes”. Portanto, a igreja evangélica brasileira precisa de cristãos que ousem questionar (julgar) sem medo de igualmente serem julgados na mesma medida; cristãos que não sejam espirituosos, mas sim espirituais, ao ponto de entenderem que são seres humanos passivos de erros; cristãos pensadores que ousem romper a medíocre linha do discurso e arrisquem sofrer as conseqüências do fazer.

Por fim, é válido criar um diálogo entre dois grandes pensadores ativistas, Martin Luther King (1929-1968), que afirma: “O que mais preocupa não é o grito dos violentos, dos corruptos, dos desonestos, dos sem-caráter, dos sem-ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons”. E, Edmund Burke (1920-2001), que completa: “Ninguém comete erro maior do que não fazer nada porque só podia fazer pouco”.
Fortalecido pela cruz de Cristo!

>> VINICIUS SEABRA é professor das áreas de teologia e administração; diretor do Seminário Evangélico de Teologia da América Latina (www.setal.org.br); presidente da Missão Tocando as Nações (www.mtn.org.br); e, pastor da Comunidade da Fé – Igreja Cristã (www.cofe.org.br) em Goiânia, Goiás, Brasil.

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