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QUANDO FAZER O CERTO É O ERRADO

>> Vinícius Seabra

Desde mui pequeno somos ensinados a fazer o certo, mas pouco se ensina sobre sermos certos. A preocupação central está na ação de fazer e nada tem haver com a essência de se ser. Deste dualismo épico que se digladia em nossas histórias é que surge a lacuna pseudo-ética de fazer o que não se é, criando um habitat para viver de aparências, nutrindo-se de falsidades, e regozijando-se na irrepreensibilidade do que é feito. Quando focamos em ações facilmente nos esquecemos da natureza/essência, dai elogiamos quem deveria ser repreendido, exortamos aqueles que estão lutando contra os pecados invisíveis e exoneramos aqueles que incansavelmente insistem em não ser algo que não são. No contexto pós-moderno estes abutres da visibilidade se encontram numa perspectiva instável, pois o fazer certo não é mais algo estático, mas sim mutável, dependendo então dos interesses, da tribo, da época, dos sentimentos, da mídia, enfim… fazer o certo neste mundo torna-se uma tarefa exaustiva e inconclusa – as aparências dependem dos espelhos que a refletem.

Quando se faz o que é certo tende-se a receber estímulos externos que corroboram para a continuidade desta ação, pouco se preocupa com a intenção, motivação ou razão de se fazer. Quando se faz o certo apenas se escuta os aplausos, abafando a suave voz da consciência que questiona quem somos. Tal cenário é antagônico quando a ação é rotulada de errada, neste contexto cria-se várias homílias que tentam engenhosamente explicar (ou pelo menos justificar) o porquê de não se fazer outra vez a ação errada. Quando erramos as pessoas a nossa volta tentam nos convencer que isto não é coerente com quem somos, associando perceptivelmente a ação à essência. Por esta razão o problema em questão neste artigo não são as ações erradas, pois estas recebem atenção adequada relacionando o fazer ao ser. É por este vácuo de percepção que surge o “certo errado”.

O erro sempre fará parte de nossas vivências, pois é isto que caracteriza uma sociedade ativa. O terrível é perscrutar o disfarce do erro que paulatinamente vem agregando vestimentas de acerto para fugir das exortações e receber congratulações. Então, é possível fazer tudo certo e ser completamente errado. Arriscaremos alguns exemplos: quando um artista milionário doa parte de sua riqueza para um projeto social na África subsaariana esta seria uma ação certa, mas o que se percebe é que atualmente ajudar os miseráveis dá status e prestígio, então, o que era para ser uma boa ação na verdade escondia uma má intenção – é o “certo errado”. Quando um político ajuda uma comunidade carente esta seria uma ação certa, mas o que se percebe é que o tal político quer apenas se reeleger e para isto precisa das massas pobres, então, é o “certo errado”.

Enquanto focarmos nas ações e suas funcionalidades, pouca atenção restará para avaliarmos quem realmente somos. Num mundo de marionetes do bem e espectadores do certo não resta espaço para ser, pois os holofotes estão sempre sobre o fazer. Então, tristemente, o que fazemos pode não ter nada haver com que somos. Esta é a razão do porque existem tantos religiosos que aprenderam a ter atitudes cristãs, mas não se tornaram cristãos. Vão à igreja e ouvem que precisam amar o próximo, perdoar, tolerar as fraquezas de outrem, congregar, doar a si mesmo, falar de Jesus, e tantas outras coisas certas, mas… se esquecem que todas estas virtudes anteriores perdem o valor se estes não tiverem vivido o “nascer de novo” (cf. Gl. 6:15; Jo. 3:3,7; 2Co. 5:17), é necessário que a natureza de Cristo revista nossa antiga natureza.

O “certo errado” pode agregar inúmeras outras formas que desafortunadamente desnudaria uma incompatibilidade entre o fazer cristianismo e o ser cristão, basta um exercício de autocrítica para descortinar a raiz do que estamos fazendo. Rotular e categorizar o certo pelo simples fato do que é perceptível em ação não é a forma mais correta, de semelhante maneira classificar o errado pelos critérios da visibilidade é entrar em um solo escorregadio que pode aniquilar boas intenções que tiveram maus resultados. Enfim, é preciso contradizer o velho ditado popular que ousa afirmar: “de boas intenções o inferno está cheio” – na verdade o inferno está cheio de pessoas que tentaram parecer boas, mas que em suas intenções eram más. Os resultados não revelam intenções, os acertos não denunciam finalidades e a popularidade do certo não convence corruptivelmente a essência do erro. Por tudo que fora exposto é válido ratificar, que indubitavelmente, não resta outro caminho para ser, é necessário “nascer de novo”. E é ali que aprenderemos com erros e não seremos encantados com os acertos.

Fortalecido pela cruz de Cristo.

>> VINICIUS SEABRA é professor das áreas de teologia e administração; diretor do Seminário Evangélico de Teologia da América Latina (www.setal.org.br); presidente da Missão Tocando as Nações (www.mtn.org.br); e, pastor da Comunidade da Fé – Igreja Cristã (www.cofe.org.br) em Goiânia, Goiás, Brasil.
 

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